César Ribas da Silva e a Revolução Getulista
Muito ainda se há de falar sobre a revolução chefiada por Getúlio Vargas no ano de 1930. Ainda mais quando a cidade de Ponta Grossa serviu de palco para a estadia desse líder que, do Rio Grande do Sul, acompanhado por seu estafe militar, aqui fazia a primeira parada no Estado do Paraná.
Há muitos anos adquiri numa loja de livros usados, um material mimeografado, escrito pelo ponta-grossense César Ribas da Silva, com o título: “Minhas Memórias dos 7 aos 70 anos”. Filho de numerosa família dos Campos Gerais, proprietária, à época de seu nascimento, da Fazenda Cambiju, ele narra a sua vida movimentada, viajando como cometa pelo Brasil inteiro, a partir do Rio Grande do Sul onde veio a fixar residência.
Devotado à causa da Aliança Liberal, César se encontrava em Ponta Grossa quando da chegada de Getúlio à cidade. Conhecido de várias autoridades locais e rio-grandenses, conta que recebeu convite para compor uma espécie de guarda de honra do chefe rebelde, obrigando-se, daí, a vestir uma farda do Tiro de Guerra 21, para daí compor o grupo que acompanharia Vargas em Ponta Grossa.
Então, assistiu, de visu, duas passagens marcantes que já foram mencionadas nesta coluna: a visita do generalíssimo à dra. Walkyria Moreira da Silva Naked, cujo marido fora assassinado em Prudentópolis pelos opositores e que, convidada a assumir a Interventoria Federal do Paraná, acabou por declinar do convite, preferindo se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo de Promotora Pública.
Foi testemunha também do que se passou no velório do jovem Latino Bravo, morto em combate, quando Getúlio, emocionado, “retirou do seu pescoço um bonito lenço branco bordado pelas senhoras de Erechim” que representava as cores da bandeira de Piratini, colocando-o sobre o rosto do finado. “Como por encanto”, prossegue César, “um revolucionário, tirando o seu lenço, apresilhou-o ao pescoço de Getúlio – lenço encarnado, dos antigos libertadores gaúchos e que agora estavam irmanados em uma única causa”.
Mais à frente, diante da renúncia do Interventor que havia sido nomeado, o autor das memórias integrou a Comissão que foi ao Rio Grande do Sul, em Santa Maria, para que Manoel Ribas, prefeito na ocasião, viesse assumir a administração do Paraná. Antes dos membros da Comissão receberem a confirmação de Ribas, “tiveram que aguardar ali a troca de telegramas do mesmo com Getúlio Vargas e onde seu Manoel dizia que só aceitaria a Interventoria sem aceitar sugestões de quem quer que” fosse. Aceitos os termos colocados por Maneco, a situação se encaminhou e o Estado passou a ser dirigido por esse filho de Ponta Grossa que se mostrou um administrador íntegro e competente.
O autor da coluna Memória Viva é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.
