Perder um jogo pode salvar sua temporada

Sou apaixonado por parábolas esportivas. O esporte profissional de elite, especialmente o futebol, é um campo fértil para colocar em perspectiva dilemas empresariais. Quem chegou a esse nível da prateleira já superou muitas barreiras. Há muito a aprender com eles.
Hoje quero olhar para a figura do técnico. Pois quem conduz um negócio se parece muito mais com o treinador do que com o atleta em campo. Se você é empresário e vive como atleta o tempo todo, talvez haja aí um problema maior do que se imagina.
Imagine o início de temporada. Elenco qualificado, bons reservas, ambição de título. O time ainda engrena, perde alguns jogos, empata outros. Nada desesperador, mas longe do ideal. Você percebe que jogadores tecnicamente comprovados não estão rendendo como deveriam.
Perdendo mais um jogo de 1 a 0, você é confrontado com duas opções. Insistir, cobrar, manter todos em campo esperando que “uma vitória coloque tudo nos eixos”. Ou reconhecer que, se há talento e esforço, talvez a causa esteja fora do visual e sacar peças importantes, mesmo sob críticas, arriscando perder mais um jogo para preservar o campeonato.
No centro de treinamento, o departamento médico alerta: a baixa performance não é falta de vontade. Há sobrecarga. Se continuarem forçando, a lesão virá. Uma peça fundamental ficará três ou quatro meses fora. A decisão é clara: regenerar, prevenir, limitar minutos. Menos competitividade nos próximos jogos. Mais nos últimos jogos da temporada.
No esporte, parece óbvio, não? O objetivo não é só ganhar jogos isolados. É ganhar campeonatos. A maior parte das partidas é um degrau, não o topo da escada. Quando todo jogo vira final, decisões emocionais comprometem o longo prazo. Em temporadas recentes, elencos fortes tiveram anos pífios por pensarem apenas no curto prazo.
Agora a provocação: no seu negócio, você insiste em tratar cada dia como final de campeonato? Sempre no “abafa”, sempre sem tempo para pensar estrutura, planejamento, longo prazo. Especialmente se você é técnico e jogador ao mesmo tempo.
É comum cair na armadilha de achar que o primeiro passo é se dedicar mais. Resolver o problema imediato na base do sacrifício. Depois, com calma, organizar a casa. É a mesma lógica de quem diz que começará a ir à academia depois que emagrecer. Parece incoerente, mas é rotina.
Enquanto você tenta ganhar o jogo a todo custo, outras fragilidades se acumulam fora do seu campo de visão. O problema imediato consome energia e o campeonato vai escapando. Às vezes, aceitar abrir mão de um ou dois jogos é o preço para resolver a causa do problema e voltar a competir de verdade. Talvez não venha o título nesta temporada. Mas a alternativa seria lutar contra o rebaixamento.
Se há meses sua postura é reativa, sempre apagando incêndios, não normalize isso. Muito menos chame de “problema bom”. Não é normal. Não é saudável.
Resolver pela raiz exige coragem. Coragem para admitir que algo precisa de ajuste estrutural. Coragem para buscar apoio. Se estamos na metade de fevereiro e, só de pensar em ir mais a fundo nas questões, a sua mente responde “agora não dá”, há uma grande chance de que você esteja lidando apenas com os sintomas enquanto a causa se fortalece.
Segurar um passo não é abandonar o campeonato. É proteger a temporada. Nem toda bola merece um sprint. Algumas exigem pausa. O movimento mais inteligente, frequentemente, é parar por tempo o suficiente para entender por que você está correndo tanto.
A pergunta que fica é simples: você está jogando o campeonato ou preso no ciclo de tentar ganhar todo jogo a qualquer custo?
*O autor é consultor jurídico-empresarial, advogado há mais de onze anos e especialista em planejamento e estruturação de negócios. Acredita que a perspectiva aliada à fluidez são elementos essenciais para quem deseja deixar um legado de excelência. @jeffwegermann
