04 de junho de 2026

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Artigo: Um livro que se deve ler por ser correto


Por Darcio Rundvalt* Publicado 09/11/2025 às 17h49 Atualizado 25/02/2026 às 13h11
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Reconhece-se um bom livro de História a partir de duas características basilares: farta e acessível base documental; reconstituição fidedigna de quadros passados, sejam eles estatísticos ou mentais. Esses dois predicados estão perfeitamente conjugados naquele que talvez seja um dos mais vigorosos e eruditos livros escritos em Ponta Grossa no presente milênio: Uma casa em Ponta Grossa — Manoel Vicente Bittencourt (1841-1903), dos autores Ivo Bittencourt Filho, Antonio Paulo Benatte, Lucas Erichsen e Maikon Scheres.

O livro não é uma mera biografia que nos conta as peripécias de um eminente político local, é um passeio sóbrio pelo Brasil, pelo Paraná e por Ponta Grossa de meados do século XIX.

O filho bastardo (e escravo) do rico morretense Manoel Vicente Bitancourt com a escrava Leonarda nos conduz pela complexa sociedade brasileira do período em que viveu e nos mostra as várias e multiformes possibilidades de vida existentes para um mulato em um Paraná e Brasil que tem sido descritos cinicamente por um geração de maus e más historiadores e historiadoras como “estruturalmente racista”.

Aliás, outro mérito da obra consiste em desmistificar toda a nova mitologia e narrativa identitárias alicerçada em palavras-maná (para retomar a expressão de Roland Barthes) que, ao fazer uso irresponsável e acrítico das teorias decoloniais africanas, não podem ver a complexa mestiçagem e acaboclamento que forjaram o Brasil.

Essa geração conclama o “apagamento” e o “branqueamento” como respostas fáceis, sujeitando a historiografia a seus “lugares de fala”, uma tentativa indiscreta de dobrar o complexo mundo social as suas fantasias históricas de opressão e vilipêndio.

Os autores não rejeitam tratar o racismo que pesou sobre Maneco; muito pelo contrário, eles nos ensinam como os preconceitos e discriminações se efetivavam, mas também como o biografado fez efetiva luta e vida meritosa face aos pejos que lhe eram impostos.

No entanto, jamais ele sofreu processos segregacionistas e mesmo restritivos que caracterizam o mal contra o qual lutam decolonialismo africano e antirracismo em países que praticaram políticas de segregação racial.

Por fim, sem amarras ideológicas e com verdadeiro refinamento historiográfico, Uma casa em Ponta Grossa merece a justa leitura da intelectualidade princesina e brasileira, de modo a se voltar a apreciar e incentivar a correta produção do gênero.

*O autor é doutor em História pela UFPR.

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