Grupo percorre ruas de PG nos passos de Faris Michaele

A memória coletiva de uma cidade não se restringe apenas a registros documentais ou relatos orais: ela está impressa nas ruas, nos prédios, nos detalhes arquitetônicos e nos espaços que moldaram a vida cotidiana de gerações.
Busca quase arqueológica
No caso de Ponta Grossa, a ausência de políticas consistentes de preservação revela-se na descaracterização do centro urbano, dificultando a identificação de lugares marcantes da vida de seus personagens históricos. Assim, caminhar pela cidade se transforma em uma busca quase arqueológica, onde pequenos vestígios sobreviventes se tornam testemunhas silenciosas de um passado valioso.
Roteiro
Foi assim que surgiu a ideia de propor um roteiro guiado pela cidade com o objetivo de descobrir pelas ruas a figura de Faris Michaele. Uma visita guiada é uma experiência em que um guia leva um grupo de pessoas por um local, proporcionando uma imersão mais completa e enriquecedora sobre fatos ou personalidades históricas em relação aos locais percorridos.
Porém uma visita mediada vai mais além. O guia passa a interagir como mediador com os participantes e os locais visitados, estimulando a observação atenta, incentivando a reflexão e principalmente, promovendo a troca de ideias e experiências entre os participantes
Assim, no dia 3 de setembro, data de nascimento de Faris, inicia o roteiro proposto, partindo da Biblioteca Paranista Eno Teodoro Wanke, da Academia de Letras dos Campos Gerais, onde Faris é patrono da cadeira 16.
Biblioteca
A biblioteca detém suas obras completas, além de um pequeno acervo memorial de itens que pertenceram a ele. Entre os participantes reunidos, a primeira intervenção foi de David Pilatti Montes que relembrou o tempo em que residia na esquina das ruas Santos Dumont com a Frei Caneca, vizinhando com a família Oberg.
Foi quando ele conheceu Faris, que era namorado de Amelinha Oberg, amiga de sua irmã. Relembrou, também, a época em que dirigia a Gráfica Montes Pereira, depois Gráfica Planeta, quando recebia a visita de Faris para as tratativas da impressão do famoso jornal “O Tapejara”.
Nosso roteiro ainda propiciou ouvir Sérgio Monteiro Zan contar sobre os encontros com Faris na Rua XV. Lembrou de sua figura: um jornal debaixo do braço, a gravatinha… Era sempre uma “aulinha”. Discorria sobre os assuntos mais variados com toda a propriedade. E, abruptamente, se despedia: Então, até logo! Sempre era visto caminhando pela Rua XV, provavelmente a caminho do Centro Cultural Euclides da Cunha, instalado nos altos do Cine Ópera na sua fundação em 1947.
Pelos relatos, o Centro esteve instalado em vários locais. A professora Maria Lourdes Osternach Pedroso lembrou a época que era estudante e costumava frequentar a biblioteca do Centro que na ocasião se encontrava instalada na “Rua da Estação”, hoje o calçadão da Cel. Cláudio. Lembra que ocupava um espaço no prédio dos pais de Faris que se localizava no último quarteirão antes do início da Fernandes Pinheiro. E olha que tinha direito a empréstimo…
Durante nossa caminhada, Sérgio ainda nos contou, ao passarmos pela esquina das ruas Dr. Colares com Cel. Dulcídio, onde hoje está o Edif. Carvalhaes, e que no local havia um casarão, bastante judiado, pintura ocre, que ali funcionou nos anos 1960 o Centro Cultural Brasil-Estados Unidos, que surgiu em 1944 ainda como Centro Cultural Interamericano.
Defecaram no Centro
Após algum tempo funcionando em outros lugares, como na antiga Escola Normal e na Prefeitura, nessa época ali estava instalado. Certa ocasião, invadiram o casarão e Sérgio encontrou Faris indignadíssimo com o vandalismo que foi praticado: defecaram no Centro!
Nossa caminhada seguiu em direção à Praça Barão do Rio Branco, passando pelo prédio atual dos Correios, com a lembrança de que Faris era assíduo frequentador do prédio anterior, sempre recebendo e enviando correspondências não só para todos os cantos do Brasil, mas para o mundo.
Concha Acústica
Na praça, destacamos as salas embaixo da Concha Acústica, onde em certa época foi abrigado o acervo do Museu Campos Gerais, fundado por ele em 1950. Conforme informações de Aída Mansani Lavalle, ali muito do que era descoberto pelas pessoas sobre a ocupação primitiva dos Campos Gerais era recebido por ele, que catalogava com esmero.
Na praça, ainda, dois outros prédios marcaram a vida de Faris: O Regente Feijó, onde ele lecionou de 1937 até 1967, quando se aposentou. Quando ele fundou a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, criada pelo decreto 8.837 de 8 de novembro de 1949, foi no Regente que as primeiras aulas aconteceram.
No ano de 1952, a faculdade passou para o prédio do antigo Colégio São Luís, do Padre Lux, onde as licenciaturas e os bacharelados funcionaram até irem em definitivo para o novo prédio na Praça Santos Andrade em 1960. O antigo São Luís, fundado em 1906, onde Faris iniciou seus estudos em 1917.
Eno Wanke conta na biografia de Faris que Padre Lux o considerava seu aluno predileto e que o próprio Faris dizia ser ele o responsável por seguir para a área do Direito.
O trajeto nos levou para o prédio dos Bacila, na esquina da Avenida Dr. Vicente Machado com a Rua Santana. Ali residiu Faris. Tinha o costume de hastear a bandeira nacional na sacada em dias festivos, e muitas vezes recebia a visita dos índios que vinham bater na sua porta.
Os atendia, mas não deixava entrar. Conversava com eles em tupi-guarani. No portão de acesso pela avenida, a entrada para a salinha onde comandava as reuniões com o pessoal do Centro Cultural Euclides da Cunha e do Clube dos 21 Irmãos Amigos, fundado em 1968.
Diário dos Campos
Quase no final do nosso passeio, passamos pela esquina da Rua Dr. Colares com a Rua Santana onde se situava a sede do jornal Diário dos Campos. Conforme informação do Empo Wake, o jornal estava instalado ali no início dos anos 1950 e foi nessa época que Faris se tornou um grande colaborador do jornal. Segundo Eno, nas publicações do jornal há material para mais um livro….
O final do nosso roteiro foi no Centro de Cultura Cidade de Ponta Grossa, onde o Regente Feijó começou a funcionar em 1927. Faris foi aluno da primeira turma, matriculado quando tinha 15 anos. Já no Regente se destacava, fundando o jornalzinho estudantil “O Fanal”. Se formou em Humanidades, em 1931, dali saindo para cursar Direito na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. Voltou em 1936, advogado. Faris nos deixou em 1977, mas sua presença e obra ainda ecoa pelas ruas e memórias…
Preservar a memória, portanto, não significa resistir ao desenvolvimento, mas sim integrá-lo de forma consciente. É reconhecer que a cidade se constrói no diálogo entre o antigo e o novo, no respeito às marcas do tempo e na valorização de sua identidade. O propósito dessa visita mediada fica definido dessa forma. Sem isso, corre-se o risco de tornar invisível a própria história local, privando as futuras gerações de referências que conferem sentido e pertencimento ao espaço urbano.




*A proposta desse resgate histórico, inédito na cidade, foi desenvolvida dentro da Semana Faris Michaele, criada por lei municipal em 2011. Foi realizada em parceria do Centro Cultural Prof. Faris Michaele e Academia de Letras dos Campos Gerais, com o intuito de presentear a cidade com uma ação de valorização de uma das maiores personalidades intelectuais que a cidade já teve.
As fotos são de autoria de Douglas Passoni de Oliveira, Luísa Cristina dos Santos Fontes e Wilson Freire de Souza.
