06 de junho de 2026

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O Fantasma do Largo do Rosário


Por Maria Lourdes Osternach Pedroso Publicado 06/06/2026 às 00h00
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Neusa Borges dos Santos Ribas em frente ao campanário, por volta de 1940 (acervo da autora).

Lá pelos idos da década de 1930 a velha Igreja do Rosário já não tinha as suas torres, o tempo se encarregara de demoli-las. Nos fundos do terreno ao lado foi construída uma estrutura isolada do corpo principal da edificação da igreja para instalar o antigo sino de bronze.

Algum tempo depois começaram a encontrar coisas estranhas que movimentaram a cidade. Todas as noites, exatamente à meia-noite, o sino do campanário improvisado dava doze badaladas sozinho, sem a atuação do sineiro.

O assunto provocou muita polemica nas reuniões de bate papo e até o jornal Diário dos Campos ocupou-se do assunto.

Muita gente aglomerava-se nas proximidades do local e pacientemente aguardava a hora em que, infalivelmente, o fenômeno acontecia. E quando a coisa acontecia era uma debandada esbaforida com os incrédulos de cabelo em pé diante da comprovação do inexplicável.

D. Neusa Borges doa Santos contou-me que, ainda menina, ter acordado angustiada, no meio da noite e, com a família, se reunido ao povo aglomerado na esquina da igreja.

Na semiescuridão da cidade mal iluminada, todos cochichavam disfarçando a ansiedade., enquanto esperavam o tão propalado fenômeno acontecer. O tempo de espera foi uma eternidade, mas, de repente, como por encanto, o sino vibrou: tom… tom… tom…até completar as doze batidas, bem certinho. A gente toda de cabelos em pé, já nas primeiras badaladas, debandou espavorida! Os homens fingindo-se indiferentes, as mulheres clamando por todos os santos e a criançada berrando a plenos pulmões.

Baita emoção.

Como não podia deixar de ser, a notícia se espalhou e, a cada noite, a multidão ia crescendo de tal forma que as autoridades foram obrigadas a tomar providencias. Depois de algumas investigações, a polícia acabou por desvendar o segredo do Campanário do Rosário, que nada mais era do que brincadeira da rapaziada. Todos, aliás, rebentos das melhores famílias do centro da cidade. Folgazões, eles amarravam uma cordinha escura na máquina do sino e, da torre a levavam para o denso arvoredo de um pomar vizinho. Lá ficavam eles, escondidos no alto dos galhos mais distantes, esperando as badaladas do relógio da Santa Casa. A única preocupação era puxar a cordinha doze vezes, em uníssono com o relógio do hospital. O resto ficava por conta da imaginação popular que, com a iluminação precária da época, só sabia de uma coisa: o danado do sino tocava por conta própria mesmo e ao povo só restava se arrepiar…

Bons tempos aquele em que a garotada sabia brincar sem agredir, quando a criatividade valia mais que a força bruta e a graça estava em lograr sem causar danos.

Cidade 1
A antiga Igreja do Rosário já sem as torres na década de 1930 (acervo Carlos M. Fontes Neto).

*Maria Lourdes Osternach Pedroso foi professora e historiadora ponta-grossense, fundadora da cadeira 37 da Academia de Letras dos Campos Gerais. O texto original encontra-se no seu livro De como aconteceu publicado em 2001 e adaptado conforme notas originais manuscritas deixadas pela autora.

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