30 de junho de 2026

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Da Monarquia para a República


Por Josué Corrêa Fernandes Publicado 30/11/2025 às 17h00 Atualizado 25/02/2026 às 12h31
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No último dia 15 completamos 136 anos de República, após o golpe militar apoiado por alguns civis que depôs D. Pedro II, o último Imperador do Brasil.

Diversas reflexões podem ser feitas a respeito.

Em primeiro lugar, há que se destacar a figura do Monarca decaído que, por quase meio século, governou o país. Filho de D. Pedro I (que declarou a independência) e neto de D. João VI (que transformou o Brasil rapidamente em Estado soberano, abrindo portos, cursos universitários, bibliotecas, bancos), o último governante da fase monárquica era homem preparado para administrar, pessoa dotada de profundos sentimentos democráticos.

A ele se deve, principalmente, o alargamento e a manutenção das atuais fronteiras do maior Estado sul-americano. Até hoje, segundo reiteradas pesquisas de opinião, D. Pedro II é colocado em primeiro lugar dentre aqueles brasileiros que, ao longo de 500 anos, mais e melhor fizeram pela pátria.

Imperador avesso a salamaleques e a cerimônias fúteis, respeitou a Constituição vigente e seguindo as regras do sistema parlamentar, soube equilibrar e moderar os apetites dos partidos políticos (liberais e conservadores), alternando-os no comando da administração. Nos últimos tempos, já idoso e atacado de moléstia que, muitas vezes, o fazia dormitar em cerimônias oficiais, foi alvo de críticas as mais contundentes e de charges que, nos dias atuais, levariam o autor às barras dos tribunais.

A liberdade de imprensa, para ele, era verdadeiro dogma. Em tempos difíceis, palmilhou o território que governava em companhia da Imperatriz Thereza Christina e de ministros, a fim de conhecer de perto as carências do povo. Sem demagogia barata; sem engodos. E foi numa dessas viagens históricas que, no ano de 1880, esteve em Ponta Grossa.

Mas o advento da República não foi fruto de longas conspirações, de fórmulas complicadas em que o povo teve participação, optando pela queda do velho regime. Aristides Lobo, um dos mais ardorosos líderes civis da campanha republicana, depois ministro do Governo Provisório, deixou comentário que bem reflete a situação: “O povo assistiu aquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditavam sinceramente estar vendo uma parada”.

E por fim a definição clara da origem do movimento que instaurou a República: “Por ora, a cor do governo é puramente militar e deverá ser assim. O fato foi deles, só deles, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula”. De se lembrar que os generais Deodoro e Floriano, homens da confiança do Imperador, colocaram-se à testa de sua derrubada.

Em recortes de jornais da época, pacientemente guardados pelo historiador paranaense Francisco Negrão e que se encontram na posse do autor, vê-se que a implantação da República proveio de genuíno golpe militar. Deodoro, que era homem de confiança de D. Pedro II, foi quem chefiou a quartelada, arrependendo-se pouco tempo depois, quando, Presidente do Governo Provisório, renunciou ao cargo e nele deixou Floriano Peixoto, outro “leal” servidor do Monarca, obrigado a enfrentar e a esmagar a guerra civil federalista de 1893/1894, que ceifou a vida de mais de 15.000 brasileiros.

Mas nesses jornais, percebe-se, com clareza, que a população de nada sabia e que o Imperador e sua família foram obrigados ao exílio. Em nota curta, mas cheia de emoção, D. Pedro II limitou-se a afirmar: “À vista de representação que me foi entregue hoje, às 3 horas da tarde, resolvo, cedendo ao império das circunstâncias, partir com toda a minha família para a Europa amanhã, deixando esta Pátria de nós estremecida, à qual me esforcei por dar constantes testemunhos de entranhado amor e dedicação durante quase meio século em que desempenhei o cargo de Chefe do Estado”.

No navio que o levaria à Europa, D. Pedro II teve o gesto de grandeza de recusar auxílio financeiro que lhe fora levado por um militar revoltoso: “Esse dinheiro não pertence nem a mim e nem a você. Mas ao erário. Por isso, recuso-o”. Menos de dois meses depois, os jornais noticiavam a morte da Imperatriz, chamando-a “mãe dos brasileiros”.

Em Ponta Grossa, a Câmara de Vereadores reuniu-se extraordinariamente no dia 18/11/1889, sob o comando do edil Santos Ribas, também presentes José da Rocha Bahls, Mariano Ribas, Ernesto Guimarães Villela e Antônio Dias Batista. A resolução tomada é de uma singeleza sem par: “A Câmara Municipal reunida hoje em sessão extraordinária, por unanimidade de votos, congratula-se com o país proclamando a República dos Estados Unidos do Brasil e reconhece a legalidade do governo provisório. Como símbolo de sua deliberação, abate de seu salão o retrato do ex-Imperador para, em seu lugar, colocar MAIS TARDE a quem o país designar para Presidente da República”. Rei morto, rei posto!

E até agora, continua o sistema republicano com as suas seguidas crises, sem rumo certo, afundado num lodaçal de corrupção e de cínicas barganhas: “Ninguém pensa, onde todos lucram. Ninguém sonha, onde todos comem vorazmente. O que antes era signo de infâmia ou covardia, torna-se título de astúcia. Sombras aviltadas se levantam e parecem homens; a improbidade é exposta com ostentação em vez de ser vergonhosa e pudica” (José Ingenieros).        

O autor é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.

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