30 de junho de 2026

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Antonio Cunha: o nome por trás da placa


Por Rafael Gustavo Pomim Lopes (Cadeira 4) Publicado 05/05/2026 às 00h00
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Toda cidade tem uma avenida que não é apenas caminho: é vitrine, encontro, memória em movimento. Em Jaguariaíva, essa condição pertence à Avenida Antonio Cunha, a principal via comercial da cidade desde o início do século XX. Seus quarteirões, ao longo das décadas, abrigaram casas de secos e molhados, armarinhos, farmácias, alfaiatarias, ferragens, sapatarias, bares, pensões e armazéns de exportação, misturando cheiros de café torrado, couro novo e tinta fresca de letreiros. Teve até cinema e ponto de ônibus interestadual numa época em que a cidade nem contava com terminal rodoviário; já foi mão dupla, com o vaivém de caminhões, jardineiras e bicicletas disputando espaço com a pressa das encomendas e a lentidão das conversas de calçada. Foi, e continua sendo, palco de eventos, desfiles, passeatas e manifestações, onde a cidade aprende a se ver e a se ouvir. Não por acaso, o ex-prefeito Silas Gerson Ayres a definiu com precisão cirúrgica: “a principal artéria de Jaguariaíva.”

Durante muito tempo, essa artéria pulsou em terra batida. Embora a concorrência pública para as obras de calçamento tenha sido aberta em 1953, foi entre 1954 e 1955, no primeiro mandato do prefeito Aldo Sampaio Ribas, que a via recebeu o revestimento de paralelepípedos. Em 2017, no segundo mandato do prefeito José Sloboda, o “Juca”, foi aplicada massa asfáltica sobre o calçamento existente, e os passeios ganharam blocos de concreto pré-moldado (paver) em tom cinza-claro. A via também recebeu mapa podotátil, tornando mais seguro e acessível o deslocamento de pessoas com deficiência visual total ou parcial. É, portanto, uma rua que se atualiza sem esquecer de onde veio.

Mas quem, afinal, foi Antonio Cunha? Seu nome completo era Antonio Appolinário da Cunha. Nascido em 1844, em Porto Belo (SC), filho de João Antonio da Silva e Felisbina Maria da Silva, Antonio deixou cedo o abrigo doméstico pelo risco do front: alistou-se como praça no Corpo de Voluntários da Pátria e seguiu para a Guerra do Paraguai. Voltou com o corpo marcado por ferimentos e com uma promoção conquistada no ruído das batalhas: por atos de bravura, foi alçado a sargento do Exército, reformando-se como inválido, condição que lhe tirou a farda, não o sentido de servir.

Veio moço para o Paraná e fincou raízes em Jaguariaíva, onde se fez fazendeiro. Do trato com a terra nasceu uma liderança tranquila: foi vereador, presidente da Câmara e candidato à Prefeitura, vencido nas urnas, mas não na utilidade pública. A derrota virou vírgula; Antonio voltou ao trabalho e à conversa de quem sustenta a vida comum.

No cenário político estadual, foi braço firme da oposição paranaense liderada pelo senador Generoso Marques; adiante, compôs a política dominante do Estado como elemento valioso. Sem exibicionismo, com constância. Na vida associativa, esteve entre os fundadores e dirigentes da Loja Maçônica José de Carvalho, obra coletiva que ergueu um espaço de ideias, filantropia e compromisso silencioso.

A biografia doméstica ilumina o patrono. Em primeiras núpcias, casou-se com Leandrina da Silva Ribas e, dessa união, nasceram Ocalina, Euclides, Virgília e Maria Judith. Viúvo, Antonio voltou a apostar no futuro e, em 12 de setembro de 1902, casou-se com Maria Leopoldina Pereira da Cunha. Dessa nova família vieram Mário, Maria Antonia, Antonio e Felisbina. Para ele, família era menos herança de bens e mais continuidade de afeto e responsabilidade.

A morte de Antonio Appolinário da Cunha foi tão repentina quanto simbólica. Um infarto o tirou de cena aos 68 anos. Coração valente que resistiu à guerra, às lutas políticas, ao peso dos dias, mas que, um dia, simplesmente parou. Era 25 de março de 1912. A cidade respondeu com um gesto uníssono, registrado pelo jornal “A República”, de Curitiba, em nota que vale ouvir na íntegra: “O comércio de Jaguariaíva, sensibilíssimo com o passamento do venerando cidadão, cerrou as portas, patenteando assim a alta simpatia em que era tido naquela localidade.”

Não houve decreto: houve respeito. Uma comunidade inteira dizendo “obrigado” baixando as portas, prova de que aquele nome já fazia parte do patrimônio moral do lugar.

E ele continua pertencendo. Quem atravessa hoje a Avenida Antonio Cunha talvez não perceba que pisa uma árvore genealógica a céu aberto. Nela reside a hoje professora aposentada Branca Xavier da Silva Fanchin, filha de Maria Antonia, a lembrada “Vovó Tonica”, e neta de Antonio Appolinário da Cunha. Mulher culta, distinta e dedicada por toda uma vida ao magistério, a Professora Branca honra, com sua trajetória e sua presença serena, a linhagem de uma família que ajudou a escrever a história de Jaguariaíva. A memória ganhou CEP, número na fachada e rotina de boa-tarde na calçada.

No fim, uma avenida é isso: um nome alongado para que mais gente passe por ele. Entre a pólvora do Paraguai e a poeira das estradas, entre a tribuna da Câmara e o silêncio de um comércio que um dia se calou para dizer tudo, Antonio Appolinário da Cunha costurou sua época com linha resistente. A artéria permanece batendo, agora em asfalto e paver, lembrando que o coração de uma cidade se escreve na placa, na pedra e nas pessoas. E há, ainda, uma última lição escondida no detalhe tipográfico, desses que parecem mínimos, mas carregam dignidade: por mais que o Word e o Google teimem em “corrigir” com um acento circunflexo, o nome do patrono não pede enfeite, não aceita tutela de teclado. É Antonio, sem chapéu e sem atalho, como quem exige da memória o mesmo rigor que exigia da vida pública: respeito à forma exata. Porque, às vezes, honrar um homem começa por algo simples e solene, escrever o seu nome como ele realmente é.

Antonio Cunha (2)
Antonio Cunha, acervo da Câmara Municipal de Jaguariaíva, PR

Lápide Antonio Cunha
Lápide, foto de Rafael Pomim

Foto Avenida – Thiago Pomkerner
Foto de Thiago Luiz Pomkerner

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