19 de junho de 2026

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Folhas mortas


Por Ainda Mansani Lavalle Publicado 19/06/2026 às 00h00
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Gosto de pensar nas coisas que já passaram por minha cidade tão querida. De algumas não sinto saudades, mas de outras, só de lembrar, sinto uma tristeza que dói.

Recordo os sabores que me deleitavam, coisas tão delicadas que desapareceram, pois as mãos talentosas que as produziam não foram substituídas.

Como em um passeio pela memória, lembro-me da primeira vez que tomei um refrigerante. Parecia um presente das fadas. Estávamos indo à Estação Ferroviária esperar parentes que vinham nos visitar. Com apenas cinco anos, fiquei deslumbrada quando meu pai propôs que comêssemos uma empada acompanhada de um guaraná, na Rua Coronel Cláudio. Sinto aquele gosto até hoje.

Em outra ocasião, eu já era mais velha quando fui apresentada à Padaria Glória, na Rua Santos Dumont. O capricho dos irmãos Voigt era admirável, e foi o senhor Emílio quem nos atendeu. Meu avô comprou um pacote repleto dos mais lindos doces e bolachas: língua de gato, fitas de coco, bom-bocado, tortinhas de maçã e muitas outras delícias. Sinto-me privilegiada quando recordo esses momentos

Mais perto de casa, a panificadora do senhor Wiecheteck era outra tentação. Quando o pão d’água estava assando, seu perfume tomava conta da rua. Para uma menina italiana, acostumada ao pão que minha avó fazia, aquilo era uma verdadeira guloseima, justamente por ser diferente.

Havia também um senhor que passava pela nossa rua carregando um enorme pacote cheio de bolos de polvilho e anunciando aos quatro ventos: “Olha o bolo!”. Eu e meu irmão corríamos para catar algumas moedas e saíamos em disparada pela rua para comprar os ditos-cujos.

Outra travessura que fazíamos, quase como uma pequena burla à vigilância de minha mãe, era comprar bananas de um vendedor que percorria as esquinas gritando: “Olha a banana! Troco por garrafa!”. Nós corríamos para apanhar as garrafas vazias de vinho e voltávamos triunfantes com uma penca de frutas.

Outra malandragem envolvia os sorvetes. Muitas vezes ouvíamos ao longe a gaitinha do sorveteiro fazendo o “firoli” bem alto e nosso cofrinho estava vazio. Minhas tias, ainda solteiras, só nos emprestavam uma moedinha, mas mesmo assim íamos comprar um único dolezinho de uva. Depois o derretíamos em um copo d’água para que rendesse mais. Era tempo de calor, e aquilo nos parecia uma delícia.

Toda manhã eu ia para a escola e, quando voltava, a fome apertava. Então passava por uma vendinha perto do Regente Feijó. Aí vinha a segunda linha de tentações, da qual não gosto muito de lembrar. Eram doces sem grande qualidade, mas, justamente por isso — e porque eram proibidos — tinham gosto de pecado: marmeladinhas cobertas de açúcar, gelatinas vermelhas e outras guloseimas que nem sei mais o que eram.

Há também coisas de que sinto muita falta e que desapareceram sem motivo aparente, como a fonte luminosa da Praça Barão do Rio Branco. Geralmente, nas noites de domingo, era comum que as famílias que tinham automóvel estacionassem perto da praça para admirar aquela água colorida que parecia subir em direção ao céu. Para as crianças, era um mundo mágico, sem explicação, capaz de fascinar e tornar a cidade ainda mais especial.

Até hoje não consigo entender como aquela fonte italiana, tão bonita e certamente tão cara, foi destruída a golpes de picareta. Será que algum ET veio abduzi-la, junto com a catedral, a ferrovia e as festas de Sant’Ana? Aquelas festas em que eu comprava lindos ioiôs azuis ou verdes, ou ficava apostando em qual casinha o coelho iria entrar.

São lembranças de uma criança que encontrava nesta cidade tantas coisas que faziam a vida valer a pena.

Com a modernização, Ponta Grossa tornou-se uma bela cidade, agradável para viver. Mas quem aqui vive há nove décadas ainda enxerga, em pontos importantes da paisagem urbana, os vazios deixados pelas demolições e certas construções sem encanto, semelhantes a grandes garagens, que acabam por romper um pouco da harmonia desta cidade tão querida.

Novas delícias surgiram com o passar do tempo, é verdade. Ainda assim, quem vive de memórias sente falta de coisas que somente os mais vividos tiveram o privilégio de conhecer.

Aída Mansani Lavale é historiadora e escritora e fundadora da cadeira 36 da Academia de Letras dos Campos Gerais.
*Cartões postais da cidade, década de 1960 (acervo de Carlos M. F. Neto)

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