04 de junho de 2026

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De dentro da Chácara Dantas brotou literatura


Por Josué Corrêa Fernandes Publicado 20/07/2025 às 11h00 Atualizado 25/02/2026 às 16h35
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Há 50 anos surgia o livro, de feitio artesanal, escrito por Judith Dantas Pimentel, intitulado “Numa Pequena Cidade do Grande Mundo”. Li-o avidamente. Chamou-me a atenção o estilo diferente da autora, sem papas na língua, com o vernáculo brotando de modo agradável nas linhas impregnadas de emoção e de sinceridade.

Escritora na Chácara Dantas

É a história de uma antiga chácara existente em Ponta Grossa, a Chácara Dantas, e de seus habitantes: a autora, nove irmãos, e mais o pai português e a mãe espanhola. Judith evoca lembranças de uma infância cheia de liberdade e de travessuras nas primeiras décadas do século 20.

A par dos luminosos dias que corriam quase sem novidades, é possível vislumbrar os capetinhas cabeceando, cansados das traquinagens do dia, as mãos postas para recitar a singela oração ensinada pela madre: “Dios mio, acostar-me voy. Se me duermo, vigilai-me. Se me muero, perdonai-me. No me dejeis, hasta que em los cielos Tu me juzgueis”.

Também relembra a escola de Nhonhô Collares com a terrível palmatória; as festas pirotécnicas do fogueteiro-mor Pedrinho; a morte da infeliz Rosinha com apenas 15 anos, que preferiu abandonar o inferno doméstico em busca do paraíso celeste.

Fala no Marques, farrista inveterado que amarrava o quati e que depois submergia no bas fond ponta-grossense; recorda-se da limpeza caprichada das botinas, com graxa, cuspo e um pedaço de pano; no Libungo, o mais veloz dos parelheiros, criação fantasiosa de Zorico, mendigo que perambulava pelas ruas da cidade e que, à noite, era carinhosamente acolhido na Chácara. Discorre sobre a súbita mudança de profissão de seu pai, que saiu do reino encantado e sereno de sua casa para as chateações e as vendas a fiado no comércio “Pingo de Ouro”.

Não esqueceu dos tufões que, volta e meia, assolavam Ponta Grossa, das chuvas de pedra, da primeira grande Missão religiosa que vinha resgatar os pecadores, promovendo-os ao purgatório; do vagão abarrotado de bilhões de agulhas de coser, prateadas e douradas, que nhô Matias, em sua sandice, encomendara para vender de porta em porta; das vacas levadas em frente das casas, a fim de que ali mesmo se lhes tirasse o leite. Do desejo imenso de, um dia, vestir-se de anjo nas procissões de Sant’Ana…

Orgulhosa, a autora fala da minha cidade, cujo nome não é lá muito bonito, mas tem explicação. Nas últimas páginas, pergunta: onde estão aqueles homens do passado, onde está o Brasílio Ribas, onde está o Vitor Batista, esses dois velhos lutadores? No cemitério? Homens assim também morrem? E o Bernardo Sávio?

É uma história suave e verdadeira, pontilhada de aventuras e desventuras de uma família numerosa que ultrapassou obstáculos e que conseguiu viver plenamente.

*O autor é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.

** Nota do editor: A área da antiga Chácara Dantas foi adquirida pelo Município, deu origem ao Parque Margherita Masini, com vegetação preservada, mas acabou se tornando área sem uso nos últimos anos. Atualmente, a prefeitura instala no local a nova sede da Secretaria de Meio Ambiente, sob a promessa de ali reativar um parque municipal com toda a infraestrutura de lazer, esporte e consciência de preservação da natureza.

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