A final de 28 anos atrás

A final da Copa de 1998 terminou em Paris. Em mim, ela levou muitos outros anos para acabar.
Eu tinha sete anos. Em 1994, era pequeno demais para compreender o que uma Copa do Mundo significava. Quatro anos depois, já acompanhava tudo com a certeza própria das crianças: a Seleção Brasileira era sinônimo de ser imbatível.
Então veio o 3 a 0.
A derrota doeu pelo placar, pela final perdida e, sobretudo, pelo que desfez dentro de mim. Se aquele time podia perder daquela forma, no jogo mais importante, qualquer coisa também poderia desabar na hora H.
A interpretação que encontrei foi simples: a única proteção possível seria fazer tudo 130% certo.
Planejar virou prever o imprevisível. Eu precisava considerar cada cenário, antecipar cada falha, calcular cada reação e reduzir a menor possibilidade de algo sair do controle. Ser perfeito parecia pouco. A segurança estaria em ir além da perfeição. Se não, era exatamente aquele 1% que iria dar errado.
Esse modo de pensar me trouxe habilidades importantes. Aprendi a observar, organizar, antecipar consequências e enxergar movimentos antes que se tornassem evidentes.
Também paguei um preço por isso.
É exaustivo viver se preparando para o pior desfecho. A pessoa gasta tanta energia no vestiário que chega sem pernas ao gramado.
O jogo tem hora marcada. As oportunidades também. Enquanto você fica procurando a versão infalível do plano, o árbitro apita. E o placar dá um WO.
Com o passar do tempo, num dia aleatório, percebi quanto de medo havia dentro daquela busca por excelência.
O esporte, visto com mais maturidade, ensina algo que a minha cabeça de sete anos ainda não alcançava: campeões erram. Erram passes, finalizações, escolhas e leituras. Às vezes, cometem uma falta desnecessária. Em certos dias, jogam abaixo do que sabem.
Ainda assim, continuam no jogo.
A vitória costuma acompanhar quem treinou o suficiente para errar, ajustar e permanecer no jogo. Consistência é seguir jogando depois que a realidade coloca o plano por água abaixo.
Na vida a lógica se repete. Parte importante da clareza só aparece quando a ideia encontra o mundo real. Só dá para ver a próxima curva depois de entrar na que está na sua frente.
A gente é capaz de viver bem mais do que como um reserva de si mesmo. Cheios de repertório, inteligência e potencial que permanecem fora do campo, preservando o conforto de imaginar o quão fodas seríamos se entrássemos em campo para valer. Na espera de que “algo aconteça” antes de se arriscar.
Enquanto permanecermos nessa indecisão, protegemos a fantasia do grande potencial.
O jogo nunca tem a chance de responder. Vai que a gente leva um 3 a 0? Imagine!
Entrar em campo traz a possibilidade do erro. É também onde surgem o acerto, a correção, o aprendizado e a possibilidade da vitória. Até um cartão vermelho muda as condições da partida sem definir sozinho o placar. Mesmo o placar adverso é apenas mais um passo na direção de uma futura conquista… isto é: se você não parar. A derrota só é definitiva se a gente desiste. 2002 que o diga.
Hoje continuo gostando de planos e estruturação. Eles fazem parte de quem eu sou. A mudança está no lugar que ocupam. O plano voltou a ser apenas um equipamento de jogo. Não a necessidade de ser mais que perfeito.
Levar um 3 x 0 pode ser ruim. Mas é bem melhor que a certeza do WO. Tenha um plano. E saiba que em algum momento vai ter que seguir sem ele. Mas siga!
O autor é advogado e consultor negocial, fundador da WEGERMANN DE MATOS CONSULTORIA | Visão em Negócios. É o atual Diretor Jurídico da ACIPG e presidente do Conselho Consultivo da ACIPG Jovem, órgão formado pelos presidentes veteranos. Graduado em Direito pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), é especialista em Direito Civil, Direito e Advocacia Empresarial e Direito Aplicado ao Agronegócio. Há mais de 11 anos no jurídico-negocial, atua ao lado de líderes, fundadores e pessoas de negócios, apoiando no aconselhamento e intervenções jurídicas, bem como em estruturações e formação de lideranças.
