Os desafios de cruzar a cavalo a região dos Campos Gerais

Ponta Grossa e a região que a circunda, muito devem ao cavalo que, hoje, mercê do desenvolvimento tecnológico, passou a ser objeto de luxo, quase supérfluo, criado e tratado por alguns poucos abnegados.
Historicamente, as primeiras notícias da presença do animal cavalar nos Campos Gerais, vêm da épica expedição de Álvar Nuñez Cabeza de Vaca, o intrépido espanhol que recebeu a nomeação de Adelantado do Rio da Prata e que, no mês de dezembro de 1541, acompanhado de mais de duzentos homens arcabuceros y ballesteros muy diestros en las armas, fez desfilar a tropa pioneira de vinte e seis cavalos e éguas, remanescente daquela que fora originalmente embarcada em Cadiz.
Um dos obstáculos dos equinos foi, então, a travessia do Rio Tibagi, nas proximidades de Ponta Grossa, não tanto pelo volume e pela força d’água, como principalmente pelo lajeado recoberto de limo que causava grande perigo à expedição: em pasar de la otra parte de este río se rescibió gran trabajo, porque la gente y caballos resbalaban por las piedras y no se podían tener sobre los pies, registro Cabeza de Vaca no livro “Naufragios y Comentarios”.
Bichos estranhos, que arfavam e relinchavam, que cavoucavam o chão e saíam em disparada, os cavalos foram então vistos pelos indígenas como verdadeiros seres extraterrestres, infundindo-lhes grande temor. Por isso, inclusive, mantimentos de toda a espécie, mel, milho, galinhas (!), eram trazidos e oferecidos àqueles seres estranhos que assustavam os índios muito mais do que os soldados do fidalgo espanhol. Esse foi, portanto, o primeiro registro da presença de cavalos na região de Ponta Grossa.
Cavalos nas sesmarias
Entre 1700 e 1720, quando as fazendas de criar avançaram para o interior, o cavalo foi trazido pelos titulares das sesmarias, como Isabel Maria da Cruz (viúva do Sargento Mor José Tavares de Siqueira), Domingos Teixeira de Azevedo (Cambiju), Ana de Siqueira e Mendonça (Itaiacoca), Diogo da Costa Rosa e seu genro Domingos Martins Fraga (Estância de Santa Fé e paragem onde se situa esta cidade).
No inventário do português Domingos Fraga (1764), é possível verificar que, ao lado de terras, escravos, gado bovino, também foi inventariado um lote de animais composto de um cavalo capão velho colônia, seis éguas mansas, vinte e nove éguas de ventre, quatro poldras de sobreano, onze potros de sobreano e um pastor. E alguns anos depois (1770), o enviado da coroa portuguesa Affonso Botelho de Sampaio e Souza, iniciava o vai-e-vem pela região, sempre montado nos melhores cavalos que comprava em Curitiba e nos Campos Gerais, preparando-se para a expedição de conquista do planalto de Guarapuava.
Por volta de 1770, o mesmo coronel português Affonso Botelho de Sampaio e Souza, deslocou-se em bons cavalos até o Porto de São Bento, em Tibagi, inspecionando outros grupos que tinham por missão explorar o rio Ivaí até o Paraná, para depois, sem muito descanso, retornar à pequena vila de Ponta Grossa e nela pernoitar.
Relato de Sant’Hilaire
Já na segunda década de 1800, quando o comércio de tropas vindas do Rio Grande do Sul mostrava-se intenso, o cientista francês Auguste de Sant’Hilaire é quem passa pela região e fala sobre os cavalos então existentes. Hospedado em Jaguariaíva, na fazenda do coronel Luciano Carneiro Lobo, diz que este último possuía oitocentas éguas e tinha por costume adquirir potros no sul, revendendo-os com bom lucro depois de domá-los. Descreve, com precisão, o método da doma e conclui que, nos Campos Gerais, a raça desses animais ainda não se encontrava bem definida.
Na sequência, em 1844, Salvador Correia Coelho, estudante na Corte, vindo à cidade de Ponta Grossa em visita ao irmão, faz diversas anotações a respeito de cavalos e cavaleiros, depois inseridas em seu livro “Passeio à minha terra”. Diz que os ponta-grossenses divertem-se com corridas de cavalos e com jogo de cartas. E que o cavaleiro princesino, além da vestimenta típica, traz sempre uma faca de prata e de ponta sobre o abdomen, chicote com presilha na mão esquerda e rédeas na direita, uma ou duas garruchas e, por vezes, uma espada. Tem que saber “domar para aturar os corcovos e incidentes do cavalo e da equitação, laçar correndo a cavalo, pealar que é a ação de caçar com o laço pelas patas o animal que se pretende segurar. Pingo é o cavalo, peixe é o chicote, cipó é o laço, motucas são as esporas e mortalha é o cigarro de palha que traz aos beiços.
De PG a Europa a Cavalo
Poucos anos depois, em 1858, quando os Campos Gerais já se encontravam razoavelmente povoados, é a vez do viajante alemão Robert Avé-Lallemant fazer cáusticas apreciações acerca das coisas da região, não sem antes ser indagado por alguém que encontrou no caminho, a respeito de onde ficava a Europa. O médico germânico, meio embaraçado com a pergunta, sinalizou para o nordeste, dizendo que o velho continente ficava para esse lado, distante de duas a três mil léguas. De chofre, veio então a última pergunta: “Pode-se ir para lá a cavalo?”.
Mas Lallement não poupou críticas aos equinos, chamando-os de raça degenerada e fraca, que se alimenta apenas de capim nativo, queimado nas geadas fortes, o que tem como consequência a magreza esquelética desses cavalos: “O homem não os socorre: estábulos e forragens são coisas desconhecidas aqui; ninguém quer ter incômodos, ninguém quer trabalhar”…
A teimosia das mulas
O engenheiro inglês Bigg-Wither passou por Ponta Grossa em 1872. Não falou bem dos cavalos pequenos e da teimosia das mulas da região. Só ficou mais tranquilo quando visitou o compatriota Edenborough, dono de uma fazendola nos arredores da cidade, o qual importara da Inglaterra um garanhão puro sangue que fez miséria entre os brasileiros, atando corridas das quais invariavelmente sagrava-se vencedor.
Um hipólogo nos Campos Gerais
Dois anos depois, em 1874, apareceu nos Campos Gerais o hipólogo Luiz Jácome de Abreu e Souza, autor de estudos sobre o cavalo na Província do Rio Grande do Sul e que, nessa época, veio fazer a mesma pesquisa em Ponta Grossa. Para ele, o cavalo paranaense era tão-somente marchador, nenhuma outra característica de relevo apresentando. E o marchador era o produto de raças abastardadas: marcha porque não pode trotar; não trota porque não tem forças: “a disposição das alavancas ósseas é defeituosa, falta-lhes simetria; aos músculos, falta a precisa consistência para por em jogo essas alavancas. Não pode ele executar exercícios violentos, em andadura acelerada, condição indispensável no cavalo de guerra”.
Jácome se propôs a abrir cursos de doma e adestramento de cavalos para sela e carro, clubes de corridas, feiras, importações de melhores raças para cruzamento. Nessa ocasião, fala da existência de um cavallo inglez sangue-puro, de nome Bridegroom (filho do célebre corredor Claret), “um magnífico animal de seis annos, que foi importado em 20 de setembro de 1870, de propriedade do fazendeiro inglez sr. Spencer Neville Edimborough, estabelecido no centro dos Campos-Gerais, no lugar denominado Ponta Grossa”.
O puro-sangue
Bridegroom (noivo, recém-casado) foi, então, um dos primeiros puros-sangues que aportaram ao Paraná e que, nessa condição, principiou a melhorar a raça eqüina.
Posteriormente, em 1880, quando da vinda do Imperador Dom Pedro II a Ponta Grossa, outros registros interessantes existem acerca dos cavalos locais. Ao retornar da Colônia Tavares Bastos, o Soberano parou na propriedade de tenente Pereira Branco, onde tomou uma xícara de café e admirou um lindo cavalo de raça, de cor branca que, inclusive, montou, depois de já haver examinado, de perto, o puro sangue inglês do comerciante local José Pedro da Silva Carvalho, que fazia parte da comitiva de 300 cavalarianos que vieram recepcioná-lo na entrada da cidade.
A partir das duas últimas décadas do século 19, o panorama mudou paulatinamente. A antiga raça de equinos, um tanto degenerada, foi adquirindo melhores características pela vinda de animais de boa estirpe da Europa e também pelo interesse que os fazendeiros passaram a demonstrar.
O autor é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.
