20 de julho de 2026

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência no portal e personalizar a publicidade exibida. Ao continuar navegando, você concorda com este monitoramento. Leia mais na nossa Política de privacidade.

O curandeiro que desafiou a República: memórias do Contestado


Por Josué Corrêa Fernandes* Publicado 15/02/2026 às 15h42
Ouvir: 00:00
monge
Imagem ilustrativa gerada por IA

A denominada Guerra do Contestado, nas primeiras décadas do século 20, embora acontecesse longe de Ponta Grossa, produziu intensos reflexos na comunidade local, não só pelo fato da cidade, como importante entroncamento rodoferroviário, constituir-se no desaguadouro de notícias quase diárias da conflagração, mas também porque a onda de indignação contra as pretensões catarinenses alastrou-se com rapidez.

Levando líderes princesinos a organizarem movimentos e a se manifestarem com veemência, não contando o fato de que o então 5º Regimento de Infantaria teve decisiva participação na luta.

Motivos

Sabe-se, hoje, numa análise distante e objetiva, que as causas dos embates foram múltiplas e variaram de acordo com a evolução dos acontecimentos: os confrontos, o ajuntamento de pessoas com finalidades místicas e beligerantes, parece ter iniciado, de forma efetiva, em 1912.

Foi quando apareceu o curandeiro e profeta Miguel Lucena de Boaventura (que se denominava José Maria de Santo Agostinho), ex-praça do Exército e desertor da polícia do Paraná, sedizente irmão e sucessor do lendário taumaturgo João Maria de Jesus.

Missão sagrada

Este propalava ter como missão sagrada a restauração da monarquia e que, como enviado divino,fazia-se cercar de vinte e quatro caboclos, armados de revólveres e de espadas feitas de madeira guamirim, a quem chamava de os “Doze Pares de França” (entendendo, canhestramente, que par não significava parceiro, semelhante, mas dupla).

Leitor de “A História de Carlos Magno”, Lucena instituiu uma nova “Távola Redonda” que se instalou nos ínvios sertões do sudoeste e que, sob a liderança de um Artur excêntrico e alienado, buscava o Santo Graal no desamparo e no sofrimento do povo.

Lendário Percival

Esse, era mais um dos complicadores no meio das labaredas que já se levantavam em virtude da acirrada disputa territorial entre o Paraná e Santa Catarina e da nefasta ação da empresa norte-americana Southern Brazil Lumber and Colonization Company, do lendário Percival Farquhar que, adquirindo vastas áreas nas margens da ferrovia, invocando direitos sobre outras, limitava-se a concretizar objetivos meramente comerciais (exploração de madeira de pinheiro, imbuia e cedro), debaixo da afirmação de que, depois, fundaria os prometidos núcleos colonizatórios.

Alheia, porém, aos protestos de posseiros e de outros deserdados que, por seus antecessores, já habitavam nos ricos faxinais antes mesmo da conquista dos campos de Palmas (década de 1830).

Enfrentamento

No mês de outubro de 1912, João Gualberto Gomes de Sá Filho, comandante do Regimento de Segurança do Paraná, à frente de poucas dezenas de homens, enfrentou José Maria na localidade de Irani, acarretando a morte deste pelo sargento Joaquim Virgílio da Rosa, mas também sucumbindo nas mãos dos seguidores do monge que o estraçalharam a facão.

Sangrento episódio

Desse sangrento episódio, também participou o então alferes Adolfo Guimarães, conhecido como Adolfito, que era o imediato do tenente João Busse, comandante da força de cavalaria: Adolfito, quinze anos depois, viria a ser Delegado de Polícia em Ponta Grossa, homem da inteira confiança do Interventor Manoel Ribas.

Reagrupados os caboclos para além do Rio do Peixe, novamente em território catarinense, agora sob o comando de Eusébio Ferreira dos Santos, que dizia receber instruções de São José Maria através de aparições à neta Teodora, aconteceram, em seguida, os recontros de Taquaruçu e Caragoatá em que, não obstante ataques fulminantes das forças regulares (Exército e Regimento de Segurança), os insurgentes, sob o comando de vários chefetes (Alemãozinho, Generoso, Dente de Ouro), não se deram por vencidos.

Ação dos peludos

Ao final, se entrincheiraram no chamado Reduto de Santa Maria, local de difícil acesso, protegido por enormes itaimbés e por estreitos desfiladeiros. Esse, transformou-se no local adequado para fincar a última cidadela dos revoltosos, dificultando a ação dos peludos, como chamavam os integrantes da tropas legalistas.

Hugo Borja dos Reis, do jornal ponta-grossense “O Progresso”, já vinha, então, escrevendo editoriais em que alertava as autoridades em face das proporções que a luta assumia na região do Contestado. Despachando enviados especiais à zona do conflito, ele próprio também acorreu ao local, colhendo informações, observando.

Reis, não estimulava sentimentos de ódio e vingança contra os chamados fanáticos porque os considerava simples brasileiros, abandonados pelos meios oficiais e vítimas de interesses políticos e também econômicos da mega empresa norte-americana que se apoderara de extensas áreas recobertas de mata nativa. Por isso, insistia em providências eficazes do Poder Público para que fosse dirimida de vez a questão de limites entre os Estados do Paraná e Santa Catarina.

Facções sertanejas

Nesse mister, chegou inclusive a entrevistar, em Ponta Grossa, alguns líderes das facções sertanejas, presos pelo Exército, os quais lhe narraram detalhes da estratégia de luta, reafirmando a influência de chefes místicos que não se cansavam de anunciar o retorno dos monges João Maria e José Maria e o objetivo restaurador do movimento, posto que viam na República o grande mal.

Orações

Ao jornalista local de “O Progresso”, foi inclusive mostrada uma das orações que os insurretos traziam escrita num pedaço de papel, dentro de saquinho de pano que penduravam ao pescoço e que, pelos próprios termos, fechava o corpo dos combatentes, tornando-os imunes a canhões e a baionetas:

“Oração dos Apóstolos do sr. José Maria. Espada elétrica (o nome do cavaleiro), nobre cavaleiro de São Sebastião, quem atirar no meu corpo, atira na hóstia consagrada, porque entre a pólvora e a espoleta Jesus Cristo fez morada. Deus adiante, pôs na guia eu (fulano de tal)me encomendando a Deus e à Virgem Maria, que eu não seja preso nem atado, nem do diabo atentado. Guarde-me meu São Celeste, com 7 anjos quebra pedra e 7 quebra ferro; quem me apontar as armas em pedaço ficará e meus inimigos conhecerão que Deus é vivo. Padre, Filho, Espírito Santo, com a hóstia consagrada. Amém”.

Era, então, o ano de 1914. Itaiópolis e Papanduva já haviam sido ocupadas por Alemãozinho e asseclas, cujo objetivo seguinte era Rio Negro. Chiquinho Alonso, o Menino de Deus, com trezentos seguidores, atacara a Estação de Calmon, incendiando a Serraria Lumber, depósitos de madeira, casas e deixando apenas mulheres e crianças como sobreviventes.

O Capitão Matos Costa, à frente de 200 soldados, encontrava-se em Timbó, quando foi avisado das ocorrências em Calmon e chamado para defender União da Vitória. Subestimando o poder do adversário, esse oficial marchou com 60 homens no encalço dos atacantes. Mas quase todos eles, inclusive o comandante, foram trucidados pelo grupo chefiado por Generoso e Dente de Ouro.

Dia do massacre

No dia seguinte a esse massacre, por volta das 24,00 horas, começaram, daí, a chegar as composições ferroviárias de União da Vitória, Marechal Mallet, São João e localidades vizinhas, repletas de pessoas que fugiam da região conflagrada e que, não tendo para onde ir, desembarcavam em Ponta Grossa, narrando os atos de barbárie intentados pelas hordas alucinadas.

O pânico, pois, instalara-se em todo o Vale do Iguaçu, até São Mateus do Sul. E o porto de salvação dos que abandonavam casas, plantações e outros bens, era Ponta Grossa que, em meio a boatos, também deveria ser invadida pelos fanáticos. Nesse contexto, aliás, um dos líderes da revolta – Henrique Wolland, vulgo Alemãozinho, veio a ser assassinado na localidade de Carrapatos (atual Guaragi).

Repetindo o que ocorrera em Canudos, Bahia, esse conflito vitimou milhares de sertanejos e centenas de integrantes das forças legais comandadas pelo general Setembrino de Carvalho que, vitorioso, foi recepcionado festivamente nesta cidade.

O General Setembrino de Carvalho que, a 12/09/1914, assumira, em Curitiba, a Inspetoria da Região Militar com jurisdição no Paraná e em Santa Catarina, foi, então, nomeado comandante geral das forças que interviriam na zona do Contestado, para por fim à guerrilha que já se prolongava por dois anos.

A par da necessidade de pacificação da região, vinham à tona altos interesses contrariados pela ação violenta dos fanáticos que, antes, haviam destroçado as instalações da poderosa Serraria Lumber, em Calmon, no imóvel São Roque, vendido aos norte-americanos por Afonso Alves de Camargo e outros, o qual, enlaçando mais de 51.000 hectares, ainda apresentou considerável excesso.

Os moradores que tinham posse suficiente sobre essa área, foram, no entanto, expulsos pelos capangas da Lumber e os mais recalcitrantes ficaram a cargo do Regimento de Segurança do Estado e, posteriormente, das forças armadas sob o comando do general Carvalho. A Southern Brazil Lumber, afirmava que iria colonizar as terras devolutas à beira da ferrovia, mas o que aconteceu, de fato, foi a exploração das árvores ali existentes: 4.000.000 de pinheiros araucária, 2.000.000 de imbuias e milhões de outras espécies de madeiras de lei.

Leia também: Mais de um século de Carnaval em Ponta Grossa; conheça a história

O Capitão Matos Costa, passando por Ponta Grossa, conversara com o jornalista Hugo Borja Reis e assim declarara à imprensa (dias antes de ser morto): “Os jagunços queixam-se que os coronéis e outros chefes políticos lhes tomaram as terras que habitavam e agora lhes impedem de recorrer às terras devolutas do Governo, por se terem também delas se apossado pessoas conhecidas e que têm facilidade de obter dos governos, grandes territórios nos dois Estados”.

As forças sob o comando do referido general, eram compostas por 8.000 homens das três armas que, daí, passaram a combater os chamados fanáticos que não se intimidaram: espalharam o terror na região, com incêndios e ataques às instalações da Lumber e a fazendas isoladas. No entanto, mais à frente, diante do poderio das forças legais, muitos desertaram e passaram a procurar outros centros.

No dia 13/01/1915, chegou a Ponta Grossa um contingente de 400 pessoas que pertenciam às hostes insurretas e que se retiravam da luta. Instalados na Hospedaria dos Imigrantes, esse pessoal recebeu apoio do público e das autoridades. Aproximava-se o fim dos violentos embates. Da guerra suscitada por interesses políticos e econômicos, acompanhada de longe pela casta de mandachuvas que, vendendo terras, favores e a própria dignidade, ainda ficava no aguardo do butim manchado pelo sangue de milhares de marginalizados.

*O autor é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.

Participe do grupo e receba as principais notícias da sua região na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.
Memória Viva

César Ribas da Silva e a Revolução Getulista

Publicado 18/01/2026 às 14h00

Muito ainda se há de falar sobre a revolução chefiada por Getúlio Vargas no ano de 1930. Ainda mais quando…


Muito ainda se há de falar sobre a revolução chefiada por Getúlio Vargas no ano de 1930. Ainda mais quando…