Ponta Grossa, topo do mundo

Eram tantas curvas, tantos lamaçais e atoleiros e tantas subidas… E a infância tão demorada na vida quanto nas estradas de chão do Taboleiro. Meu pai tinha um calhambeque – um Dodge 1928, raridade, do qual a originalidade tinha sido roubada pelo acréscimo de uma carroceria, tornando-o um utilitário. O trajeto que os veículos mais modernos fazem em meia hora, o calhambeque percorria em mais de uma hora, numa viagem de solavancos. Meu pai adorava dirigir nas curvas da “Estrada da Cerâmica São Sebastião”, embora não apreciasse os “areões”, e a considerasse mais “perigosa”, pois também era mais movimentada. A outra opção não tinha tantas curvas, era margeada por matas nativas que a mantinham lamacenta por mais tempo, após uma chuva forte. Nós crianças viajávamos na carroceria, preservadas de quedas e traquinagens por um toldo amarrado às grades laterais, o que não nos impedia de produzir imprevistos – previstos, quando se trata de crianças – como desamarrar algumas tiras para podermos apreciar a paisagem. Depois de rezarmos o Pai Nosso, Ave-Maria e Santo Anjo, seguíamos viagem cantando os sucessos do rádio: de Estúpido Cupido e Banho de Lua, aos sucessos dos galãs Wanderley Cardoso, Jerry Adriani e outros. E, claro, O Calhambeque, de Roberto Carlos.
O retorno pela estrada do bueiro não era uma subida tão longa como a da estrada da cerâmica, mas era bastante íngreme justamente no topo, onde se encontrava uma porteira. Com chuva, tanto transpor o bueiro como encarar a subida da porteira era uma temeridade, e a estrada da cerâmica era a opção menos pior, por isso, sempre de olho nos sinais da Natureza, meu pai previa o momento em que, obrigatoriamente, encerraríamos o passeio, a fim de alcançarmos a estrada principal antes de qualquer pingo de chuva cair naqueles caminhos de areões, curvas e na longa subida. Nosso calhambeque chegava ao topo já em primeira marcha, e eu temia que o coitadinho não “aguentasse” tanto esforço. Cessavam as cantigas, pois nossos corpos em suspense exerciam “força solidária”, até sentirmos o alívio do motor, com a troca de marcha, e a retomada da “alta” velocidade de cinquenta por hora.
Mais larga e cascalhada, a estrada principal parecia ser o topo do mundo, os horizontes se alargavam e de longe já se viam o edifício Marieta e o Itapoã, na colina mais habitada de Ponta Grossa. Nos Campos Gerais, todas as subidas alcançam o caminho das tropas e levam a Ponta Grossa, assim como na minha infância.
Texto de autoria de Rosicler Antoniácomi Alves Gomes, Professora de Português e Inglês, Ponta Grossa, escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais (https://cronicascamposgerais.blogspot.com/).
