Intervenção dos EUA deve alterar comércio da Venezuela com Brasil

A ação militar promovida pelos Estados Unidos em território venezuelano foi o principal assunto de notíciarios, com forte repercussão internacional, no último final de semana. Sob múltiplos ataques armados, os EUA extraíram o líder da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores.
Na sequência, o presidente estadunidense, Donald Trump, veio a público com promessas tão ousadas quanto a iniciativa militar. A proposta é instalar um governo provisório, gerenciar a administração do petróleo, combater o narcotráfico e instalar, a médio prazo, um novo governo democrático na Venezuela.
Líderes mundiais e analistas políticos divergem quanto à necessidade, legitimidade e meios empregados pelos Estados Unidos, além de questionarem os resultados práticos e consequências da derrubada de Maduro. O Diário dos Campos se debruçou, principalmente, sobre os impactos econômicos que podem ser esperados a partir disso, a médio e longo prazo.
Para isso, a reportagem consultou a professora doutora Adriana Fabrini, coordenadora do curso de Administração, com linha de formação em Comércio Exterior da Universidade Estadual de Ponta Grossa. A pedido do DC, ela elaborou uma tabela na qual demonstra a evolução das relações comerciais do Brasil com a Venezuela. e como o comércio brasileiro, paranaense, e da região de Ponta Grossa tende a ser afetado com a intervenção norte-americana.
Chávez e Maduro
O levantamento considerou dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Ele aponta que, durante o governo de Hugo Chavéz (2002 a 2013), o volume de importação e exportação era bem maior do que no período da gestão de Maduro (2014-2025). O empobrecimento da economia venezuelano teria sido consequência de um governo mais ditatorial e de maior instabilidade do ponto de vista internacional. “A expectativa é de que um governo agora mais capitalista e liberal possa impactar nas esferas macro, meso e micro em aumento significativo comercial entre Brasil e Venezuela. O Brasil retomou e fortaleceu a parceria comercial com os Estados Unidos, então se o novo governo venezuelano for alinhado com o pensamento dos EUA, o Brasil passa a ter mais um aliado comercial de peso, com volumes que tendem a aumentar”, opina.
O petróleo
Também de acordo com Adriana, em um governo alinhado com Estados Unidados, as empresas da Venezuela tendem a experimentar maior flexibilidade para realizar importações e exportações, elevando o potencial de retomada de relações antes mais fortes.
No governo Chávez, o principal produto importado pelo Brasil da Venezuela era o petróleo. Com Maduro passou a ser o adubo e o fertilizante. A mudança de perspectiva pode permitir a retomada da importação de petróleo, com benefícios para o Brasil, se houver isenção do imposto de importação, por meio de acordos comerciais como do Mercosul ou América Latina.
Paraná e Campos Gerais
“O Paraná era um grande exportador de veículos no governo Chávez. No governo Maduro, nosso principal produto de expotação passou a ser papel. O Paraná pode se beneficiar agora, retomando, talvez, a parceria de comércio para exportação de produto de valor agregado maior”, pontua a pesquisadora.
Para a região de Ponta Grossa e dos Campos Gerais, ela acredita que as indústrias de madeira e papel, que sofreram mais com o tarifaço do Trump, agora podem ser beneficiadas com a ampliação do mercado venezuelano.

Adriana Fabrini acredita que, comercialmente, a intervenção dos EUA pode trazer benefícios ao Brasil a médio e longo prazos. Foto: Divulgação/UEPG
Expectativa de melhorias na Venezuela
Rommel Soto Mendez, 45 anos, é natural da Venezuela e mora em Ponta Grossa há seis meses. Ele contou à reportagem do Diário dos Campos como reagiu ao saber do ocorrido em seu país de origem, no fim de semana. “Primeiro fiquei preocupado, com a invasão no país, isso dá medo. Mas também feliz, pela saída de Maduro”, revelou.
Mendez mora com a esposa e três filhas em PG. Há três meses, ele trabalha como frentista em um posto de gasolina. Ele contou também que seus familiares, assim como o de sua esposa, moram na Venezuela, em uma localidade afastada de onde ocorreram os bombardeios.
“O país vai mal na economia, na saúde e também as pessoas sofrem com a opressão, pois não se pode falar mal do governo”, complementou Mendez. Ele espera que, com a saída de Nicolás Maduro, a situação da Venezuela possa melhorar.

Mendez vive em Ponta Grossa há seis meses. Foto: José Aldinan/DC
Declaração de Lula
No cenário político nacional, o presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, se manifestou nas redes sociais ainda no sábado (3), se posicionando contrário à ação norte-americana. “Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”, disse. No post, Lula convoca a Organização das Nações Unidas a “responder de forma vigorosa a esse episódio” e reitera que o “Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação”.

Delcy é presidente interina na Venezuela
Delcy Rodríguez tomou posse como presidente interina da Venezuela. Ela foi a vice-presidente do país até a captura de Maduro e prestou juramento nessa segunda-feira perante a Assembleia Nacional do país. As ações dela nos próximos dias deverão definir os resultados da ação dos Estados Unidos.


