Brasil debate 20 dias de licença-paternidade; Finlândia garante 7 meses

Conciliar carreira, filhos e vida pessoal ainda é um desafio para muitas famílias. Na Finlândia, porém, políticas públicas e a cultura local buscam facilitar esse equilíbrio. Enquanto o Brasil discute a ampliação da licença-paternidade para 20 dias até 2029, a Finlândia garante cerca de sete meses de licença remunerada para cada responsável, em um modelo baseado na divisão equilibrada dos cuidados com os filhos.
A ideia de que ambos os pais podem desenvolver suas carreiras sem abrir mão da criação dos filhos está presente na sociedade e também nas empresas. Para profissionais estrangeiros, esse modelo oferece mais previsibilidade e segurança na adaptação ao país.
Segundo Laura Lindeman, diretora sênior da Work in Finland, da Business Finland, o apoio às famílias é um dos pilares do bem-estar finlandês.
“Mudar de país envolve muito mais do que encontrar uma oportunidade profissional. Também significa entender se existe suporte para que toda a família consiga se adaptar e prosperar. Na Finlândia, o bem-estar social, a igualdade parental e a flexibilidade profissional ajudam a criar um ambiente em que carreira e vida familiar podem evoluir juntas.”
Na prática, mães e pais têm direito a cerca de sete meses de licença remunerada cada um, totalizando aproximadamente 14 meses compartilhados por família.
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Licença parental igualitária
A participação equilibrada de mães e pais é incentivada desde o nascimento dos filhos. Desde a reforma da licença parental, em 2022, cada responsável tem direito a cerca de 160 dias úteis de licença remunerada, totalizando aproximadamente 14 meses por família.
Parte dos dias pode ser transferida entre os responsáveis, mas uma parcela permanece individual para estimular a participação de ambos nos cuidados com os filhos.
A mudança também eliminou os termos “licença-maternidade” e “licença-paternidade”, adotando um modelo baseado na parentalidade compartilhada, inclusive para casais do mesmo sexo.
O sistema contribui para a permanência das mulheres no mercado de trabalho ao distribuir de forma mais equilibrada as responsabilidades familiares.
Dados da agência finlandesa Kela mostram que a participação masculina no uso da licença parental aumentou após a reforma. Atualmente, os pais já representam mais de 20% dos dias utilizados no novo sistema.
Impacto na vida das famílias
A dentista brasileira Natalie Clarke, que vive na Finlândia com o marido e três filhos, afirma que a estrutura local mudou sua visão sobre trabalho e parentalidade.
“Aqui, ser mãe não é um obstáculo à carreira. É simplesmente parte da vida.”
Ela destaca que, após o nascimento do terceiro filho, em 2024, ambos tiveram direito à mesma quantidade de dias de licença.
“A Finlândia entendeu algo que muitos países ainda tentam. O trabalho e a família não competem entre si, eles se fortalecem.”
Segundo Natalie, os pais participam ativamente da rotina dos filhos e conseguem acompanhar atividades escolares e momentos em família sem que o trabalho ocupe esse espaço.
Flexibilidade nas empresas
O mercado de trabalho finlandês é marcado por confiança, autonomia e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Horários flexíveis, trabalho híbrido e acordos personalizados fazem parte da rotina de muitas empresas.
Estudos do Finnish Institute of Occupational Health indicam que ambientes de trabalho favoráveis às famílias estão associados a maior satisfação profissional, mais comprometimento e menor intenção de trocar de emprego.
Para Natalie, o respeito aos limites é uma característica marcante da cultura corporativa local.
“A cultura finlandesa respeita limites de forma quase radical. Ninguém envia emails fora do horário comercial. Ninguém espera resposta imediata à noite ou no fim de semana.”
Duas carreiras, uma família
O modelo em que ambos os parceiros mantêm carreiras ativas é amplamente apoiado por políticas públicas e pela cultura local.
“Essa divisão funciona porque há flexibilidade mútua e respeito real pelos papéis que cada um assume em diferentes momentos”, afirma Natalie.
Ela explica que o marido viaja com frequência a trabalho, mas que a divisão das responsabilidades acontece de forma natural quando ele está em casa.
“Isso só funciona porque há suporte estrutural e uma cultura que entende que ambos os pais trabalham.”
Dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que países com políticas parentais mais equilibradas tendem a registrar maior participação feminina no mercado de trabalho e menor impacto da maternidade na carreira das mulheres.
Apoio a famílias estrangeiras
Para profissionais que se mudam para outro país, a adaptação da família é um fator decisivo. Na Finlândia, escolas, serviços públicos e políticas de apoio ajudam nesse processo.
“Como família imigrante, o que mais nos impactou foi o apoio da escola na integração dos nossos filhos”, conta Natalie.
Segundo ela, os filhos receberam suporte linguístico e acompanhamento próximo desde a chegada ao país.
“Isso me permitiu focar no meu trabalho sem preocupação constante com a adaptação deles.”
Além da educação, Natalie destaca benefícios como a licença parental remunerada e a possibilidade de permanecer em casa quando um filho adoece, sem burocracia.
Qualidade de vida e retenção de talentos
Para Natalie, a existência de uma rede de apoio reduz a pressão enfrentada por muitos pais.
“Quando você não está constantemente dividido entre culpa profissional e culpa parental, você trabalha melhor porque está descansado e realizado.”
Ela resume a visão predominante no país:
“A Finlândia não vê as famílias como um obstáculo à carreira. Vê famílias como parte integral da vida.”
(Com informações das assessorias)

