19 de junho de 2026

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Santo de casa: entenda a tradição de ter imagem na fachada


Por Carlos Mendes Fontes Neto Publicado 22/06/2025 às 10h13 Atualizado 25/02/2026 às 17h28
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Desde os tempos imemoriais, as pessoas têm o hábito de invocar proteção divina para a família e o lar. Na casa dos antigos romanos já havia o costume de cultuar divindades em altares domésticos. Esses altares ficavam localizados na entrada da casa, em pequenos nichos nas paredes. Eram conhecidos como Lares ou Penates.

Nicho com Nossa Senhora Aparecida na Rua Operários, Olarias.

O costume é comprovado ao se caminhar pelas ruínas de Pompéia ou Herculano, onde alguns átrios ostentam vestígios dos deuses protetores das casas. A principal função deles era de garantir que nunca faltassem provisões e segurança ao ambiente doméstico, além de proteção contra a fúria de outros deuses que provocavam terremotos, furações ou erupções vulcânicas.

Residência na Rua Nilo Peçanha com imagem de São José, Vila Estrela.

Com o passar do tempo esse costume foi absorvido pela tradição católica e que nos tempos medievais, principalmente nas regiões da Itália, Espanha e Portugal, incorporou o costume de colocar santos cristãos em nichos no alto das fachadas das casas ou edificações religiosas. A imagem do santo na fachada é considerada, na nossa cultura, como forma de proteger e abençoar o lar e seus moradores contra todos os infortúnios, conforme descreve o frei holandês Francisco van der Poel no Dicionário da Religiosidade Popular.

Imagem de São Sebastião pintada em azulejo na fachada de casa na Rua República de São Salvador, Nova Rússia.

E mais, ainda, esses santos eram escolhidos de forma que tinham a ver com a fé das pessoas que na casa residissem. No século XVIII, principalmente em Portugal, a imagem de Santo Antonio se popularizou como santo protetor dos lares e das famílias.

Os santos mais comuns que encontramos nas fachadas das casas do Brasil são: São José, Santo Antônio, São Francisco, Santa Rita de Cássia, e é claro, Nossa Senhora Aparecida. Isso é considerado demonstração pública de fé, além de mostrar a identidade cultural e religiosa do lugar.

Nicho com Nossa Senhora de Nazaré na Rua Prof. Brasílio Ribas, Bairro São José.

Esse hábito foi muito difundido nos séculos XVII e XVIII pela Igreja Católica, sedimentando a religiosidade das famílias. Assim, muitas das construções que resistiram ao tempo apresentam, ainda, essa rica iconografia religiosa. Em Portugal e nas colônias, além dos nichos, surgiu o costume de ostentar azulejos pintados com imagens de santos.      

Nicho com imagem de Santa Rita de Cássia na Rua Ricardo Wagner, Olarias.

A tradição dos santos do lar ainda persistiu por boa parte do século XX, porém devido aos avanços da urbanização moderna e a secularização da sociedade, o costume foi pouco a pouco sendo abandonado nas cidades modernas. Principalmente em centros urbanos que não preservam o patrimônio arquitetônico.

Mas, podemos observar exemplos isolados, principalmente em subúrbios ou comunidades do interior, que ainda mantêm a tradição religiosa. São comunidades que ainda consideram o santo de casa como parte da família: com ele, o fiel desfruta de uma relação direta e pessoal, carregada de emoção.

Nicho com imagem de Sant’Ana no frontão do Colégio Sant’Ana.

Santo de Casa em Ponta Grossa

Em Ponta Grossa tínhamos vários exemplos desse costume, mas atualmente é cada vez mais difícil identificar construções que ostentam na fachada tais elementos. Às vezes achamos uma casa com o nicho, mas ele está vazio, demonstrando que apenas ficou como lembrança de outros tempos.

*O autor é engenheiro, mestre em Planejamento e Projeto Urbano e ocupante da cadeira 9 da Academia de Letras dos Campos Gerais.
**As fotografias são do acervo do autor.

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