Pesquisador da UEPG alerta para impactos ambientais em Ponta Grossa

Há 23 anos na pesquisa sobre o clima, professor Gilson Campos Ferreira da Cruz, do Departamento de Geociências da UEPG, ministou a palestra “Emergência Climática e Sociedade”, na última quinta-feira (31). Em entrevista ao Pauta Ambiental, do Departamento de Jornalismo, enviada ao Diário dos Campos, o professor falou sobre os desafios da sociedade para enfrentar os impactos ambientais causadas pelas mudanças climáticas no contexto de Ponta Grossa.
Pauta Ambiental: Como o senhor analisa o cenário ambiental de Ponta Grossa diante das mudanças climáticas?
Gilson: Tem muita coisa para se falar sobre essa relação da cidade com o ambiente, da cidade com o clima e as mudanças que a gente provoca. Uma cidade como Ponta Grossa, por exemplo, que tem características diferenciadas em relação a outras cidades do mesmo porte, e uma dessas características é o fato da cidade estar num alto. Temos vários arroios, vários rios que nascem a partir desse centro da cidade. E o que Ponta Grossa foi fazendo com esses arroios? Ela foi transformando esses arroios em esgoto, historicamente isso aconteceu.
Ponta Grossa melhorou bastante na última década, mas praticamente todos esses arroios que nascem no centro da cidade – são mais ou menos em torno de nove e, se a gente levar em consideração o centro expandido, seria algo em torno de uns 12 a 13 arroios – estão todos poluídos. Uns mais, outros menos, mas estão todos poluídos.
No impacto ambiental, quando a gente olha para Ponta Grossa, o bairro de Uvaranas, onde está o campus da UEPG, é um bairro que está todo voltado para abastecer o Rio Verde, que é um rio de um tamanho razoável. Os afluentes da esquerda do rio começaram a ser poluídos quando nasceu a cidade.
O arroio Pilão de Pedra, que é um dos arroios afluentes do Rio Verde, nasce embaixo da Praça Barão do Rio Branco. Quando a cidade nasceu, ela já nasceu comprometendo a bacia do Rio Verde. E a bacia do Rio Verde pega todo esse lado do bairro Uvaranas.
Ponta Grossa é uma cidade espalhada. Quanto mais você espalha a cidade, mais áreas você ocupa, mais você transforma essa paisagem. Mais você substitui áreas verdes por áreas construídas,
E Ponta Grossa não fez diferente. O processo de verticalização que vem acontecendo agora mais recentemente – e tem aumentado os prédios em Ponta Grossa – provoca uma série de outras consequências climáticas, mudando a direção do vento, a velocidade do vento, a temperatura no entorno dos prédios, aumentando áreas de sombra.
Nem a urbanização, nem o processo de expansão horizontal é bom e nem o processo de expansão vertical é bom. Mas é necessário. Dependemos de tudo isso para viver.
Ninguém quer mais morar nos matos. É verdade. Todo mundo quer morar na cidade. E quanto mais asfaltada, quanto mais pavimentada, melhor. Só que, do ponto de vista ambiental, é pior.
Pauta Ambiental: Temos episódios de ventanias que acabam destelhando casas na cidade. Poderia explicar qual é a característica de Ponta Grossa e como essas mudanças climáticas impactam e desencadeiam mais desastres como esses?
Ponta Grossa é naturalmente Ponta Grossa pela proximidade que ela tem da Escarpa Devoniana. Quando a gente vai para a Itaiacoca, a gente está indo para a Escarpa Devoniana. Em torno de 15 quilômetros daqui.
É uma região de ventos. A gente tem uma condição de localização em termos de altitude, de posição em relação à serra, à escarpa que é uma posição que favorece os ventos. Do ponto de vista natural, isso vai acontecer.
À medida que se tem a cidade nos pontos mais altos, como o centro, a avenida Carlos Cavalcanti, que vai para o Uvaranas, a avenida que vai para a Nova Rússia e a que vai para a Oficinas, são todas vias em pontos altos da cidade. Esses pontos altos da cidade, naturalmente, eles teriam uma dinâmica de aquecer durante o dia. Essas áreas mais altas têm uma tendência de ficarem mais aquecidas. Isso faz com que tenha ventos que vão soprar da periferia, do entorno da cidade para dentro da cidade.
Quanto mais vou intensificando isso, maiores vão ser os impactos e mais me aproximo de eventos extremos. Soma-se isso com as dinâmicas climáticas que nós temos aqui, de entradas de massas de ar fria, formação de frentes frias. Tudo isso vai potencializar eventos com ventos fortes, o destelhamento de construções e que não escolhe muito onde. Depende muito mais dos sistemas regionais, dos sistemas de macro escala para que a gente tenha, por exemplo, esses ventos atuando na Nova Rússia ou atuando em Oficinas, ou mais para o lado de Uvaranas. A gente sempre diz que a atmosfera, do ponto de vista climático, é um caos, ela é caótica.
Nesse sentido, quanto mais eu crio condições para alimentar esses sistemas locais, dou munição, eu crio uma condição para que eventos extremos, para desastres naturais, relacionados principalmente com o vento. Mas também tivemos episódios no passado de inundações no Arroio da Ronda, no Madureira, na Palmeirinha.
Pauta Ambiental: Quais ações podem ser tomadas para melhorar a situação climática, não só de Ponta Grossa, mas do Estado, do Brasil e do mundo?
Gilson: Eu sempre digo que a mudança climática pode ser global, mas ela começa no local. No momento que queimamos gasolina, óleo, combustíveis fósseis nos automóveis, nos ônibus, no meio de transporte, na indústria, nós individualmente e enquanto indústria, empresa de transporte, estamos contribuindo para o aquecimento global e para a mudança climática global.
Essa mudança climática começa no local. Quando a gente constrói as cidades, a gente remove vegetação. Muitas vezes a pessoa nem percebe. Ela já nasce dentro de uma cidade, às vezes grande. Então, ela não tem nem essa percepção de que um dia aquilo foi uma mata ou foi um campo. A cidade de hoje é resultado da substituição de um ambiente natural, com vegetação natural para um ambiente artificial produzido pelo homem.
Isso resultou em mudança climática. Por exemplo, quando Ponta Grossa foi construída ou à medida que ela vai crescendo, a gente abre um novo loteamento, derruba a mata, ocupa um espaço natural novamente, gera uma mudança climática naquele momento. Depois, essa mudança climática fica estabelecida, consolidada. Ela não volta mais para as condições naturais. Lógico que depende do tamanho das cidades. Mas, de uma maneira geral, as áreas urbanas são responsáveis por diferentes aspectos das mudanças climáticas. Seja pela mudança no uso do solo, pela substituição das matas, pela queima dos combustíveis fósseis, pela produção de resíduos, que vai resultar nos lixões, em metano na atmosfera, que são gases do efeito estufa, e o dióxido de carbono, no caso dos combustíveis fósseis.
Pauta Ambiental: Como o senhor observa o posicionamento do poder público, seja da Prefeitura local ou do Estado do Paraná, sobre a emergência climática?
Gilson: Quando eu fiz o meu TCC de graduação [1987], a gente tinha um lixão a céu aberto. Depois desse lixão a céu aberto, virou um aterro controlado. Hoje não temos aterro. Continuamos produzindo lixo e muito mais hoje do que produzíamos no passado. Mas como encontrar uma outra forma de destino? Qual é o custo de tudo isso, não só o custo financeiro, mas o custo ambiental? Na verdade, o caminho deveria ter sido, para a sociedade como um todo, reduzir a produção de resíduos. Esse deveria ser o aspecto principal, o ponto principal. Mas a gente não consegue reduzir os resíduos, muito pelo contrário.
Então, os municípios precisam encontrar uma forma de conviver com isso. Ponta Grossa, dentro da opção que fez, conseguiu resolver em partes isso.
A gente sempre foi contra a questão da queima do lixo. Mas nós temos agora uma empresa de biogás, que faz a queima do lixo.
Por exemplo, Ponta Grossa também avançou nesse sentido, que é a questão das associações de catadores. Quando eu fiz a primeira pesquisa sobre resíduos em Ponta Grossa, o pessoal catava no lixão. Tinha gente que morava no lixão, em cima do lixão. E essa realidade foi mudando ao longo do tempo. Virou as primeiras cooperativas, depois viraram associações. Esse modelo das associações existe até hoje porque existem pessoas que dependem da catação para viver..
Se você resolver queimar tudo que é produzido lixo, inclusive os recicláveis, que é possível, você elimina essa possibilidade de renda dessa parte da população que está excluída do mercado de trabalho.
Gilson é doutor em Geografia Física, pela Universidade de São Paulo (USP), em 2009, com doutorado sanduíche na Universidade de Lisboa, Gilson Cruz integra o projeto Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação (NAPI) – Emergência Climática, que envolve as sete Universidades Estaduais do Paraná, IBGE, PUC-PR e UFPR, com recursos financeiros da Fundação Araucária.
A entrevista foi realizada pela estudante, Amanda Grzebielucka, sob a supervisão da professora Hebe Gonçalves, coordenadora do projeto.

