Pesquisadora de PG integra projeto sobre comunidades caiçaras

A pesquisadora Marcela Bettega, doutoranda em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), integra as duas edições do projeto “Paisagens Caiçaras”. Ela aplicou seu olhar fotográfico às comunidades do litoral paranaense.
‘Paisagens Caiçaras’
A iniciativa do projeto ‘Paisagens Caiçaras’, é do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR). O objetivo é promover e difundir as práticas culturais e arquitetônicas da população caiçara nos estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro.
‘Quintal Caiçara’ é o mais recente trabalho publicado, com fotografias produzidas na Baía de Paranaguá entre 2019 e 2021. Segundo a pesquisadora, que morou por 11 anos no litoral, muito dos trânsitos das comunidades caiçaras são feitos pelas águas – do mar aberto, das baías, dos canais, dos rios. E são esses trânsitos, vistos a partir de uma margem ou de dentro dos trajetos, que são retratados na exposição. “O título remete-se ao caseiro, ao cotidiano, às paisagens comuns dentro desse espaço. A água, os barcos e canoas são elementos comezinhos e diários. É no Quintal Caiçara que se estabelecem as trocas, os tráfegos, o lazer, o trabalho, a cultura”, destaca Marcela.
‘Corpo do Sonho’
Já na primeira edição do projeto, a fotógrafa apresentou a exposição ‘Corpo do Sonho’, onde percorria as ruas do centro de Paranaguá para registrar o abandono do patrimônio histórico edificado. “Em Paranaguá há um tempo que passou que permanece parado, mumificado em algumas edificações que guardam vestígios de beleza que um dia houve. O antagonismo dos edifícios abandonados dentro de áreas de preservação só reforça a sensação incômoda do fim sem funeral”, conta. A inspiração veio do filósofo e poeta Gaston Bachelard, que considerava a casa um ‘corpo de sonho’. “Um edifício abandonado pode ser pensado como um corpo cuja alma original já o deixou para trás, e acaba a dar corpo a outras vidas, outras ocupações”, complementa a pesquisadora.

Para Rafael Boeing, técnico do Iphan/PR e um dos curadores da publicação, o projeto ‘Paisagens Caiçaras’ permite aumentar o entendimento de paisagens e cultura para além do tradicional. “Este é um projeto para a difusão das diferentes referências caiçaras, mas que tem como objetivo somar essas reivindicações de outras formas de cultura, como o fandango. Algo que está integrado ao cotidiano deles e que precisa ser visto para poder ter sua perpetuação salvaguardada”, afirma Rafael.
Fachadas e Platibandas
Foi a participação em ambas as edições que motivou Marcela Bettega a realizar o projeto ‘Fachadas e Platibandas: Outros Olhares para o Patrimônio de Ponta Grossa’. “O meu processo de ‘flanar’, isto é, de caminhar pelos lugares com o olhar atento e afetuoso, é um marcador. É o mesmo procedimento que fiz pela cidade de Ponta Grossa, de olhar para a cidade e tentar identificar as minúcias e as belezas da paisagem”, comenta Marcela.
O trabalho mapeou e registrou 389 imóveis com platibandas existentes na região central de Ponta Grossa, disponíveis agora em um inventário digital (que pode ser visto aqui). O projeto também conta com uma exposição fotográfica, que segue aberta para visitação gratuita até 31 de dezembro na Escolinha do Patrimônio, localizada na Mansão Vila Hilda. Foi produzido ainda um audiolivro para garantir acessibilidade ao projeto para pessoas cegas, com baixa visão ou com dificuldade de leitura, além de maquetes 3D de dois imóveis registrados e legendas em braile (disponíveis também em uma segunda exposição que se encontra na Associação de Pais e Amigos do Deficiente Visual – APADEVI).
O projeto conta com o incentivo da Lei Paulo Gustavo, através de recursos do Ministério da Cultura – Governo Federal, operacionalizado em Ponta Grossa pela Secretaria Municipal de Cultura. A produção executiva é da Inspire Projetos Criativos, curadoria de Rute Yumi e comunicação da Estratégia Projetos Criativos. Para mais informações, é possível acompanhar o processo através do Instagram @fachadaseplatibandas.
O que são caiçaras?
O termo “caiçara” refere-se, de modo geral, aos habitantes tradicionais do litoral brasileiro que têm suas raízes culturais na combinação das tradições indígenas, coloniais portuguesas e, em menor grau, de outras influências europeias e africanas. No contexto do Paraná, assim como em São Paulo e no sul do Rio de Janeiro, os caiçaras representam comunidades que tradicionalmente vivem em áreas costeiras, como praias, manguezais, restingas e encostas da Mata Atlântica.
Essas comunidades são historicamente conhecidas por sua forte relação com o meio ambiente e pela utilização sustentável dos recursos naturais. Suas práticas culturais incluem a pesca artesanal, a agricultura de subsistência e a fabricação de utensílios e embarcações com técnicas transmitidas ao longo de gerações. O termo tem origem no tupi-guarani, derivado da junção das palavras **”caa”** (mato, galhos) e **”içara”** (armadilha), referindo-se inicialmente a uma estrutura de galhos usada como armadilha para peixes, mas que passou a designar os próprios povos que vivem do mar e da floresta.
No Paraná
No Paraná, os caiçaras ocupam áreas litorâneas como a região de Guaraqueçaba, Paranaguá e outras localidades próximas, muitas vezes dentro de unidades de conservação ambiental, o que reforça sua conexão histórica e ecológica com o território. A cultura caiçara no estado é especialmente marcada pela pesca artesanal, em particular a pesca da tainha, e por práticas agrícolas itinerantes, como a produção de farinha de mandioca.
