O Patrimônio da Senhora Sant’ana
No dia 09/01/1830, Domingos Ferreira Pinto e sua esposa Ana Joaquina (pais do barão de Guaraúna), compareceram perante o tabelião da cidade de Castro para doar à Senhora Sant’Ana a paragem denominada Rincão da Ronda que haviam herdado de José Ferreira Pinto e que tinha as seguintes divisas: “principia de um arroio que faz divisa com o ribeirão do reverendo Joaquim Ferreira da Fonseca e por este acima até à cabeceira que se acha na estrada da dita Ronda e, cortando direito à outra vertente que se acha perto da casa de Domingos Vieira, e daí descendo por esta abaixo até fazer barra no dito arroio”.
Lavrado no livro de notas nº 1-A, fls. 23, o ato de liberalidade foi testemunhado por José Joaquim Teixeira e Januário Antônio de Araújo Taques. Tratava-se de uma área extensa que abrangia todo o atual bairro da Ronda, povoada de pinheiros e erva-mate, que encostava em outra dádiva feita à padroeira por Antônio Ferreira da Luz e sua esposa Margarida, descrita como “um terreno de campo que dividia com a boca da Ronda até uma árvore que estrava na estrada que ia para Ponta Grossa”.
Essa espécie de doação para o patrimônio dos padroeiros, eram muito comum no século 19. Mas estas outorgadas à Senhora Sant’Ana, conquanto respeitadas por muitos anos, foram contestadas pela Câmara Municipal, o que principiou com uma requisição feita pelo vereador Frederico M. Bahls ao Vigário a fim de que apresentasse os títulos do patrimônio da Igreja de Santa Ana (12/01/1856).
Esse mesmo edil, que também exercia o cargo de procurador, alegou, anos depois, que muitos particulares vinham desfrutando das terras da Ronda e que, ele, inclusive também teria direito a um quinhão delas, o que não foi aprovado pelos demais vereadores.
A polêmica, entretanto, estava criada e se prolongou no tempo, indo parar no Judiciário da Província que deu ganho de causa à paróquia. Embora houvesse uma decisão judicial a respeito, alguns políticos ainda teimavam em se opor às doações feitas ao acervo da Senhora Sant’Ana, alegando que os termos da escritura lavrada em Castro não eram muito claros.
Já no início dos anos 1900, um dos prefeitos determinou o loteamento dos terrenos da Ronda, passando a vender os respectivos lotes e assim reacendendo a discussão que já existia há mais de meio século. Então, o clero paroquial, não desejando prejudicar terceiros que já se encontravam estabelecidos no dito loteamento, e malgrado a decisão da Justiça que lhe dava razão, acabou por entrar em acordo com a Municipalidade, recebendo outros imóveis em compensação, tal qual o local onde veio a funcionar o Instituto Assistencial São José, na região da chácara Neves.
O autor é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.
