
O Diário dos Campos noticiou, nesta semana, que o antigo prédio da danceteria Magic está passando por obras. O imóvel, localizado na esquina das Ruas Benjamin Constant e Dr. Colares, no Centro, deve dar origem a três salas comerciais.
PG antes e depois: a Magic e o uso do imóvel
Os tapumes que cercam o imóvel fizeram a população relembrar os tempos em que o lugar era endereço para festas, de 1979 até 2015. Mas, quem observar mais atentamente a fachada do prédio vai notar que ele parece mais antigo que isso.
De fato, antes de ser uma casa de shows, o imóvel da Magic reuniu empresários e figuras políticas tradicionais de Ponta Grossa. Alguns dos quais, inclusive, se tornariam prefeitos da cidade.
As pistas
Uma pista disso está em fotos compartilhadas por Vilmar Pereira nas redes sociais. Ele publicou no Grupo Ponta Grossa Memória Viva, mantido pelo DC no Facebook, fotos do imóvel feitas cerca de 100 anos atrás.
Em duas delas é possível identificar a inscrição “Hervateria Pontagrossense”. Sim, na época em que muitos dos transportes ainda dependiam de trem e carroça, o endereço era ponto estratégico para o comércio de erva-mate. Era comum que os “ervateiros” estacionassem as carroças carregadas com folhas de erva-mate diante do imóvel.
Hervateria Pontagrossense
A instalação* da Hervateria pontagrossense foi iniciativa do coronel da Guarda Nacional Adalberto Carvalho de Araujo. Descendente de uma rica família da burguesia rural, nasceu em Imbituva (PR) em 1896, e atuou no comércio de Ponta Grossa. No final década de 1920, decidiu criar sua própria casa de comércio. Passou, então, a se dedicar à exportação de erva-mate beneficiada, e optou pelo endereço na Rua Benjamin Constant.
Prefeitos de Ponta Grossa
A firma de Araujo se organizou como sociedade limitada. Entre os sócios estavam dois dos futuros prefeitos de Ponta Grossa, que passaram a frequentar o espaço. Firmaram sociedade Rodolfo Osternack (que seria prefeito de PG de 1955 a 1959, e de 1964 a 1968), Elyseu de Campos Mello (prefeito de Ponta Grossa de 1928 a 1930) e Alfredo Guimarães Villela. Os dois últimos se retiraram da sociedade em 1937. Ficaram Araujo e Osternack no comando da empresa, que vendia ao mercado interno e exportava a erva-mate para Chile e Uruguai.
Indústrias Adalberto Araujo
Em fevereiro de 1944, as Indústrias Adalberto Araujo assumiram características de um importante grupo econômico. Suas empresas membro passaram a ser consideradas sociedades anônimas. Mas a maioria das atividades eram controladas pelo grupo familiar da Família Araujo.
Da erva para as olarias
Naquela época, a empresa ingressou no ramo das olarias e na produção de materiais para construção, por ocasião da alta demanda por tijolos na cidade. Surgiu assim a Cerâmica Aymoré S.A.
Setor editorial
Também a partir de 1944, Adalberto Araujo investiu no setor editorial. Fundou a Impressora do Parará, órgão responsável pela divulgação do Jornal do Paraná, um dos maiores periódicos do interior do Estado.
O fim da Hervateria
Após 1964, ocorreram diversas paralisações das atividades da firma, graças à ausência de matéria-prima. Gradativamente, o movimento diminuiu no local. A empresa foi especialmente controlada por Araujo, até a data de sua morte, em dezembro de 1964.
O grupo Adalberto Araujo transformou, em 1968, a antiga barricaria (área destinada a fabricar embalagens para acondicionamento de erva-mate) em uma fábrica de móveis rústicos e artefatos de madeira. Desta forma, o grupo econômico deixou totalmente de operar com erva-mate após 1974. Anos mais tarde, o espaço antes ocupado pela erva-mate e pelos maquinários daria lugar à música alta e à presença dos jovens. Curiosamente, as janelas que foram fechadas na instalação da Magic estão sendo agora reabertas, nos mesmo lugares em que estavam nos tempos da Hervateria.
A pesquisa
*Essa história foi detalhada em dissertação de mestrado de Lucrécia Caron Bertagnoli (1951-2025), quando de sua pesquisa no curso de História do Brasil pela UFPR. Sua investigação, realizada em 1978, se baseou em um mergulho nos arquivos das antigas empresas do ramo, resultando na obra “Indústrias de beneficiamento de erva-mate no Estado do Paraná”. O Diário dos Campos presta homenagem, neste texto, a ela e seu trabalho de resgate dessas informações valiosas sobre a história de Ponta Grossa.
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