04 de junho de 2026

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O náufrago que cruzou os Campos Gerais em busca de tesouros incas


Por Josué Corrêa Fernandes* Publicado 27/04/2025 às 10h07 Atualizado 25/02/2026 às 19h02
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Imagem ilustrativa gerada por IA

Quando nos pomos a cismar sobre a bela região que habitamos; sobre o pujante Estado do Paraná que muito brigou para ser brasileiro frente a Tratados que o colocava nos domínios da Espanha; quando voltamos nosso pensamento para o alvorecer dos descobrimentos da América e do Brasil, fatalmente somos levados a indagar sobre quais foram os primeiros europeus a pisarem as planícies esmeraldinas dos Campos Gerais.

Aleixo Garcia em PG

Pesquisas recentes e registros históricos, evocam a figura do português Aleixo Garcia, que é um misto de lenda e realidade, náufrago de uma das primeiras investidas da Coroa de Castela em direção ao Prata, o qual, com outros companheiros de destino, não quis fazer de seu abandono e de sua aparente desgraça o ponto final da jornada. Integrado à caravela de Diego Garcia de Moguer, ele havia sido um dos marinheiros de João Dias de Solis que, em 1515, após descobrir o Mar Dulce (Rio da Prata), foi morto e devorado pelos índios.

Mas Garcia, radicado na Ilha de Yuru-Mirim (Florianópolis), viveu cerca de nove anos entre os indígenas e aprendera a falar o tupi-guarani, amoldando-se aos costumes dos habitantes da terra. Deles ouvira histórias do reino do Inca, que ia do Pacífico aos Andes, onde o ouro e a prata abundavam.

Em busca dos tesouros incas

Por isso, entre 1523 e 1524, com quatro ou cinco companheiros de naufrágio, deles conhecidos apenas os nomes de Aleixo Ledesma e Francisco Chaves, e mais centenas de índios, partiu em busca dos tesouros incaicos, seguindo o velho caminho de São Tomé ou do Peabiru, que era uma espécie de avenida aberta antes de Colombo e que permitia uma ligação direta entre os dois grandes oceanos.

Caminho do Peabiru

Com um tronco central que orientava os intrépidos viajores e que desembocava em Cananéia e em S. Vicente, mais alguns ramais que levavam para pontos distintos do Atlântico (Paranaguá, São Francisco), essa estrada de oito palmos de largura, já se encontrava marcada pelos pés firmes e pelo andar decidido mormente dos guaranis, cujos conhecimentos geográficos até hoje impressionam.

Desbravador em Ponta Grossa

Aleixo Garcia não se assustou com a distância: 600 léguas a pé, na extensa vereda que os íncolas haviam rasgado entre os Andes e o Oceano Atlântico, cortando pelo meio o território do Estado do Paraná. Saiu de Florianópolis, seguiu os cursos dos rios Itapocu e Itapocuzinho e atingiu os cimos da Serra do Mar. Passou por sítios que, séculos depois, seriam as cidades de Rio Negro, Lapa. No vale do Rio dos Papagaios, avançou sobre as cabeceiras do Tibagi e, em seguida, cruzou as regiões de Ponta Grossa e de outras localidades dos Campos Gerais, nelas deixando impressos os primeiros vestígios do homem europeu.

Garcia cruzando os Campos Gerais

Garcia, ao cruzar os Campos Gerais apenas 24 anos depois do descobrimento do Brasil, certamente manteve contato com os indígenas que por aqui habitavam em grandes aldeias como Abapani (Abapan) e Abangobus. Que impressão ele teve com as campinas extensas povoadas por escuros capões de pinheiros? Com os rios que as cortavam, como o Tibagi, Pitangui, Iapó e outros?

Após cortar a zona campesina e o rio Bitumirim, já na região de matas densas e de morros, mas sempre seguindo o caminho transcontinental do Peabiru, ele e sua comitiva chegaram ao rio Ivai, nas proximidades do Salto Ubá, de onde prosseguiram até o afluente Corumbataí (onde se ergueria, no século seguinte, a cidade espanhola de Vila Rica do Espírito Santo). Em seguida, atingiram os rios Piquiri, Paraná e e Iguaçu (acima do Salto de Santa Maria), subiram o rio Paraguai para alcançar a atual região de Corumbá. Depois, penetraram no Alto Chaco, entre os rios Pilcomaio e Guapaí, chegando, finalmente, nos lugares Potosi e Sucre, onde assediaram povoações incaicas, apoderando-se de ricos despojos.

Um passeiozinho de quase quatro mil quilômetros, através de florestas virgens e de rios caudalosos, debaixo de perigos diversos. Mas essa aventura, no futuro, valeu como poderoso argumento em favor da posse portuguesa sobre a região meridional brasileira.

Destino cruel entre nativos

A epopeia de Aleixo Garcia que, na volta, foi trucidado por tribos inimigas, são fatos históricos comprovados por vários autores, dentre eles, o paraguaio Manuel Domingues, os argentinos Enrique de Gandia e Ruy Diaz de Gusmán, o sueco Erland Nordenskjöld; atestada, ainda, por depoimentos deixados por Sebastián Caboto (1526), Hernandez e Cabeza de Vaca (1543), Irala (1545), Ribera (1545).

A descoberta do tesouro

Segundo Ramirez (companheiro de Caboto), o arrojado português, embora com ingentes sacrifícios, logrou atingir seu principal objetivo que era o de  atingir o império “del Rey Blanco que venia de tener una sierra que era toda de plata”. Pouco antes de sua morte, ainda conseguiu despachar dois de seus seguidores para Santa Catarina, ponto de partida, dando conta do que havia descoberto e da monumental riqueza flagrada nas terras do poente.

Como acentua Jaime Cortesão, “este prestigioso renome deixado por Aleixo Garcia, numa área relativamente vasta, terá de explicar-se, a nosso ver, pela plasticidade e a amorabilidade portuguesa, nativa no homem que abriu caminho à expansão peninsular na América do Sul. Aleixo Garcia figura nesses fastos como um protótipo de português, primitivo duma nação, realizando ao máximo todas as suas virtualidades de pioneiro e homem cordial”.

*O autor é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”. Leia outros textos do autor.

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