O dia em que um ferroviário de PG matou o inspetor-geral irlandês


Por Redação Diário dos Campos

Estação Roxo de Rodrigues, conhecida como Estação Saudades - 1920 Imagem: patrimônio cultural

Estação Roxo de Rodrigues, conhecida como Estação Saudades - 1920 Imagem: patrimônio cultural

Sem prosa, à bala

Felinto Vianna, com vinte e dois anos de idade, desembarcou na plataforma da estação ferroviária de Ponta Grossa – Estação Saudade – , naquela longínqua data de 02/09/1918, pronto para dar cobro a uma injustiça que entendia estar sendo perpetrada contra si. Ele era funcionário da Companhia de Estrada de Ferro e soubera que o Inspetor-Geral da dita empresa, o engenheiro irlandês William M. Cartwright, iria cruzar por esta cidade em visita de inspeção.

Quem era o irlandês?

Cartwright era homem de confiança da concessionária das vias férreas e exercia um dos cargos mais importantes da diretoria no Brasil: enérgico, inflexível, já fora alvo de manifestações contrárias em algumas cidades do RioGrande do Sul, em que a sua postura ditatorial era recriminada.

Motivo da briga

Mas Felinto viera esperá-lo, ansioso por uma entrevista na qual se propunha a esclarecer fatos que motivaram sua demissão, embora fosse admirado por superiores e colegas em razão de sua competência. Egídio Pilotto e Luiz Guimarães, ferroviários ponta-grossenses que cuidavam da parte burocrática da estação local, já haviam falado ao rapaz que não viam possibilidade de reverter sua situação. Ele, porém, ficou aguardando o Inspetor-Geral, esperançoso de que tudo se arrumasse.

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No dia imediato à sua chegada, Cartwright efetivamente aportou em Ponta Grossa. Felinto passou a procurá-lo na tentativa de lhe entregar uma carta que explicava o equívoco de sua dispensa. O engenheiro suíço Magnus Flygare funcionou como intérprete entre os dois, mas Cartwrigt não arredou pé, afirmando que não iria voltar atrás, o que provocou o seguinte pedido do ex-funcionário:

Doutor, já que eu estou mesmo despedido, então o senhor me forneça uma declaração onde conste que saio limpo da Companhia. Então, o irlandês, aborrecido pela impertinência, disparou em fluente português o que seriam as suas últimas palavras:

Só se for uma declaração te chamando de ladrão!

O tiro

Ferveu o sangue do caboclinho de Morretes que, sem mais prosa, sacou de uma pistola “Browning” e detonou um tiro contra o interlocutor que caiu morto na hora. Felinto entregou-se à polícia sem opor resistência. Contou sua versão na qual insistia não ter se apropriado de qualquer valor da Companhia e que fora vítima de perseguição. Aduziu, por fim, que não atirara para matar, mas na perna da vítima, para que ela “se lembrasse que, impunemente, não se chama ninguém de ladrão”.

Estava arrependido? – perguntou-lhe o Delegado.

Não, não estou – foi a resposta.

Julgamento

Levado a júri, recebeu a pena máxima – 30 anos de reclusão, num julgamento movimentado principalmente pelos juristas que atuaram na acusação, contratados pela viúva e pela companhia inglesa da estrada de ferro.

*Josué Corrêa Fernandes é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.

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