05 de julho de 2026

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência no portal e personalizar a publicidade exibida. Ao continuar navegando, você concorda com este monitoramento. Leia mais na nossa Política de privacidade.

História de assassinato e progresso nos Campos Gerais do século XIX


Por Josué Corrêa Fernandes Publicado 24/01/2025 às 20h13 Atualizado 25/02/2026 às 21h05
Ouvir: 00:00
Vicente Machado em frente à atual sede dos Correios / Foto Ponta Grossa Memória Viva Facebook

José Pedro da Silva Carvalho, português de Vila Nova do Famalicão, assentou raízes em Ponta Grossa ainda antes da criação da Província, porquanto, em 1840, foi que fundou o histórico estabelecimento comercial de secos e molhados, “Casa Juca Pedro”, considerado à época um dos maiores empórios do interior paranaense. Casado com d. Maria da Conceição Branco, filha de um dos primeiros líderes da cidade – tenente Antonio José Pereira Branco, seu patronímico foi emprestado a um dos bairros mais populosos da cidade, o Jardim Carvalho, que era a sede de sua fazenda.

Entre os membros de sua prole (10 filhos!), encontra-se Manoel Pedro da Silva Carvalho, estudante do 4º ano de medicina no Rio de Janeiro que, em 1884, foi vítima de nefando crime de homicídio. O jornal “Dezenove de Dezembro”, do dia 16 de maio, é que faz referência ao fato. Dois índios guaranis, pai e filho, trabalhadores na fazenda de Juca Pedro, inconformados por haverem sido despedidos, articularam a trama para assassinar o dono da estância.

Não o conseguindo, resolveram vingar-se na pessoa de seu filho que, ocasionalmente, encontrava-se na casa paterna. Para tanto, surpreenderam-no num recanto do imóvel, estrangularam-no e esconderam seu cadáver, em pé, na barranca de um rio próximo: “jovem de 22 anos, vindo da Corte visitar sua família, onde há 8 anos estudava no intuito de formar-se, tinha ido à fazenda divertir-se para logo voltar aos estudos e quando para isso se preparava, tornou-se vítima predestinada a saciar a sede de vingança desses homens sanguinários…”.

Presos os autores na cadeia pública, dali mesmo continuaram a ameaçar os familiares de seu ex-patrão, acoroçoados por alguns indivíduos que lhes prometiam proteção. Porém, submetidos a júri popular, não lograram escapar pois que receberam pesada condenação.

O filho mais velho do abastado comerciante, de nome Antônio Pedro da Silva Carvalho, dotado de verve literária e também residente no Rio de Janeiro, foi quem escreveu uma das mais belas crônicas sobre Ponta Grossa, a qual veio a ser estampada em importantes publicações do início do século 20. Ausente do torrão natal há muitos anos, ao retornar, encontrou quase tudo modificado, o que o levou a invocar costumes e imagens da criancice que, a seu ver, teriam sido diluídos pela marcha dos tempos.

Na verdadeira ode que escreve, deixou um saboroso relato da vida princesina nos tempos heroicos e poeirentos da Freguesia, quando volta para os Campos Gerais e constata que a grande maioria das coisas e acontecimentos que docemente povoavam sua lembrança, não mais existiam, cedendo lugar a novas invenções determinadas pelo progresso e pela assimilação de costumes exóticos trazidos por outros povos.

Onde estava, por exemplo, a velha igreja, “singela e sem torres, levantando para o céu o frontispício nu, sem arquitetura nem arte, mas que tinha um não sei que de venerando na sua massa tosca?”  Ela era o símbolo da religiosidade do povo  alegre e sem luxo que, nas procissões, com banda de música e foguetório, dela retirava o painel da padroeira desenhado por João Chagas, vigiando atentamente o lado para o qual se voltaria a estampa da Senhora Sant’Ana que, do topo do mastro e no primeiro vento, indicava a casa do futuro festeiro… Depois, vinha a missa solene, com o maestro Camargo regendo a música e os mais velhos, com balandraus vermelhos, caprichando no latim em resposta às invocações do sacerdote.

Em lugar da “cidade acocorada no cimo de um morro, alvejando a casaria baixa que o sol incisava com a sua luz fulgurante”, o tímido perímetro urbano foi alargado com novas ruas e imponentes sobrados substituíram “as primeiras edificações portuguesas”.

E as festas profanas que se realizavam no pátio fronteiro da Matriz? Onde estavam? As cavalhadas em que mouros e cristãos, vestidos de cores fortes e de aparência bizarra, demonstravam perícia no combate e no manejo de seus fogosos corcéis… Onde se ocultara o jogo galante do aro de ouro, no qual cavaleiros passavam por baixo de um arco que mantinha suspensa a pequena argola: o que fosse mais rápido e certeiro, colhia esse objeto  na ponta da lança, entregando-o depois à dama de sua simpatia…

Já “os escravos e os plebeus brancos”, preferiam outras diversões: as congadas, os batuques e os desafios, onde era preciso ser exímio na execução da viola, ajuntando a isso, veia poética e agilidade mental.

Malgrado essas ausências que o cronista constata, a civilização, com toda a sua força avassaladora, “não conseguira apagar na alma das pessoas, o encanto primitivo das impressões que as emocionaram na infância, nem lhes subtraíra os sítios onde elas acariciaram os primeiros idílios, sentiram a volúpia do primeiro beijo ou o dissabor da primeira desilusão”. Antônio Pedro Silva Carvalho queria voltar “à adolescência, rever a terra naquela rusticidade gentil, ignorada do mundo, com vestidos de camponesa e ingenuidade de virgem”. No entanto, o tempo passou e as transformações se impuseram.

Mas a “cidade campesina”, um século e meio depois, ainda é aquela moça corada que enfeita os cabelos com flor de laranjeira e que se debruça à janela dos casarões da memória, esperando a recompensa do olhar furtivo e das lânguidas serenatas.

Josué Corrêa Fernandes é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.

Participe do grupo e receba as principais notícias da sua região na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.
Memória Viva

César Ribas da Silva e a Revolução Getulista

Publicado 18/01/2026 às 14h00

Muito ainda se há de falar sobre a revolução chefiada por Getúlio Vargas no ano de 1930. Ainda mais quando…


Muito ainda se há de falar sobre a revolução chefiada por Getúlio Vargas no ano de 1930. Ainda mais quando…