Retratos Paranistas III

A Quatro Mãos
Quando os amigos de Jacobus van Wilpe vinham à Chácara Pitangui, em Ponta Grossa, — Curt Freyesleben e Kurt Boiger, sempre, Estanislau Traple e Arthur Nisio algumas vezes — era para pintar, e pintar juntos.
Posavam uns para os outros, pintavam naturezas-mortas, recantos da chácara, por onde cor-ria o Pitangui. Numa tarde no campo, Freysleben e Boiger pintavam duas ou até três telas, En-quanto Jacobus levava para casa a tela apenas desenhada, iniciada, mas nunca completa.
Os outros reclamavam, diziam que ele tinha que soltar a mão e a pincelada, ser menos deta-lhista.
Nunca adiantou. Jacobus pintava de memória, ao longo de vários dias, pincelada a pincela-da. Nisso, era quase um impressionista.
Certa vez Freyesleben impacientou-se, tomou o esboço de Jacobus e o concluiu rapida-mente. Depois trocariam assinaturas no canto da tela. Muitas vezes pintava enquanto Jacobus trabalhava, o que lhe rendeu pelo menos uma tela famosa e premiada: “Campos Gerais”, de 1953.
Nos retratos de Ilse Van Wilpe (1924-1986), pintados ao mesmo tempo, Jacobus assina ambos, mesmo o de Freyesleben. Na delicadeza do único retrato que Jacobus pintou na vida, os olhos do amor.
No quadro que pintaram a quatro mãos, Boiger e Freyesleben não disputam espaço: Boiger faz o rosto, captura os olhos azuis e a expressão curiosa da modelo, que olha para trás.
Freyesleben escolheu a perspectiva, fez o restante da cabeça, o lenço, as costas. Jacobus, que não perdia uma piada, apelidou o retrato de “O Boi Zebu”, criticando o volume do dorso pintado por Freyesleben. Mas nunca deixou de expô-lo em seu próprio ateliê, afinal, estava as-sinado por ambos.
Enquanto Kurt Boiger excursionava pelo país, expondo dezenas de telas a cada mostra, Freyesleben e Jacobus jamais fizeram uma exposição individual. “Quem não quer vender não deveria expor”, pensava Jacobus, embora ambos gostassem de participar de coletivas e salões.




*Renato Van Wilpe Bach é médico, professor universitário e escritor. As fotos são do acervo do autor.
