Maria Lourdes Osternach Pedroso


É difícil começar a escrever sobre alguém tão querido que partiu de forma tão repentina. Nossa confradessa Maria Lourdes Osternach Pedroso despediu-se no fim de um domingo, silenciosamente, como era de seu feitio: sem alardes, sem jamais querer incomodar. A segunda-feira amanheceu pesada; os Campos Gerais já não contavam com sua incansável defensora da história e da memória. A notícia, trazida pelo ar denso da manhã, parecia inacreditável: Lourdinha, como carinhosamente a chamavam os amigos, já não estava entre nós.
Nos últimos tempos, mantinha-se intensamente ativa — publicava na nossa coluna do jornal Diário dos Campos, participava das reuniões da Academia de Letras dos Campos Gerais, das atividades da Biblioteca Paranista Eno Teodoro Wanke e dos cafés que, vez ou outra, partilhávamos. No último ano, retornou à casa ancestral ao integrar a reunião itinerante da Academia em Arapoti, reencontro que culminou, pouco depois, na merecida homenagem recebida da Prefeitura e da Câmara Municipal na antiga sede da Fazenda Capão Bonito, hoje um espaço cultural.
Sua presença enriquecedora dava sentido e profundidade às nossas atividades: “Às Quartas na Biblioteca”, as visitas guiadas pela cidade que promovemos — que percorria com elegância, sempre com olhares atentos e observações valiosas e pertinentes — e na Biblioteca da Academia, cuja marca como primeira diretora foi decisiva para que alcançássemos a importância que hoje ela tem para os Campos Gerais.
Maria Lourdes integrou o grupo dos 40 fundadores das cadeiras da Academia de Letras dos Campos Gerais. Na fundação da instituição, em 1999, destacou-se como um nome de referência, tanto pelo conjunto de sua obra quanto por sua trajetória profundamente comprometida com a educação, a pesquisa e a preservação do patrimônio cultural da cidade. Ocupou a cadeira 37, cujo patrono é Reynaldo Ribas Silveira. Isso e o fato de ter nascido no dia em que se comemora a fundação da freguesia de Ponta Grossa é uma coincidência simbólica para uma historiadora.
Professora de História, formada pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Ponta Grossa, lecionou História Geral, do Brasil e do Paraná em importantes instituições de ensino, além de atuar nas disciplinas de Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil. Veio do Museu Paranaense para a Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde teve papel de destaque na organização do Museu Campos Gerais, exercendo a função de Técnica em Assuntos Culturais.
Autora de publicações que se tornaram referência para os estudos da história local, foi pesquisadora cuidadosa e competente, atenta observadora das conjunturas históricas e, ao mesmo tempo, sensível memorialista, dedicada ao registro meticuloso de relatos e tradições orais. Sua obra e sua presença permanecem como legado inestimável para a memória cultural dos Campos Gerais.
Nos despedimos dela, mas a levamos como exemplo que norteia nossa instituição, com zelo e carinho pelo que representa na história dos Campos Gerais. De maneira afetiva ficam as muitas lembranças que não deixam que desapareça a personalidade marcante de Lourdinha. Tal como lembrou a Irmã Maria Edites no momento de sua despedida: “quando cheguei a Ponta Grossa, era muito jovem e com pouco juízo. Costumava subir e descer correndo as escadarias do Colégio Sagrada Família, e a professora Lourdinha, em vez de censurar minha imprudência, dizia que, se fosse um pouco mais jovem, faria o mesmo”. Esse traço bem-humorado de sua personalidade contrastava com o tom firme que assumia ao deparar-se com algo malfeito. Nesses momentos, como uma Nêmesis, armava a batalha para defender com vigor suas convicções.
Para mim, fica a falta das nossas conversas, quando abria uma de suas caixas de fotografias antigas e se descortinavam páginas da nossa história. Ou quando, curiosa, investigava vestígios que apareciam no retrofit da edificação da esquina em frente ao seu prédio e ia escarafunchar os registros e documentos antigos para descobrir o que tinha existido ali. Fica nossa última conversa, por mensagem, pouco antes do Ano Novo:
— Bom dia. Usei a imagem de um dos cartões-postais antigos, daqueles que você me deu, para ilustrar a coluna de Natal.
— Já vi e gostei. É muito bom ter a certeza de que os cartões estão nas melhores mãos possíveis. Obrigado, amigo.
— Eu os valorizo muito e batizei a coleção com o seu nome. Estão acondicionados de maneira adequada e separados dos demais que possuo, inclusive os da minha família. Assim, poderei sempre fazer a referência correta.
— Você é ótimo! Imagine uma coleção com o meu nome… É, estou virando personagem histórico em vida!
Maria Lourdes habitava um amplo apartamento, quase um território da memória, cercado por livros, caixas e mais caixas de fotografias e documentos de pesquisa — vestígios de tempos que se entrelaçavam, ora lembranças dos tropeiros, ora marcas deixadas pela colonização alemã. Dividia esse espaço com duas gatas, companheiras fiéis de seus últimos anos: uma afetuosa e sociável; a outra, reservada, desconfiada e, por vezes, hostil à presença de estranhos que ousavam atravessar seu domínio.
Lourdinha, não raro, guardava algo desse mesmo temperamento. Sabia ser gentil e acolhedora, mas, quando precisava se posicionar, fazia-o sem rodeios, com a clareza de quem não transige com o essencial. E aqueles que tiveram o privilégio de sua amizade reconheciam, para além das aparências, a rara grandeza de caráter que sustentava sua personalidade singular.
Na primeira coluna Sherlock Holmes Cultura de 2026 fiz uma homenagem aos colaboradores do ano passado, entre eles nossa Lourdinha. Mas ela não chegou a ver a publicação do Diário dos Campos. Não deu tempo. Ficou em compasso de espera pelo término de sua jornada entre nós. E assim também ficam todos os planos feitos para esse ano: organizar material para publicações, reedição de livros, um colóquio sobre sua obra, sua participação na Associação Germânica e no Centro Cultural Prof. Faris Michaele…
Sentimos sua ausência. É tempo de luto.





