Guerreiros
Ao voltarmos os olhos para o passado, entre a névoa espessa dos séculos e os clarões intermitentes do presente, enxergamos figuras indômitas que levaram o gesto até onde chegou o pensamento e que, tais quais os gigantes mitológicos, não conheciam limites para sua coragem.
Os Campos Gerais do Paraná, são o anfiteatro da ação desses homens valentes que punham à prova as fronteiras extremas da vontade, demonstrando aos pósteros, não apenas o velho aforismo do “querer é poder”, mas principalmente o fato de que o marco final do desejo e da ambição humanas é, mesmo, o simples ato de vontade, a mais franca e a mais intensa. Vontade que nos faz conhecer forças profundas enraizadas nos últimos sítios de nossa alma, forças tão poderosas que sequer sabemos ser detentores.
Quem acreditaria nos dias de hoje, à vista de assombrosos avanços biotecnológicos, que homens campesinos montados em cavalos, com a sestra nas rédeas de couro cru e com a destra sobre a espada ou a clavina, seriam capazes de cortar imensos vazios e de chegar aos extremos de São Pedro do Rio Grande do Sul ou às vilas espanholas de Assunção e Buenos Aires?
Qual de nós conceberia, nesta época de drones e mísseis, de aeronaves teleguiadas, que lá atrás, nos tempos épicos de Domingos Martins Fraga, do alferes Atanagildo Pinto Martins ou de José Ferreira Pinto, eles próprios ou seus descendentes arrumariam o baixeiro, a badana e o lombilho, preparariam suas lanças e bacamartes e, ciosos de uma brasilidade que faz tanta falta nos dias atuais, sairiam daqui, das serranias de Itaiacoca, das margens do Pitangui e do Tibagi, para guerrear com os castelhanos, empurrando-os para além do Rio Paraná, expulsando-os da Província Cisplatina, cravando os alicerces da Colônia do Sacramento, sem pouco exigir em troca?
O Paraná, que foi majoritariamente espanhol nos séculos 16 e 17, muito deve a esses heróis. E Ponta Grossa, Castro, Lapa, Jaguariaíva acolheram esses titãs, temperando-os na luta ingente de alargar fronteiras e de cravar o padrão da nacionalidade.
Por isso, evocar o passado faz bem. Além de corrigir rumos e desfazer injustiças, é oportunidade de retemperar forças e de espelhar-se em exemplos, relembrando aos homens de hoje que, nos fundamentos do país continente que habitamos, encontra-se o sangue e o suor abundantes de homens que não tergiversaram, nem se intimidaram, mas que empenharam sua bravura e sua própria vida para que existisse o grande milagre chamado Brasil.
O autor é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.
