Um mergulho no passado

Uma história triste está sendo escrita em vários municípios brasileiros e, quando isso acontece, a tristeza maior é sentida por poucos. A derrubada de edifícios tradicionais, de casas de família, de sedes de clubes e assim por diante revela um processo contínuo de apagamento da memória coletiva. E uma palavra pode ser considerada “maldita”, capaz de acelerar esse processo. Entenda no texto abaixo.
O Paraná, como um todo, foi marcado, no século XIX, por ondas de imigrantes oriundos da Europa Ocidental, povos que muitas vezes não se adaptaram aos novos tempos do capitalismo, às mudanças políticas e às disputas de poder em seus países de origem. Ao chegarem ao novo destino, tiveram de se adaptar à realidade de um Brasil que também transformava seu regime político, passando da monarquia para a República.
Promessas aos imigrantes
Muitas promessas e ofertas de apoio feitas pelo governo monárquico, durante essa transição, ficaram esquecidas ou foram ignoradas pelo novo governo republicano. Muitos grupos de imigrantes foram alojados em colônias que nem sempre eram planejadas levando-se em conta as condições de sobrevivência.
Ficavam distantes dos centros populacionais que garantiriam mercado para a produção agrícola dos colonos, bem como acesso a hospitais, médicos e até mesmo a mínimas condições de atendimento às suas necessidades básicas.
A fixação em Ponta Grossa
Alguns desses imigrantes estabeleceram-se em cidades paranaenses, como Ponta Grossa, que passou, com o tempo — especialmente no início do século XX —, a contar com a ferrovia, aproximando-se das colônias.

Doenças no século passado
Em um trabalho realizado nos arquivos da Santa Casa de Misericórdia de Ponta Grossa, encontram-se registros de pacientes oriundos de várias colônias de imigrantes acometidos por doenças decorrentes da ausência de condições humanas dignas. Sarna e sífilis eram enfermidades comuns, inclusive entre jovens de apenas dez anos de idade.
Ao estudar alguns desses grupos, cabe salientar os imigrantes em melhores condições financeiras que se integraram aos centros urbanos. Em um processo de adaptação mais favorável, imprimiram entre os moradores locais sua visão de mundo, relacionada à alimentação, à arquitetura e a outros aspectos importantes, como a fundação de escolas.

Arquitetura estrangeira
Na arquitetura, por exemplo, ainda restam alguns detalhes visíveis nas poucas edificações que, como já foi citado, resistiram à sanha destruidora travestida de progresso. Alguns elementos caracterizam claramente a entrada dessas influências.
Em minhas pesquisas sobre antigas casas de fazenda, visitadas nos anos oitenta como parte de projetos desenvolvidos na Universidade Estadual de Ponta Grossa, percorri municípios como Palmeira, Castro, Tibagi, Ponta Grossa e Ventania. Fotografando e registrando detalhes como número de cômodos, janelas, portas, móveis, dimensões e o uso social das residências, cheguei a algumas conclusões surpreendentes.

“Tombamento”, a palavra maldita
No final do século XVIII e início do século XIX, muitas casas de fazenda pareciam ter a mesma origem, apresentando semelhanças de projeto que não deixavam dúvidas quanto à influência comum. Perguntei a alguns fazendeiros sobre isso e tive a sensação de certa má vontade em falar a respeito.
O objetivo de meu projeto era apenas um estudo histórico, nada além disso. Contudo, como realizávamos medições e fotografias, espalhou-se a notícia de que o grupo que viajava comigo estaria levantando dados para cobrança de impostos. Com muitos esclarecimentos e a apresentação de credenciais, consegui concluir a pesquisa.
Descobertas e destruições
Em Ponta Grossa, conversando com alguns proprietários rurais, obtive informações mais precisas: um construtor alemão, acompanhado de uma pequena equipe, teria sido responsável pela construção de algumas das sedes das fazendas visitadas. A descoberta teve sabor de vitória, logo arrefecido ao saber que, algum tempo depois, algumas dessas belas casas vieram ao chão.
Pergunto-me, às vezes, se carrego alguma culpa indireta por isso. Penso que o motivo tenha sido o mesmo que levou à derrubada de tantas residências antigas no centro urbano: uma única palavra projeta o desaparecimento dessas preciosidades — o “tombamento”. Casas que abrigaram gerações, embelezaram ruas e avenidas e ajudaram a construir a identidade local acabam condenadas pela pressão imobiliária e pela valorização das áreas centrais.
Muitas vezes, são demolidas apenas para dar lugar a uma garagem de cimento destinada ao aluguel. Como é sabido, as casas com detalhes de construção antiga e artística já foram analisadas, em seu conjunto ou em particularidades arquitetônicas, pelo engenheiro e confrade da Academia de Letras dos Campos Gerais, Carlos M. Fontes Neto.
- PG anuncia tombamento preliminar de imóveis
- *Nota de Carlos Mendes Fontes Neto: Ao estudar os detalhes construtivos de prédio de diferentes épocas e estilos, é possível vislumbrar o progressivo desaparecimento de referências históricas e estéticas que outrora compunham a identidade urbana e cultural da região, evidenciando a perda de elementos patrimoniais de significativo valor arquitetônico, artístico e memorial.












