07 de julho de 2026

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Entrevista: Alessandra Bucholdz destaca ABC Projetos no setor cultural


Por Danilo Kossoski Publicado 03/08/2025 às 11h01 Atualizado 25/02/2026 às 16h07
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Foto: José Aldinan / DC

O Diário dos Campos entrevista, nesta sexta-feira (1º), Alessandra Bucholdz, diretora da ABC Projetos Culturais. Alessandra fala a respeito das iniciativas da editora com foco no fortalecimento da produção literária paranaense e da formação de leitores.

Alessandra é jornalista graduada pela UEPG, especialistas em Psicologia da Educação, e teve importantes participações em veículos da imprensa local e regional como Jornal da Manhã, Diário da Manhã, Gazeta do Povo e no próprio Diário dos Campos, do qual foi editora-chefe entre 1999 e 2007.
Também ocupa a cadeira 35 da Academia de Letras dos Campos Gerais. Confira abaixo o vídeo de entrevista e a síntese da conversa em texto:

Diário dos Campos: Um dos motivos pelos quais a gente conversa hoje — e usamos isso como gancho — é a participação da ABC Projetos na FLIP. Queria que você falasse sobre essa participação na Festa Literária Internacional de Paraty.

Alessandra: Nós produzimos, através da Biblioteca Pública do Paraná e do edital chamado Outras Palavras, quase 40 obras em parceria com mais duas editoras: ABC Projetos, Arte Telúrica e Dali Projetos Criativos. Foram obras premiadas no estado do Paraná, em um concurso aberto pelo governo do estado durante o período da pandemia, que selecionou obras do estado inteiro. No ano passado, a Secretaria de Estado da Cultura abriu outro edital que viabilizou a produção dessas obras, e conseguimos entrar como editoras.

DC: São quase 40 obras de escritores do estado do Paraná inteiro?

Alessandra: Todas as obras premiadas. Para a gente, é um orgulho imenso estar contribuindo para que essas obras cheguem a mais pessoas e que elas contribuam para que se conheça mais e se leia mais autores paranaenses.

DC: Produção simultânea?

Alessandra: Sim, é um trabalho de muito fôlego, muito empenho da equipe. É uma troca constante. A cadeia produtiva editorial envolve muitos profissionais: edição de texto, projeto gráfico, diagramação, ficha catalográfica, registro na Biblioteca Nacional… São vários processos.

DC: E o foco da ABC Projetos Culturais é mesmo a literatura? Tem livros técnicos também? Qual é o foco de trabalho de vocês? Fala mais sobre a ABC Projetos.

Alessandra: A produção editorial abrange tanto livros técnicos quanto literatura. Desde que abrimos a ABC, em 2007 — estamos completando 18 anos agora em setembro — nos dedicamos à produção editorial. Como vim do jornalismo, o trabalho como editora já estava na veia. Produzimos mais de cem livros de autores do Paraná e de outros estados também, nesse período.

DC: Fale pra gente sobre a segunda edição da Biblioteca Gralha Azul, com 12 novas obras lançadas.

Alessandra: É um projeto lindo. Particularmente, tenho uma paixão por ele. A Biblioteca Gralha Azul é fruto de um coletivo envolvendo escritores e editoras. Nossa proposta se alicerça em três pilares: o primeiro é incentivar a produção literária infantojuvenil no Paraná. Nosso foco é mostrar a produção paranaense. Como editora, vimos que muitas pessoas têm textos bons guardados na gaveta, porque muitas vezes não têm condições de lançar um livro — é caro lançar um livro no Brasil hoje. Com isso, muitos talentos estavam sendo engavetados.

DC: Então a ideia foi dar margem para que surjam novos escritores voltados à produção infantojuvenil?

Alessandra: Isso. Anualmente, abrimos editais e recebemos textos de autores paranaenses. Temos uma curadoria que faz a seleção desses textos, e os selecionados passam por todo o processo editorial. O autor recebe o livro pronto, que vai para nossa plataforma da Biblioteca Gralha Azul. O primeiro incentivo é à produção literária paranaense. O segundo é à difusão — os livros estão abertos para download gratuito. Qualquer pessoa pode acessar, conhecer o livro, o autor, o ilustrador. E o terceiro pilar é o incentivo à leitura — despertar nas crianças esse interesse, já que elas estão muito na tela, mas que também usem a tela para leitura.

DC: É legal essa ideia de usar o digital como forma de fortalecer a leitura…

Alessandra: Exatamente. A gente não fica só na plataforma. Temos audiolivros com audiodescrição, promovendo acessibilidade. Na edição passada, lançamos 20 livros. Agora, mais 12 — todos de autoras paranaenses, de pequenos municípios. Foi muito legal ver, pelos relatos delas, a importância de criar essa oportunidade e esse caminho. Isso fortalece as pessoas e suas comunidades. Como essa cadeia se movimenta é muito legal.

DC: Além do livro, vocês trabalham com outras produções e atividades. Quais?

Alessandra: Sim. Criamos outras formas de vivenciar aquela história. A ideia é trazer vivências e experiências. Inclusive, estamos indo na próxima terça-feira, dia 5, e também no dia 12, a escolas rurais de Ponta Grossa com esse projeto. Estamos levando mil livros — os livros premiados — para as bibliotecas dessas escolas, fortalecendo com obras de autores paranaenses. Levamos autoras para conversar com as crianças da zona rural — são três autoras por visita — e também experiências sobre os livros, com a ideia de reflexão e envolvimento. Vai muito além da própria leitura.

DC: E como foi a experiência do projeto com o Jogo Tropeiro?

Alessandra: Ah, o tropeirismo! É um projeto lindo do Silvestre Alves. O Silvestre é um grande pesquisador na área do tropeirismo. Ele dedicou muitos anos da sua vida a isso e desenvolveu o Jogo do Tropeiro. Ele é professor e criou um jogo que, de forma lúdica e didática, discute todas as condições do tropeirismo no Sul do Brasil — questões econômicas, geográficas, folclore, dificuldades, até as brigas entre tropeiros. Tudo isso é retratado no jogo.

DC: E como foi o início desse projeto? O artista tem a ideia, mas não sabe como implementar… Ele vem até vocês?

Alessandra: Exatamente. A gente trabalha muito com leis de incentivo à cultura, que ajudam a financiar os projetos. Hoje, cerca de 80% dos nossos projetos são viabilizados por essas leis. O Silvestre já tinha um protótipo do jogo, mas queria modernizar, atualizar. A produção de um jogo é cara, e ele queria circular com o projeto, levar para o Paraná, para os municípios da Rota do Tropeiro. A partir dessa demanda, elaboramos o projeto, submetemos ao edital da Secretaria de Estado da Cultura. Foi aprovado. Mas aprovação não significa que o recurso vem automaticamente — aí buscamos patrocínio.

DC: Então vocês entram em contato com as empresas?

Alessandra: Isso. No caso desse projeto, foi aprovado no Profice. O governo diz: “Seu projeto está aprovado, você pode captar até tal valor com empresas pagadoras de ICMS.” Aí buscamos parcerias. Tivemos uma parceria linda com a Continental, que viabilizou esse projeto. Produzimos o jogo, lançamos, circulamos. O Silvestre deixou o jogo nas escolas, fez oficinas para professores, mostrando como o jogo pode ser usado como ferramenta pedagógica, envolvendo os alunos na história e geografia do Paraná. Ele também tem músicas, um repertório musical lindo. Foi uma alegria para ele ver o projeto sendo estendido a outros municípios. Essa foto é de Piraí do Sul, mas ele passou por várias cidades.

DC: Para citarmos mais um exemplo interessante: como foi a participação da escritora Dione Navarro?

Alessandra: Ela trouxe uma coleção de livros infantis voltados para crianças com baixa visão. Fizemos todo um estudo para produzir esse material, em conversa com entidades, com a Secretaria de Estado da Educação, com o departamento que atende pessoas com deficiência. Estudamos editorialmente como deveria ser — desde as ilustrações, tipologia, cores utilizadas. Por exemplo, não se trabalha com nuances de cor. Há toda uma questão técnica por trás da produção desses livros. É um projeto muito bonito, voltado para um público que tem pouco material direcionado.

DC: E vocês aprenderam muito com esse tipo de produção?

Alessandra: Com certeza. Já vínhamos trabalhando com mecanismos de acessibilidade — hoje, praticamente todos os nossos livros têm audiodescrição e audiolivro. Mas esse trabalho é específico: tipologias específicas, tipo de letra que facilita a leitura. É muito gratificante chegar a públicos que não tinham acesso. A Jhony tem uma linguagem e uma facilidade de conversar com o público infantil-juvenil muito grande. Foi um projeto lindo, lançado recentemente.

DC: Fale sobre o livro que conta a história do DC. Como foi o processo de pesquisa e escrita?

Alessandra: Foi lançado em 2007. A primeira edição foi uma pesquisa fenomenal feita por três pessoas: eu mesma, o Fábio Maurício Maia — que é neto do fundador do Diário dos Campos — e o Niltonci Batista Chaves, que hoje é diretor do Museu Campos Gerais. Grandes historiadores.

DC: Eu acho muito bacana essa união: a editora-chefe do jornal, o descendente do fundador e um dos maiores conhecedores da história de Ponta Grossa. Boa parte da história da imprensa e do Diário dos Campos está nesse livro. Queria que você falasse sobre ele e sobre a reedição.

Alessandra: Claro. Retomando, começamos falando sobre a FLIP e o lançamento de autores paranaenses com obras premiadas. Esse livro foi uma dessas obras premiadas. Durante o edital aberto na pandemia, autores que já tinham produções puderam submeter seus trabalhos. Submetemos o livro sobre o Diário dos Campos, e ele foi premiado no Paraná. Tive a grata satisfação de, na distribuição das obras entre editoras para lançamento, receber justamente o livro do Diário dos Campos para editar. Trouxe aqui uma amostra do conteúdo. É um trabalho muito rico.

DC: Eu acho fantástico. Nem consigo imaginar como foi a produção disso. Hoje temos inteligência artificial para ajudar, conseguimos extrair informações de documentos com facilidade. Mas isso aqui…

Alessandra: Esse trabalho começou na universidade. Desde o primeiro ano, em 1994, quando entrei na faculdade de jornalismo, já me interessei pelo Diário dos Campos. Conheci o primeiro material sobre o jornal — um livro do Epaminondas Holzmann — na biblioteca que ficava na esquina da Vicente Machado, em frente ao Banco do Brasil. Era uma biblioteca pública, que antes tinha sido uma pizzaria. Frequentava muito esse espaço. Foi ali que comecei a manusear o material sobre o Diário dos Campos e me encantei com o que fui lendo. Estudei a transição da imprensa, os períodos que marcaram a história. Meu TCC foi sobre o Diário dos Campos e o jornalismo cultural em Ponta Grossa.

DC: Então você já vinha trabalhando com essa pesquisa há muito tempo?

Alessandra: Sim. “Conversava” com Jacob [fundador do DC] há muito tempo. Passei por outros jornais. Em 1999, eu trabalhava na Gazeta do Povo quando recebi uma ligação de uma pessoa que eu não conhecia, chamada Wilson Oliveira. Ele disse que estava montando um jornal em Ponta Grossa e perguntou se eu tinha interesse em participar. Eu estava bem na Gazeta, fiquei lisonjeada com o convite, mas pensei em recusar. Quando ele disse que era o Diário dos Campos, que seria relançado, tudo mudou. Aceitei o convite e vim para o Diário dos Campos. Meu envolvimento com o jornal ficou ainda maior.

DC: E aí começou a pesquisa?

Alessandra: Nos primeiros anos, já começamos a pesquisar. Eu queria saber onde estava o maquinário do antigo Diário dos Campos. Queríamos revisitar essa história, mas infelizmente muita coisa já tinha se perdido. Começamos a conversar com mais pessoas. Em 2007, ano do centenário do jornal, o projeto de fato teve início. Foi meu primeiro projeto pela Lei Rouanet. Muita pesquisa em jornais, livros, entrevistas com pessoas que participaram da trajetória do jornal — muitas delas já não estão entre nós. Foi um contato de uma riqueza extrema.

DC: Um toque do destino, talvez?

Alessandra: Com certeza. Tem coisas que parecem sempre convergir.

DC: Pra finalizar, fale so bre o livro Espeleopiraí, finalista do Prêmio Jabuti.

Alessandra: Esse é um projeto do Henrique, da Laís, do pessoal do GUP. É o livro Espeleopiraí. Nós produzimos esse livro editorialmente. Eles já tinham tocado todo o projeto de pesquisa. O livro foi finalista do Prêmio Jabuti. Agora, o mesmo trabalho está sendo realizado em Tibagi. É um trabalho fantástico de pesquisa que trata da pintura rupestre. O pessoal do GUP vem trazendo isso à tona com muito empenho e se destacando Brasil afora pela qualidade da pesquisa e do material produzido.

DC: Inclusive, eles trouxeram à tona o primeiro registro da araucária em arte rupestre, não é?

Alessandra: Isso! Eles trouxeram esse registro, que foi fenomenal. Cada vez mais têm descoberto novas pinturas rupestres. O trabalho deles tem sido incrível.

DC: E quem quiser adquirir esses livros — inclusive o do Diário dos Campos e outros premiados que vocês têm trabalhado — como faz?

Alessandra: Pode entrar em contato com a gente pelo e-mail: [email protected].

DC: Agradecemos a presença da Alessandra Bucholdz hoje aqui no estúdio do Diário dos Campos. Fiquem ligados nas informações que circulam no jornal Diário dos Campos, versão impressa e online. Até a próxima.

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Danilo Kossoski
Danilo Kossoski

É bacharel em Comunicação Social / Jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e possui MBA em Marketing Digital pela Unisecal. Foi repórter no Jornal da Manhã, Produtor na Rede Massa TV Guará, e assessor de imprensa na Prefeitura de Ponta Grossa (PR). Atua no Diário dos Campos desde 2017, entrevistando, escrevendo e editando. Desde maio de 2022 é editor-chefe do DC e é apaixonado por boas histórias.