Miguel Sanches Neto planeja próxima aventura literária

Aos 60 anos, prestes a se aposentar como professor e reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), o escritor Miguel Sanches Neto não pensa em descanso. Assim que tiver mais tempo livre, pretende dar início a um projeto ambicioso. Mas, antes de revelar esse plano, é preciso entender o caminho que o levou até aqui.
Uma biblioteca
Nascido em Bela Vista do Paraíso e criado em Peabiru, no interior do Paraná, Miguel teve uma infância marcada pela simplicidade e pela ausência de livros. Filho de agricultores analfabetos (ou com pouca leitura), foi preparado para seguir a vida rural. Formou-se técnico agrícola e, por muito tempo, acreditou que seu destino seria o campo ou o comércio. A virada veio quando, ainda jovem, descobriu a biblioteca da escola 14 de Dezembro, em Peabiru. Sem orientação, começou a ler por conta própria, e não pela literatura infantojuvenil, mas por autores como Lima Barreto, que o marcaram profundamente.
Professor e reitor
Essa descoberta transformou sua vida. Miguel se tornou professor de literatura brasileira, fez mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina e, em 1993, passou em concurso para a UEPG, onde iniciaria uma carreira acadêmica sólida. O que parecia apenas um passo profissional acabou se tornando um ponto de virada: foi em Ponta Grossa que ele se consolidou como escritor e intelectual público, recebendo o título de cidadão honorário da cidade, em 2013, e chegando à reitoria da universidade em 2018.
Suas obras
Sua produção literária é vasta e diversa. São mais de 40 livros publicados, entre romances, contos, crítica literária e obras infantojuvenis. Um dos maiores sucessos é “A Guerra do Chiclete”, que ultrapassou 200 mil exemplares vendidos e se tornou referência nas escolas. Mas Miguel não se limita a um público específico: ele escreve para crianças, jovens e adultos, sempre com uma marca pessoal: a memória.

A memória
A memória, segundo ele, é o fio condutor de sua obra. Seja a memória pessoal, familiar ou histórica, ela aparece como elemento central em romances como “Um Amor Anarquista”, que retrata a Colônia Cecília e os anarquistas no Paraná do século XIX; “A Máquina de Madeira”, sobre um padre paraibano que teria inventado a máquina de escrever antes mesmo de sua industrialização; e “A Segunda Pátria”, que aborda o crescimento do nazismo no sul do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial. “A memória é, ao mesmo tempo, a possibilidade de você contar uma boa história e de salvar vidas do anonimato”, diz.
O preferido
Entre todos os seus livros, Miguel destaca “Chove sobre minha infância” como o mais importante. Publicado em 2000, o romance autobiográfico narra sua trajetória familiar e a formação do Paraná, usando nomes reais e misturando memória com ficção.
Rotina
Mesmo com a rotina intensa como reitor, ele mantém o hábito de acordar às 4 da manhã para escrever. Recentemente lançou “De onde vem a insônia”, uma coletânea de contos acumulados ao longo de mais de uma década. Embora o tempo esteja escasso, ele trabalha em um novo romance sobre a livraria Realejo, de Santos: cidade pela qual tem forte ligação afetiva.
A guerra
O grande plano para a aposentadoria é ainda mais ambicioso: Miguel pretende escrever uma trilogia sobre a Guerra do Contestado. O conflito, que teve em Ponta Grossa seu epicentro econômico e militar, deverá ser retratado com a profundidade histórica e sensível que marca sua obra. O projeto promete não apenas reafirmar sua importância como escritor, mas também eternizar uma das revoluções populares mais esquecidas do Brasil.
Princesa em Festa
Este texto é o segundo que integra a participação do Diário dos Campos na Gincana Princesa em Festa 2025. O DC está inscrito no item 144, categoria PG Cult e Criativa: “Escrever e ilustrar a história de 5 importantes ponta-grossenses”.

