04 de junho de 2026

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As atafonas: cultura perdida de bijus, café e música de viola


Por Isolde Maria Waldmann Publicado 19/10/2025 às 17h00 Atualizado 25/02/2026 às 13h56
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Foto da última atafona do Distrito de Guaragi, em Ponta Grossa
Última Atafona de Guaragi: Fazenda Barreiro (foto do acervo da autora)

A palavra atafona é de origem árabe, derivada do galego e que primitivamente indicava um moinho de mão ou engenho de moer, movido por um animal, que tem por finalidade a preparação da farinha de mandioca e seus derivados.

Esse tipo de moinho possuía um eixo que sustentava a roda, em cuja extremidade se achava o jugo destinado ao boi ou mula, que era a força motriz utilizada. Podia ser movida, também, através de uma queda d’água existente, usando uma roda d’água para impelir o sistema. Uma roda menor, dependente da maior, movia o ralo colocado sobre o coche, no qual as raízes de mandioca, já raspadas, convertiam-se em grossa massa semilíquida que em cestas tecidas de fibras de taquara, chamadas tipitis, eram prensadas ou espremidas para se expurgar o sumo venenoso.

Uma terceira roda, adaptada à maior, punha em movimento as pás que no forno revolviam a massa até que, inteiramente seca e mais ou menos torrada, passava à tulha já moída como farinha pronta para o uso.

Moagem movida a tração animal
Detalhe da moagem movida à tração animal. Foto sem data e sem referências.

Os preparativos consistiam em raspar as raízes para limpá-las. Era essencial, porém, não deixar secar as raízes para não dificultar as manipulações de raspar e ralar. E isso era um trabalho manual que dispendia arregimentar o pessoal disponível para ajudar. Então, para o trabalho, juntavam-se todos os familiares e empregados do sítio, assim como os vizinhos especialmente convidados.

Além da farinha obtinha-se também o polvilho. Em fornos menores costumavam preparar bijus (também conhecidos como beijus) para alimentar os participantes dos trabalhos. Servia-se nessas ocasiões café, mate, bijus e cana. E para amenizar o trabalho não faltavam alguns divertimentos, entre os quais as canções populares, tocadas ao som da viola. O preparo da farinha era ocasião de festas entre os vizinhos e familiares. De fato, o trabalho na fabricação da farinha era pesado e reunia muita gente.

Na região de Ponta Grossa, durante o final de século XIX, com a vinda dos imigrantes poloneses, a produção da farinha de mandioca era importante pelo grande volume processado, tanto que era exportada para outras cidades do estado, principalmente nas cidades em que ficavam os funcionários que trabalhavam nas construções das linhas ferroviárias.

Em Guaragi, outrora Entre Rios, havia em torno de 12 moinhos de atafonas. Por esse motivo, a linha férrea passou por dentro da Vila, para facilitar o carregamento das sacas de farinha. Na estrada que passava pelo Taquari dos Polacos, encontramos várias ruínas das antigas atafonas, principalmente nas margens do rio Taquari, as quais eram utilizadas pelos imigrantes poloneses.

Quando pesquisei sobre essa importante atividade desenvolvida na região, descobri uma única atafona, ainda existente, que estava situada na Fazenda Barreiro de propriedade do Sr. João Gasareke e que já se encontrava desativada, mas com toda a infraestrutura de funcionamento intacta. O que desanimou os poloneses foi o baixo preço da saca de farinha, o que os levou a preferir passar a trabalhar na ferrovia. Atualmente, no Distrito de Guaragi não existe nenhuma fabrica de produção de farinha de mandioca. Foi um tempo que passou e as atafonas foram desparecendo…

*Isolde Maria Waldmann é historiadora e pesquisadora. É integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, da Associação Germânica dos Campos Gerais e do Centro Cultural Prof. Faris Michaele e colabora com a Coluna Sherlock Holmes Cultura, no Diário dos Campos

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