O contrabaixista que Ponta Grossa não ouviu


Por Danilo Kossoski
O músico Rodrigo Fávaro em apresentação

Foto: Andrea Nestrea

O músico Rodrigo Fávaro em apresentação
Foto: Andrea Nestrea

Rodrigo Fávaro nasceu em Ponta Grossa, e daqui saiu para se tornar músico de renome nacional e carreira internacional. Após anos de estudo na Suíça, sob orientação do lendário Franco Petracchi, mestre do contrabaixo que revolucionou o ensino e a técnica do instrumento, hoje Rodrigo é o primeiro contrabaixista da Orquestra Sinfônica Brasileira, no Rio de Janeiro.

Com a OSB, ele tocou ao lado de Paulinho da Viola na abertura dos Jogos Olímpicos Rio-16, executando o Hino Nacional. Em 2022, abriu a “Noite do Metal” no Rock in Rio, com a banda Sepultura. Habituada a Mozart e Villa-Lobos, a orquestra ajudou a fazer tremer o chão da Cidade do Rock com a grande banda do heavy metal nacional. Ele também tocou e gravou com Caetano, Gil, Gal, Lenine, Alcione, Djavan.

Além disso, Rodrigo fez parte do Tributo à Legião Urbana, que em 2012 reuniu Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, junto com o consagrado ator Wagner Moura, para homenagear a cultuada banda pop. Ele também se apresentou no Festival de Montreux, e ainda é integrante da Johann Sebastian Rio, orquestra que tem humor e vídeos divertidos como estratégia para atrair o público jovem.

Falta um palco para Rodrigo Fávaro

Todo esse currículo, entretanto, não foi suficiente para que Fávaro se apresentasse em um palco específico: o de sua cidade natal. A Ponta Grossa da Vila Marina, onde o menino Rodrigo cresceu, nunca ouviu o contrabaixo que o renomado músico carrega pelo mundo. E não é porque ele não queira – apenas nunca houve um convite para isso. Curiosamente, a cidade não se deu conta de que um dos seus mais destacados filhos, que já esteve presente em diversos eventos prestigiados, como os Festivais de Música de Brasília, de Belém, e até o de Londrina, esteja por aí, esperando pelo óbvio: uma apresentação, uma masterclass, uma oficina com os músicos locais.

Foto: Divulgação Andrea Nestrea

A música está com Rodrigo desde criança. Nos domingos de manhã, ele assistia pela TV os “Concertos para a Juventude”, com a mesma OSB que anos mais tarde integraria. Sua mãe o deixava ali, enquanto dava conta dos afazeres de casa. “Era um momento em que eu ficava quietinho, encantado com os concertos para piano, com Nelson Freire, Arthur Moreira Lima, Jacques Klein, tocando Schumann, Tchaikovsky”, relembra.

O início da carreira de Rodrigo Fávaro

A carreira profissional começou de forma curiosa. Recém-alfabetizado, ele leu “aulas de piano” escrito numa plaquinha de rua. Atormentou a mãe até ela matriculá-lo nas tais aulas. Depois, aprendeu a tocar o violão do irmão mais velho, e foi para o baixo elétrico, a bateria, o trompete. Aos 15, descobriu que Ponta Grossa tinha uma Orquestra Sinfônica. Bateu na porta e foi recebido por Eduardo Strona, o saudoso mestre princesino que ensinava cordas, sopros, percussão, um pouco de tudo. Strona notou suas grandes mãos e cravou: “Você vai tocar contrabaixo. Começa na segunda.” Foi o primeiro padrinho. Mais tarde, já na Escola de Belas Artes de Curitiba, Maria Helena Salomão viu nele algo mais. “Graças a ela, continuei na música, e me profissionalizei”, diz Rodrigo.

Em 2001, no fim da graduação, concluída no Instituto de Artes da Unesp, em São Paulo, soube que Petracchi estaria no Brasil. Foi até o Rio Grande do Sul, onde tocou diante do mestre, que lhe perguntou, ainda no palco: “Quer estudar comigo? Nem precisa fazer a prova. Entre em contato com o Conservatório e está tudo certo”. Seis meses depois, Rodrigo estava em Genebra. Lá concluiu dois mestrados, criou a “casca” de músico, e voltou ao Brasil em 2009.

Com a OSB, ele viveria os momentos mais marcantes de sua carreira. Entre os quais, um convite inusitado: fazendo mistério, o violinista Bernardo Bessler, o convidava para um trabalho. “Pensei que fosse mais um trabalho comum. Quando cheguei no estúdio e vi Paulinho da Viola, entendi que era muito mais”. O contrato tinha cláusula de sigilo. Nem mesmo a família sabia. Só no dia da cerimônia, com literalmente o mundo inteiro assistindo à abertura das Olimpíadas, a ficha caiu. “Quando voltava pra casa, no metrô, abri meu telefone e tinha várias mensagens de amigos de outros países, dizendo que me viram tocar. Foi realmente emocionante. Que sorte a minha por ter escolhido a música como ofício, pois isso me permite viver essas situações.”

Em abril deste ano, a OSB se apresentou na igreja São Francisco de Paula, no Rio. A soprano convidada era Marília Vargas. Ao contrário de Rodrigo, a também ponta-grossense Marília já se apresentou várias vezes na cidade. “Ela fez um programa lindíssimo, junto com o Fernando Cordella, que é um grande cravista. Foi incrível”, diz. Lá estavam dois ponta-grossenses interpretando repertório de altíssimo nível no Rio de Janeiro.

Desejo de se apresentar em Ponta Grossa

Mas o que Rodrigo Fávaro pensa sobre nunca ter se apresentado em Ponta Grossa? “Eu gostaria de ir, sem dúvida. Ficaria muito, muito feliz. Seria uma realização pessoal mostrar meu trabalho para minha querida cidade natal. Até para meus familiares, que quase nunca veem nada. Poucas vezes a minha mãezinha pôde me ver, quando ela veio me visitar. E também para muita gente da cidade, que nunca teve essa oportunidade”. Imagine, então, um encontro entre Marília Vargas, Rodrigo Fávaro e a Orquestra Sinfônica Cidade de Ponta Grossa. “Seria maravilhoso. Podem me chamar, que eu vou.”

Sobre a carreira musical, Rodrigo reflete: “Tem que fazer com paixão. Pra ser músico, você tem que querer muito. Muito, mesmo. A profissão é só pra quem gosta de verdade, porque nunca acaba. Sempre tem algo para aprender, buscar, aprimorar. A disciplina é muito importante”.

O contrabaixo dele já viajou o mundo. Falta o abraço da sua cidade natal. Rodrigo está pronto para Ponta Grossa, mas Ponta Grossa precisa abrir as portas para seu filho ilustre. Quem sabe, no palco do Cine-Teatro Ópera. Talvez com Marília Vargas e com a Orquestra Sinfônica da cidade. E com Rodrigo Fávaro, finalmente, se sentindo em casa na sua própria casa.

*O autor é professor, pesquisador e produtor cultural radicado em São Paulo.

Assista à entrevista completa em vídeo:

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