Confira o texto da Coluna Arte Mista: Mulher Arabesco
Arabescou de vez!
Foi de propósito!
Não, foi de repente, de novo e inerente.
Assim pensariam as boas e as más línguas, constatação contundente…
Nossa anfitriã da crônica tem alma que contorna, revolta, arrouba e, erudita, sempre volta. Vida que conforta e ensina na fluidez dos caminhos, reforça. Mulher arabesco, em cada passo disposta a um novo começo.
Cecília sempre gostou de arabescos, daquelas formas (desenhos) ornamentais e orgânicas tão comuns ao estilo art Nouveau. Será que nasceu na época errada? É possível, pois se fosse do seu gosto admitiu só usaria trajes longos, de época, em tecidos esvoaçantes, cabelos em caracóis, fitas e laços em movimentos clássicos. Por sinal, em matéria de fita, algo de enlouquecedor encontra no espiralar delas, nas mãos das atletas da ginástica rítmica, modalidade arco e fitas. Como um gato hipnotizado pelo voo do pássaro, assim nossa portadora de alma arabescada se encontra nos momentos ornados com estéticos gracejos.
Penso que se os olhos são portas e janelas da alma, aquilo que os encontra e impressiona profundamente também revela a qualidade da natureza anímica. Enquanto outras pessoas preferem imagens e estruturas geométricas, Cecília não tem dúvidas de que passará toda esta existência sem preferi-las, ao contrário, extasiando-se com os arabescos. O desconforto que desfere golpes visuais e ao tato, por meio das pontas, retas, igualmente frias, não confere o aconchego que repousa nas curvas suaves. Se o vento e os ramos de árvores tendem a espiralar, por que o pensamento, o ânimo e a alegria pessoal não fariam o mesmo? Um caramujo, contemplado nas mãos da mulher arabesco, como delicada inspiração dos elementos naturais nas curvaturas que se espraiam ao mundo. Mesmo processo ocorre nos brotos de plantas que ganham manifestação, rodam, giram, crescem e expandem na proporção áurea da vida.
Se o assunto é amor, coincidentemente, nossa personagem verga aos mesmos impulsos espiralantes. Quando da reciprocidade, se abre e expande; quando das apunhaladas e reveses, proporcionalmente, se contrai e recolhe gostos e expressões pessoais. Diriam alguns que se trata de hipersensibilidade. Creio que sim, também observaria efeito similar ao daquelas plantas sensíveis que se fecham ao toque. Uma maria-dormideira seletiva ao não-me-toque ou mal-me-toque. Tactismo sentimental? Sim, sempre. Como nas pálpebras que agem em reflexo e se fecham a um simples contato. Contudo, os maus toques não lhe abrandam o anseio por viver e emergir com entusiasmo fértil e radiante. Felicidade é como um bordado em fio delicado, em leveza e graça que irradia para todos os olhos. Primeiro vem ao mundo, linha por linha, para só depois ser percebido e reconhecido pela beleza harmônica e precisa no conjunto. A trama que se tece com os fios não sabe o que a espera, mesmo assim conforma-se aos gestos no enlaçamento, permite que mãos habilidosas componham seu ser. Quando menina, Cecília bordava, é claro, arabescos.
Esta mulher também se arabesca em ideias. Por que só o simples e o trivial, somente linhas retas no pensamento? As concepções mais geniais são refinadas, sofisticadas num modelo mental que, adivinhem: arabesca novamente para dar vazão ao conteúdo mais elevado. Como não mimetizar a matemática de expansão da natureza e, igualmente, abrir-se em percepções? Ao lado da morada, um muro onde a hera abarca no espaço, avança. Assim, novamente, como o afã desta mulher por alçar enquanto indivíduo, em ser. No final do dia, no portão de casa, o gato Lafan vem lhe recepcionar. Mia, ronrona feliz e esfrega a cauda, alisando as pernas femininas. Um arabesco animal em pelos e carinho para enternecer. Em se tratando de carinho, tal mulher, dengosa e repleta de afagos, também gosta de arabescar.
Autoria: Renata Regis Florisbelo

