08 de julho de 2026

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O destino do patrimônio ferroviário de Ponta Grossa


Por Carlos Mendes Fontes Neto* Publicado 24/08/2025 às 11h10 Atualizado 25/02/2026 às 15h54
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Foto: Arquivo/DC

A memória ferroviária representa um valioso patrimônio histórico, cultural e social, fundamental para compreender os processos de desenvolvimento e transformação das cidades, da economia local e das relações humanas. As ferrovias foram vetores de modernização, conectando regiões distantes, impulsionando a industrialização e facilitando o transporte de pessoas e mercadorias em escala sem precedentes durante grande parte do século XX.

Os trilhos e uma PG protagonista

Aqui em Ponta Grossa a chegada da ferrovia foi fator importante para garantir o protagonismo da cidade no cenário paranaense como entroncamento ferroviário e ligação da capital com o hinterland. Assim, a cidade se tornou destacado ponto de comércio e de progresso para o estado.

Por aqui passava o trem Itararé-Uruguai (que também era conhecida como trem internacional), por aqui se escoava a produção de erva mate para abastecer os países cisplatinos, aqui se fez história quando Getúlio Vargas partiu de trem para assumir a presidência do Brasil… Mas devido a políticas que não contemplavam a manutenção desse modal de transporte, o ciclo das ferrovias entrou em declínio.

O descarte do patrimônio

O conjunto de instalações e estações que compunham esse patrimônio histórico se desfez, vítima do abandono e da indiferença. As possibilidades que a cidade teve de mantê-los e com isso gerar divisas com turismo foi desperdiçada pela falta de visão. Espaços ferroviários restaurados podem ser usados como museus, centros culturais ou atrações turísticas. Isso não só difunde conhecimento, como também gera renda e incentiva o turismo histórico e cultural.

Acervo despachado para Curitiba

Dizem que o acervo do interior da Estação Saudade foi despachado para a capital, quando o prédio foi entregue para a municipalidade. Talvez por isso a mudança de nome de Roxo Rodrigues para “Saudade”. A Estação Paraná, mais antiga, está em péssimo estado de conservação, moradia de andarilhos, sendo que há pouco tempo apareceu um projeto de restauração, mas sem perspectiva de execução.

Locomotiva e Colégio

A famosa locomotiva 250, dia-a-dia, vai sendo consumida pelo tempo poucos anos após sofrer uma “restauração”.  O antigo [colégio] Tibúrcio Cavalcanti, já sem o medalhão no frontão que distinguia sua importância, foi engolido por torres modernas e na pequena parte que sobrou alguém disse que existiria ali um espaço cultural…

Estação de cargas

A estação de cargas, outrora transformada na Estação Arte, depois de anos de abandono foi recuperada para se transformar na Estação Hub, sinal de que é possível fazer quando se quer. E o 12 de Outubro, embrulhado em tapumes, espera sua derradeira hora para ser radicalmente modificado em mercado público.

Oficinas em cinzas

As Oficinas da Rede, históricas, estão em ruinas, incendiadas. Todo o material que ainda mostrava a importância de um centro ferroviário capaz de fabricar locomotivas e vagões, além de mantê-los, despareceu levado por sabe-se lá quem nesses anos de abandono. Que esplêndido museu teria dado! Capaz de levar o nome da cidade por todo o país.

Assim foi se esfacelando o conjunto ferroviário, que começou quando os trilhos foram retirados do centro. Ainda lembro o fatídico dia em que assisti a original estaçãozinha de madeira de Oficinas ir ao chão com o valioso relógio oito, que marcava os horários dos fluxos do pátio de manobras, se espatifando sobre os escombros.

Nosso patrimônio ferroviário — composto por estações, trilhos, instrumentos, maquinários, locomotivas, vagões, galpões e documentos — carregava elementos arquitetônicos, artísticos e tecnológicos que refletiam a cultura de uma época. Sua preservação teria ajudado a manter viva a nossa identidade e a nossa história.

O brilho da Saudade

Hoje a “Estação Saudade” brilha sob os cuidados de Sesc-Ponta Grossa como um belo espaço cultural e abrigando um pequeno museu ferroviário, montado com o pouco que restou do acervo original da cidade. Sentinela do passado perdido.

Já a passarela que existe próxima, construída nos anos 1930, comprova o desprezo que se tem pela memória ferroviária quando, recentemente, foi recusado o seu tombamento.

Museu Ferroviário Francisco Búrzio – Sesc- Estação Saudade, Ponta Grossa.
Estação Paraná e a locomotiva 250.
Oficinas da Rede Ferroviária
Antigo Hospital da Associação Ferroviária Beneficente 26 de Outubro
Passarela Albary Guimarães

*O autor é engenheiro e mestre em Planejamento e Projeto Urbano. As fotos são de sua autoria.

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Publicado 19/06/2026 às 00h00

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