Ponta Grossa tem déficit de 35 mil árvores, diz pesquisadora

Silvia Méri Carvalho, professora Pesquisadora Sênior do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), desenvolve projetos de pesquisa e extensão sobre arborização urbana e viária. Ela é coordenadora do V Fórum Paranaense de Arborização Urbana, que aconteceu de quinta-feira (12) a sábado (14), no Campus Uvaranas da UEPG.
Silvia fala nesta entrevista exclusiva ao projeto Pauta Ambiental* sobre a arborização em Ponta Grossa e a expectativa de um planejamento efetivo por parte do poder público municipal.

O Projeto Pauta Ambiental é uma iniciativa do Curso de Jornalismo da UEPG, através de serviço de extensão. O conteúdo é produzido pelos estudantes e pesquisadores, e disponibilizado ao Diário dos Campos e outros veículos de imprensa. Confira a entrevista:
Pauta Ambiental: Dados do IBGE de 2025 indicam que 40% da população de Ponta Grossa moram em ruas sem árvores. Qual a opinião da senhora sobre isso?
Silvia Méri Carvalho: É um pouco complicado esses dados do IBGE, porque eles levantam assim: se tiver uma árvore na rua, eles consideram arborizada. Isso é complicado, porque uma árvore só na rua não traz o benefício que deveria, muito pouco. Acho até mais complicado ainda dizer que você só tem uma árvore na sua rua e ela é arborizada.
E esse era o parâmetro que eles usavam. Então, eles chegaram nos últimos censos a dizer que estavam com mais de 50%, 60%. Não, não é isso. 50% ou 60% arborizada com pelo menos uma árvore. Isso que eles deveriam ter complementado para ficar a informação mais completa.
PA: Existem pesquisas locais mais fidedignas?
Silvia: Nós fizemos um levantamento em 2019, numa orientação de mestrado, com imagem de satélite. É uma estimativa, porque com a imagem de satélite, você vai olhar de cima e vai supor que são tantas árvores que tem ali. Por que eu digo supor? Porque quando olha de cima, pode ter, como nós temos aqui na lateral do campus central, várias árvores, uma do ladinho da outra.
Quando olha de cima, às vezes você enxerga uma copa, mas quando vem a campo, você vê que são duas árvores. Uma muito perto da outra, as copas se confundem. Fizemos um levantamento, uma estimativa de 28.925 árvores só nas ruas públicas, só nas vias públicas de Ponta Grossa. Arredondo para 29 mil para ficar mais fácil, teríamos 29 mil árvores na área urbana de Ponta Grossa.
PA: Isso é pouco ou é bastante para Ponta Grossa?
Silvia: Isso é pouco. Ainda não é o valor ideal. Mas como é que eu sei quanto poderia ter? Existem algumas metodologias que podem ser utilizadas para calcular o número de árvores por quadra, por exemplo. Considerando a extensão da quadra, a largura da calçada e algumas distâncias que devem haver entre a árvore e alguns equipamentos públicos.
Por exemplo, recomenda-se que tenha 12 metros de distância de um semáforo para daí começar a ter a primeira árvore, porque senão essa árvore pode obstruir a visão. Recomenda-se que deixe cinco metros de distância da esquina para a primeira árvore que você plantar. Se eu tenho uma quadra, tenho cinco metros numa esquina e cinco metros no outro.
Aí, se recomenda que deixe três metros de distância da garagem, porque, às vezes, o que você vê? A pessoa planta ali na saída da garagem e tem dificuldade para entrar, manobrar o carro. Distância de dois metros de poste, de bueiro. Nós fizemos esse cálculo e chegamos a um número, fizemos uma estimativa para uma quadra de 100 metros só para a gente ter uma ideia.
PA: Nesse parâmetro, qual seria a área para plantio de árvores?
Silvia: Dentro de 100 metros de distância numa quadra, poderia ter uma área útil de mais ou menos 59 metros de área útil para plantar árvores. Porque os outros 41 metros estariam envolvidos nessas distâncias que você tem que deixar. O semáforo, a esquina, as garagens, os bueiros, postes etc..
Sobrariam 59 metros. Quantas árvores eu posso colocar em 59 metros? Depende do porte da árvore. Se for uma árvore de grande porte, você tem que deixar uma distância entre árvores de grande porte, 12 metros. Entre árvores de médio porte, 10 metros. E distância de árvores com pequeno porte, oito metros. Como nós não tínhamos ideia da largura das calçadas aqui de Ponta Grossa, porque essa informação a gente não tinha disponibilizado pela Prefeitura, nós fizemos a média.
Vamos pegar, então, a de 10. Não é nem o 12 nem o oito, pegamos 10 metros de distância. Então, seriam 59 metros divididos pelos 10 metros de distância. Daria 5,9. Não existem 5,9 árvores. Ou tem cinco ou tem seis, arredondamos para seis. Então, numa distância de 100 metros de uma quadra, você poderia ter seis árvores de médio porte numa distância de 10 metros cada uma delas. Se tivesse pequeno porte, poderia ter um número maior. Se tivesse grande porte, seria um número menor. E isso também dependeria da largura da calçada, porque não se recomenda que em calçadas estreitas tenham árvores. Então, teria que ter pelo menos dois metros de largura uma calçada para poder comportar uma árvore de pequeno porte. Quanto mais larga a calçada, maior seria o porte da árvore que você pode ter.
PA: Então, esse dado de 40% é muito mais escasso?
Silvia: Se nós temos 29 mil árvores, nós fizemos essa estimativa que poderia, com esses cálculos, chegar a 64 mil. Nós teríamos um déficit de 35 mil árvores em Ponta Grossa. E isso é uma estimativa. Se você pegar dados de calçadas, tiver essa informação para cada uma das vias, esse número pode diminuir, porque, se a calçada for estreita, já não dá para colocar. Você poderia me perguntar, poxa, então não dá para colocar na calçada, o que a gente vai fazer? Incentivar parques e praças, você adensa a arborização e também nos quintais das casas. As casas que têm quintais grandes o suficiente podem colocar algumas árvores ali.
PA: E quanto à arborização das praças aqui de Ponta Grossa?
Silvia: Fizemos um levantamento até 2014. Já faz 11 anos. Poderia fazer uma atualização. Mas, na época, nós tínhamos umas 2.500 árvores em todas as praças de Ponta Grossa, que eram em torno de 120, se não me engano, não lembro exatamente o número das praças. Na verdade, várias dessas praças não são praças, são retalhos urbanos, são rotatórias que o pessoal chamou de praça, é um triangulozinho de circulação que chamaram de praça. Então, ainda tinha potencial para adensar mais, e depois foram criadas outras praças. Teria que atualizar esse valor, mas ainda nós tínhamos potencial para colocar árvores em praças. Parques não temos muitos. Mas a gente tem remanescentes florestais, como Boca da Ronda, Margherita Masini, perto do 13 BIB [Batalhão de Infantaria Blindado] e na região da Chapada.
PA: Qual sua análise da arborização no Lago de Olarias?
Silvia: Quando foi construído o Lago, foi colocada toda a arborização, mas eram plantas pequenas. Precisamos também pensar nisso: tem que dar o tempo da planta se desenvolver. Normalmente, o que tem que ter para conseguir já ter árvores de um grande porte? Um viveiro. E a gente não tem um viveiro, nós temos um horto. Antigamente tinha viveiro.
Um horto não tem a função de cultivar as espécies, só de ser uma área transitória para passar por ali e já ser distribuído. Aí, se tivesse um viveiro, aí sim cultivaria árvores de maior porte. O ideal, a recomendação mínima é pelo menos 1,80 metro que tenha altura para colocar na arborização urbana. Hoje, o pessoal já está indicando até 2,20 metros, justamente para evitar que seja depredado, vandalizado, quebrado. No Lago de Olarias, é só esperar mais um pouquinho que elas já vão crescer, elas já vão dar bastante sombra.
O pessoal falava muito mal do Parque Ambiental. Ah, porque é um parque de cimento, porque não tem árvores. Quando ele foi feito, também eram muitas pequenas. Hoje, você vê ali áreas quase com túneis, naquela pista de caminhada. Claro, porque daí cresceu, já faz tempo.
PA: É possível melhorar a arborização nesses dois parques?
Silvia: Cabem mais [árvores]! Nós temos potencial de adensamento, mas, principalmente no caso do Lago de Olarias, tem que esperar um pouquinho, dar um tempo para elas crescerem. Aí, daqui um tempo, uns dois, três anos, você volta lá e fala: A professora tinha razão, já está todo arborizado, já tem sombra.
PA: Qual região aqui de Ponta Grossa a senhora acredita que tem mais arborização?
Silvia: A região de Uvaranas tem bastante, a região da Boa Vista, Contorno. Onde tem menos é a área central, o bairro Neves também não tinha muito, Vila Estrela, mais ou menos. Então, são alguns locais que tem mais e outros menos, mas principalmente o Uvaranas, Contorno, Chapada, Boa Vista têm bastante árvores.
PA: O que cabe ao poder público realizar?
Silvia: Tudo! O poder público tem que fazer. No caso das prefeituras, o poder público municipal é responsável, por lei, por fazer toda a proposição de onde plantar, o que plantar, manter, fazer toda a manutenção, poda. Tudo isso é a prefeitura municipal que tem que fazer. Só que aí eles têm grandes dificuldades, porque a Secretaria de Meio Ambiente não cuida só da arborização urbana. Tem um leque enorme de assuntos. Se não tem uma equipe, um número adequado de pessoas, não consegue dar conta disso.
Hoje eles já contrataram uma empresa para fazer esse levantamento para elaborar o plano de arborização. Esse plano tem várias etapas. A primeira delas, vamos dizer assim, o essencial, é o inventário. Você tem que ir para campo para saber o que tem e quais são as condições dessa arborização. Depois você faz um diagnóstico em relação a isso, para saber se isso é suficiente ou não. Depois, você faz as diretrizes.
No caso da Prefeitura, a partir do momento que ela tem esse inventário, esse diagnóstico da arborização, fica mais claro de que ações ela deve fazer para o futuro.
*Por Amanda Grzebielucka, estudante do 3º ano de Jornalismo da UEPG, sob a orientação da professora do Curso de Jornalismo da UEPG, Hebe Gonçalves, coordenadora do Serviço de Extensão Pauta Ambiental.

