05 de julho de 2026

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“Esperança –PalavraMágica”


Por Josué Corrêa Fernandes Publicado 28/03/2025 às 03h00 Atualizado 25/02/2026 às 19h35
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“Saudamos-te 1921 pelas esperanças que trazes em teu bojo. E que os nossos votos de paz se traduzam em factos, engalanando-te de risos e sonhos como róseas guirlandas a enlaçarem um deus pagão – o deus que aos mortais acenava com a doce perspectiva da Felicidade !”. Assim começava a edição do “Álbum do Paraná”, dedicada à cidade de Ponta Grossa. Vão-se 104 anos! Na capa, com seu vasto bigode, de terno sóbrio, gravata de laço e olhar determinado, Brasílio Ribas, prefeito e coronel da Milícia Cidadoa.

Nessa revista, muitas são as coisas que chamam a atenção e que evocam um passado em que os homens não tinham só barbas e cavanhaques, mas inteireza de caráter e completa seriedade naquilo que faziam. Era o tempo do “devo que pagarei”, quando não havia necessidade sequer de se escrever o valor e a data de vencimento e nem de se firmar contratos com letras miudinhas e cláusulas intermináveis. Uma sorte de campo e de mato, para os lados de Itaiacoca – era desse modo que se identificavam os sítios e fazendas. E nem por isso fervilhavam rusgas ou demandas de limites.

Na publicação, renovam-se as promessas e anelos de esperança para o novo ano, todos falando em saúde e paz, mas sempre preocupados com o futuro, com conquistas materiais e progressos palpáveis.
Hoje, no terceiro milênio, muito embora os assombrosos avanços da ciência, não abandonamos esse sentimento que Aristóteles definiu como um sonho feito de despertares. Frente ao desemprego, à fome, à corrupção, aos engodos de políticos; à miséria moral e espiritual que, infrene, toma conta do mundo, a única tábua de salvação continua a ser a virtude teologal da esperança.

Esperança por dias melhores em que o idealismo e a pertinácia dos pioneiros ponta-grossenses, sirvam de inspiração na luta do dia a dia.

Desse começo, há exemplos diversos de pessoas que souberam nutrir a esperança e que, perseguindo-a, deixaram importantes lições de vida. José Martins Collares, o Nhonhô Collares, é alguém que relembra o termo “Varão de Plutarco”: roupa escura, gravata borboleta, pera que se ajusta ao olhar bondoso, porém enérgico. Ele e o pai Agostinho empunharam a bandeira da educação em tempos difíceis, sem qualquer assistência oficial. O progenitor, que dá nome à rua dr. Colares, aqui aportou como magistrado em 1865. Logo, no entanto, trocou a toga pela cátedra. Cônscio, talvez, de que a justiça não se distribuía apenas em audiências ou sentenças, visto que a arte de dar a cada um o que é seu também frutificava nas salas de aula durante o afanoso processo de despertar inteligências e de lapidar personalidades.

No ano da graça de 1921, o Álbum do Paraná continua a falar de pessoas e de esperança.

As mulheres ponta-grossenses (Lúcia Dechandt, Leony Loures Pacheco, Abgahy Camargo de Queiroz, Sophia Klüppel), além de bonitas e elegantes, não se encontram mais escondidas nos casarões das fazendas, fechadas nos quartos. As senhorinhas, de feições alegres, reúnem-se no “Grêmio das Chrysallidas”, presidido por Eloyna Cadilhe.

Mais adiante, surgem os imigrantes poloneses: homens de terno e gravata, matronas de olhos claros e vestidos longos, festejam a data da independência de seu país, debaixo do pavilhão que mostra a grande águia branca, de asas abertas e cabeça coroada.

No indicador profissional, novas surpresas: Paschoalino Provisiero, dono da Alfaiataria “Biela”, é também o empresário que faz funcionar o “Theatro Sant’Anna”. Contrata companhias teatrais; exibe filmes da Metro, Triangle, Pathé, num ambiente em que abundam palhetas e leques. Miranda, na Rua 15, é o coiffeur cinco estrelas e Caspiol, da “Pharmacia Solano”, é a maior novidade para caspa e queda de cabelos. O. Guimarães & Cia. (Avenida Fernandes Pinheiros, 14) reproduz retratos dos mais antigos por meio da força da luz solar e ainda faz trabalhos a óleo, pastel, aquarela.

A Cervejaria Adriática S/A (“palácio do néctar espumante”), de Henrique Thielen, joga no mercado quinze mil dúzias de “Adriática Pilsen, Adriática Poschorr, Operária, Primor”, todas “leves e límpidas no seu amarello-topazio”.

O maestro José Rispolli, do Conservatório de Milão e o médico Francisco Búrzio, são os representantes da buòna gènte: o primeiro, com o violino, casaca e condecoração espetada na lapela; e o segundo, de uniforme militar e três estrelas nas mangas, imponente com seu nariz romano por sobre o bigode fino e pontudo que se equilibra em seus lábios.

Depois, servindo de exemplo, o prefeito Brasílio Ribas vaccina um terneiro em sua fazenda “Capão Grande” (será que a demagogia só foi inventada anos depois por Jânio e sucessores?).

Muitas ainda são as páginas que o Álbum mostra. Homens de peso que imprimiram suas marcas na cidade conservadora e pudica; mulheres charmosas e discretas, madames cujos prenomes se ignora (Mme. Adalberto Carvalho de Araújo, Mme. Alfredo Villela, Mme. Abraham Glasser); anúncios de dentistas e práticos, de advogados e rábulas, de médicos e parteiras; de poetas e cronistas.

Foram essas pessoas que nos precederam na capital dos Campos Gerais e que se alimentaram do pão da esperança, trabalhando, construindo, fazendo planos, como se a vida começasse a cada manhã.

O autor é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.

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