05 de junho de 2026

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência no portal e personalizar a publicidade exibida. Ao continuar navegando, você concorda com este monitoramento. Leia mais na nossa Política de privacidade.

A morte de Corina Portugal e a ascensão de Vicente Machado


Por Josué Corrêa Fernandes Publicado 04/04/2025 às 03h00 Atualizado 25/02/2026 às 19h25
Ouvir: 00:00
Devoção ao túmulo de Corina Portugal é patrimônio cultural de Ponta Grossa / Foto: José Aldinan - DC

No decorrer da história do Judiciário ponta-grossense, aconteceram dois julgamentos pelo tribunal do júri que deixaram marcas e consequências na comunidade. Ambos referem-se ao brutal assassinato da jovem carioca de vinte anos de idade, chamada Corina Portugal. Gravitando em torno do crime estão a história política de Vicente Machado e de João de Menezes Dória.

A morte de Corina Portugal

A história demonstrou que Corina Antonieta Portugal foi vítima do próprio marido, o farmacêutico Alfredo Marques de Campos. O feminicídio, praticado com requintes de crueldade (32 punhaladas) ocorreu altas horas da noite. Alfredo havia acabado de retornar das costumeiras andanças por locais onde o jogo, o álcool e a prostituição eram os maiores atrativos. O palco da selvageria foi a própria residência do casal, onde também funcionava a farmácia, nas proximidades de onde fica localizada a Catedral de Sant’Ana.

A morte de Corina e o cenário político

A tragédia, terrível por si mesma, ainda envolveu interesses outros, de cunho político. Sordidamente, esses interesses misturaram-se à cena de sangue naquele dia 26/04/1889, tornando ainda mais torpe o crime. De um lado, Vicente Machado, deputado provincial e defensor do assassino; de outro, o médico João de Menezes Dória.

Boatos que expulsaram médico de PG

João Menezes Dória era concorrente de Machado na Assembleia Provincial. Ambos estavam na faixa dos 30 anos e eram radicados em Ponta Grossa. A tese montada pelo advogado, sustentava-se num inexistente adultério envolvendo Corina e Dória. As provas, além de frágeis, eram altamente suspeitas. Mas bastaram, no início, para desencadear agressiva campanha de difamação contra o médico. A boataria culminou com a sua expulsão da cidade. À frente do grupo, que se imaginava defensor dos maridos de “honra traída”, encontrava-se Vicente Machado.

Primeiro julgamento

Pois bem. O primeiro julgamento do assassinato de Corina Portugal não demorou. Foi no dia 27 de junho do mesmo ano. Nele, apesar da hediondez do delito e da inconsistência das provas, os 12 jurados absolveram o réu por unanimidade. Aconteceu assim, mesmo com o magistrado que presidia o júri, Dr. Caetano Erichsen, determinando por duas vezes o retorno dos jurados à sala incomunicável para nova votação. O veredito continuou o mesmo e, perplexo, o próprio juiz recorreu da decisão ao Tribunal de Justiça. Por esse motivo. o TJ acabou por submeter o réu a novo julgamento.

A ascensão de Vicente Machado

Então, proclamada a República, Vicente Machado tornou-se o principal chefe político do Paraná. E na derradeira sessão de júri, em 27/06/1890, os jurados sorteados simplesmente repetiram o que antes havia acontecido. Houve a absolvição por unanimidade, agora com base na alegação de “loucura momentânea”, de Alfredo de Campos. Tempos depois, ele próprio cometeu suicídio.

E Corina? Em sua humilde sepultura no cemitério São José, 135 anos decorridos de seu martírio, foi a única que sobreviveu na memória do povo. Muitos a consideram santa, legítima intercessora de seus pedidos e de suas aflições junto aos poderes do alto.

*Notas do editor:

  • O relato aqui é uma síntese da pesquisa do próprio autor, Josué Corrêa Fernandes, em seu livro “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.
  • A principal avenida de Ponta Grossa, centro comercial da cidade, atualmente leva o nome de Vicente Machado. João de Menezes Dória, expulso injustamente da cidade em 1889. Dória, no entanto, permaneceu também como interessante figura política (saiba mais aqui).
  • O túmulo de Corina Portugal é local de peregrinação e orações. A devoção em torno de seu jazigo foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial no Município em 2022

O autor, Josué Corrêa Fernandes, é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”. Atualmente é autor da coluna “Memória Viva” do Diário dos Campos, e tem seus textos publicados semanalmente, também na versão impressa do jornal.

Participe do grupo e receba as principais notícias da sua região na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.
Memória Viva

César Ribas da Silva e a Revolução Getulista

Publicado 18/01/2026 às 14h00

Muito ainda se há de falar sobre a revolução chefiada por Getúlio Vargas no ano de 1930. Ainda mais quando…


Muito ainda se há de falar sobre a revolução chefiada por Getúlio Vargas no ano de 1930. Ainda mais quando…