Caso Marlene: casal suspeito fica em silêncio no depoimento

O casal preso preventivamente por suspeita de envolvimento no desaparecimento da empresária Marlene Acácio, de 47 anos, participou de depoimento na Polícia Civil de Ponta Grossa uma semana depois da prisão. Acompanhados por um advogado, ambos permaneceram em silêncio e não responderam aos questionamentos do delegado Fernando Jasinski.
A mulher e o homem foram colocados na sala em momentos distintos, separadamente. Os dois adotaram a mesma postura e não se pronunciaram sobre o caso.
De acordo com as investigações da Civil, os dois sabiam do roubo do cofre que ocorreu no dia do desaparecimento de Marlene: 17 de dezembro do ano passado.
A mulher suspeita é ex-funcionária da empresária e mantinha contato frequente com Marlene. Já o homem é casado com a ex-funcionária e pode, conforme a polícia, ter participado diretamente do roubo horas antes de Marlene desaparecer.
O casal morava no Jardim Carvalho e foi preso no dia 25 de fevereiro depois que a Polícia Civil encontrou pertences de Marlene jogados em um milharal no Distrito de Uvaia, na zona rural da cidade. A hipótese mais contundente é de que a empresária tenha sido morta horas depois do roubo do qual sabia.
Contudo, Marlene é considerada desparecida, visto que não há corpo localizado e que, se estiver viva, ela nunca mais entrou em contato com familiares.
Os suspeitos permanecem presos em Ponta Grossa e as investigações terão sequência para desvendar a participação de cada um dos personagens nos crimes: tanto na questão do roubo quanto no desaparecimento de Marlene Acácio.
Contexto
O enredo do desaparecimento de Marlene ganhou um capítulo que provocou reviravolta na semana passada. Após mais de dois meses de investigação, a Polícia Civil prendeu o casal suspeito de envolvimento no sumiço. Porém, os policiais descobriram que a empresária desaparecida não era apenas vítima da situação. Marlene também estaria envolvida no roubo que ocorreu no mesmo dia em que foi vista pela última vez.
Ela teria arquitetado o crime dias antes em conjunto com o casal. Os dois, supostamente, foram as últimas pessoas a terem contato com Marlene.

O trio almejava um cofre que pertencia a um parente em afinidade da empresária. O objeto, aparentemente, de tempos em tempos passava para a guarda de outra pessoa, em novo endereço. Antes de estar em posse das vítimas do roubo, era guardado justamente por Marlene.
“Isso gerou uma suspeita”, afirmou o delegado responsável pelas investigações, Fernando Jasinski. No planejamento do crime, a empresária atuou, segundo a Polícia Civil, repassando informações privilegiadas aos supostos comparsas, pois tinha proximidade com a vítima que mantinha a guarda do cofre. O conteúdo do objeto ainda é considerado um mistério.
No fatídico dia do desaparecimento e do roubo, a polícia constatou, inclusive, que Marlene esteve na residência do casal de suspeitos no Jardim Carvalho. Naquele dia, ela teria tomado o café da manhã com o casal e, possivelmente, mandou uma mensagem para a vítima do roubo perguntando se ela estava na residência na hora do almoço. Poucas horas depois, ocorreu o assalto e o cofre foi levado.

O roubo ocorreu em Uvaranas, por volta das 11h30, executado por dois homens encapuzados. Eles invadiram a casa, renderam os dois moradores, chamaram um deles pelo nome e pediram pelo cofre. O objeto foi levado logo em seguida. Suspeita-se que um dos ladrões é o marido da ex-funcionária. O segundo participante ainda não foi identificado. Apesar do assalto, as vítimas não fizeram boletim de ocorrência.
A Polícia Civil só descobriu esta ação criminosa no mês seguinte. Foi essa revelação obtida pelos policiais por conta própria que mudou o rumo das investigações do ‘Caso Marlene’. A reportagem questionou o delegado Fernando Jasinski sobre a razão que levou as vítimas a ocultarem o crime. “Por estarem com medo, temendo pela vida. Esta foi a justificativa apresentada”, disse o delegado.
Cerca de quatro horas após o roubo em Uvaranas, Marlene deixou o próprio carro estacionado no Centro e entrou no veículo no qual estavam os dois suspeitos e o filho do casal: uma criança de um ano de idade. Uma câmera de segurança registrou o momento. Essa foi a última imagem de Marlene desde o dia 17 de dezembro.
A Polícia Civil apurou que dali eles seguiram para uma região erma no Distrito de Uvaia, zona rural de Ponta Grossa. A descoberta foi possível depois que um produtor rural localizou pertences de Marlene jogados no meio de um milharal. “Ele encontrou a bolsa com os documentos da Marlene”, relata Jasinski. Esse fato aconteceu no dia 10 de fevereiro. Diante da circunstância, a polícia conseguiu pedir o mandado de prisão do casal.

Marlene está viva ou morta?
As investigações seguem com o intento de localizar Marlene, que nunca mais foi vista e está incomunicável desde o dia do desaparecimento.
Os policiais querem saber o que exatamente ocorreu na ida ao Distrito de Uvaia: Marlene forjou um desaparecimento sem posse da documentação ou, por alguma razão, foi morta pelos ‘comparsas’?
Para o delegado, a segunda hipótese é mais contundente. “Desde o dia 17 ninguém mais teve notícias de Marlene. Ela simplesmente desapareceu e não manteve contato com mais ninguém. Logicamente, diante de todo esse cenário, tudo leva a crer que, infelizmente, ela tenha sido vítima de homicídio e que, possivelmente, o corpo tenha sido ocultado”, expõe.

O que havia dentro do cofre misterioso?
Durante as buscas na residência do casal suspeito, a Polícia Civil não encontrou o cofre roubado. O paradeiro do objeto ainda é um mistério assim como não se sabe qual o seu conteúdo.
Supostamente, há ali algo de grande valor e que, possivelmente, seja de fruto de atividade ilegal. No entanto, os policiais desconhecem o que estava guardado. “Isso não foi repassado nem pela vítima do roubo e nem pela proprietária do cofre”, disse o delegado.
Também não se sabe, mas é possível desconfiar, a razão do cofre ter ficado aos cuidados de diferentes pessoas recentemente, inclusive da própria Marlene.
Marlene não teria sido coagida pelos suspeitos?
A Polícia Civil de Ponta Grossa não tem informações que sugiram coação por parte do casal. “Pelas investigações nós temos que ela repassou as informações aos suspeitos de forma espontânea. Não existe qualquer informação que ela tenha sido forçada a se envolver com essa situação”, diz o delegado.
Primeira versão do casal é desmontada pela investigação
O casal preso chegou a ser ouvido pela polícia dias depois do desaparecimento de Marlene. Marido e mulher foram convocados na época por conta da empresária ter sido flagrada por vídeo entrando no carro. Além deles, os policiais ouviram inicialmente familiares da empresária e um ex-namorado.
A versão apresentada pelo casal era de que o encontro se deu para destrocar notebooks em razão de uma suposta negociação, tendo Marlene, nesta ocasião, pedido para que o casal a levasse até o ex-namorado em determinada região da cidade.
No entanto, a polícia desmontou a versão constatando que esse encontro nunca aconteceu, tendo o ex-namorado chegado em casa antes do desaparecimento. A residência, inclusive, é distante do suposto ponto de encontro alegado pelos suspeitos no depoimento inicial.
Marlene, mãe de quatro filhos, disse que ia comprar fios
Proprietária de um ateliê de costura e bordados, Marlene tinha saído de casa na tarde de 17 de dezembro dizendo que ia comprar fios para a loja. Ela morava com três dos quatro filhos. Pouco dias depois do sumiço, a filha mais velha (Brenda, 24 anos) disse ao DC que o carro no qual a mãe tinha entrado era da ex-diarista, que havia trabalhado há três meses por duas semanas na casa da família.
A ex-diarista teria falado que Marlene pediu carona por estar com a documentação do veículo atrasada. “Isso não procede. Eu tenho todos os recibos que comprovam que o veículo está em dia. E se estivesse com pendências a minha mãe nem teria ido para o Centro com ele”, contou Brenda na época.

Foto: Divulgação/Polícia Civil
Outra informação repassada pelos familiares dá conta de que o GPS do celular de Marlene foi desativado. “Tentamos rastrear o celular dela, mas os dados do GPS foram apagados três minutos depois que ela entrou no veículo. Tentamos ligar, mas o celular permanece desligado desde então. Já percorremos os hospitais da cidade também. E a angústia só aumenta”, disse Brenda na entrevista.
Além de Brenda, Marlene é mãe de duas crianças, de 8 e 11 anos, e uma moça de 19 anos. A empresária namorava um homem que mora em Curitiba e que esteve em Ponta Grossa em dezembro para acompanhar o caso.
