07 de julho de 2026

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência no portal e personalizar a publicidade exibida. Ao continuar navegando, você concorda com este monitoramento. Leia mais na nossa Política de privacidade.

Você conhece a origem do ‘jogo do bicho’?


Por Antonio Paulo Benatte* Publicado 11/11/2025 às 20h30 Atualizado 25/02/2026 às 13h07
Ouvir: 00:00
Antigas cartelas de jogo do bicho colocadas umas sobre as outras
Imagem de antigas cartelas de jogo do bicho / Foto: BNDigital

A história do povo brasileiro não foi apenas de trabalhos, dores e sofrimentos. Um povo tem suas lutas e sacrifícios, mas também seus gozos, prazeres e alegrias. As festas, os folguedos, os jogos, as brincadeiras fazem parte da rica cultura popular do país. É impossível explicar o Brasil sem compreender pelo menos três de suas paixões coletivas: o futebol, o carnaval e o jogo do bicho.

Surge o jogo do bicho

O bicho nasceu com a república, nos fins do século 19; foi inventado na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. Tem uma origem nobre, de sangue azul. Contam os cronistas que o seu criador foi um certo barão de Drummond, amigo pessoal de Pedro II. O barão era proprietário de um jardim zoológico em Vila Izabel.

Busca por financiamento

Com a proclamação do novo regime político, o zoológico, que até então recebia recursos do governo imperial, subitamente ficou sem verbas de custeio. O barão, para não fechar a empresa e não deixar os animais morrerem de fome, teve uma ideia original: cada visitante passou a receber, como ingresso, um cartão com a figura de um animal diferente. Ao final da tarde, realizava-se o sorteio; quem portasse o animal sorteado ganhava uma pequena soma em dinheiro.

O sucesso do jogo

A invenção do barão foi um sucesso. O número de visitantes rapidamente aumentou; as pessoas iam a Vila Izabel não mais para ver os animais, mas tão somente apostar e participar dos emocionantes sorteios.

Associados a números, as formas de aposta tornaram-se mais complexas, com múltiplas combinações e variados arranjos. Como uma febre, o jogo expandiu-se pela cidade e se difundiu pelo país. Em qualquer birosca podia-se apostar. Os cronistas, a exemplo de Luiz Edmundo e Machado de Assis, levaram a fauna e os jogadores para as letras de jornais e livros. Os cartunistas fizeram a festa gráfica com os bichos a fugirem do zoológico e se espalharem por casas e ruas.

Combate à jogatina

A polícia, desde o início, tentou dar combate e extinguir a jogatina, sem sucesso. As leis que a proibiam, nasciam letra morta. Os moralistas (um deles Rui Barbosa) teceram longos discursos condenatórios, com argumentos econômicos, médicos, jurídicos, éticos. Tudo em vão. O bicho, organizado e explorado pelas máfias de “banqueiros”, tornou-se o hábito que se conhece. Cientistas sociais como Gilberto Freyre ensaiaram diversas explicações, todas insuficientes.

A força do bicho

A força do bicho, com quase um século e meio de história, tem muitas razões de ser e de permanecer. Sempre foi jogo barato, acessível aos pobres, quer dizer, a grande maioria da população. A função de cambista ou apontador tornou-se, para muitas pessoas igualmente pobres, uma forma de obtenção de renda: bico, biscate, viração. Os grandes bicheiros tornaram-se mecenas de escolas de samba, clubes de futebol e partidos políticos.

A contravenção

As tentativas de regulamentação (atrelando-o ou não às loterias estatais) não foram adiante. Entrou para a lei das contravenções penais, tolerado mas não muito, conforme o conveniente para a manutenção da ordem e do “sistema”. Na clandestinidade, sempre alimentou a indústria da corrupção que prosperou com a república, na democracia e nas ditaduras, em todas as esferas da política e em todos os níveis de governo.

Prática cultural lúdica

Mas, sem dúvida, a potência do bicho, enquanto prática cultural lúdica, reside no fascínio que exerceu (e ainda exerce) sobre a imaginação das gentes. Com o passar do tempo, alimentou todo um folclore próprio, misturou-se a crenças religiosas e práticas mágicas; penetrou o inconsciente, invadiu os sonhos.

As operações matemáticas e as práticas adivinhatórias para descobrir “o bicho que vai dar” formam uma lista que não cabe aqui. Se o jogador “anda caipora” (sem sorte), recorre a orações, simpatias e mandingas para atrair a boa fortuna e afastar o azar. As benzeduras, os amuletos, as interpretações dos sonhos como fonte de palpites entraram para a enciclopédia das mil e uma artes da cultura popular.

O bicho já foi considerado crime, contravenção, vício, fator de doença mental, sinal de atraso cultural (mentalidade “pré-lógica”), etc. No vocabulário sociológico de Marcel Mauss, talvez possa ser explicado como um fato social total; na linguagem da mística, talvez seja um mistério.

*Antonio Paulo Benatte possui graduação em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL, 1993), mestrado em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR, 1996) e doutorado em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 2002). Tem experiência docente na área de História, com ênfase em Teoria e Metodologia da História e com publicações na área. É professor associado na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), na área de Teoria da História.

Leia também:

Participe do grupo e receba as principais notícias da sua região na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.
Artigos

Inovação e tecnologia parao futuro do agronegócio

Publicado 07/07/2026 às 00h00

A cada dia os produtores rurais incorporam mais tecnologia no processo produtivo e segundo a consultoria PwC, 78% dos CEOs…


A cada dia os produtores rurais incorporam mais tecnologia no processo produtivo e segundo a consultoria PwC, 78% dos CEOs…

Artigos

A reforma tributária e um novo cenário para o varejo nos shopping centers

Publicado 03/07/2026 às 00h00

A reforma tributária brasileira costuma ser analisada sob a ótica da arrecadação e da simplificação de impostos. No entanto, seus…


A reforma tributária brasileira costuma ser analisada sob a ótica da arrecadação e da simplificação de impostos. No entanto, seus…

Artigos

O falso alerta da Defesa Civil e afragilidade da confiança digital

Publicado 30/06/2026 às 00h00

Na madrugada do último dia 20, um sábado, milhões de brasileiros foram surpreendidos por um alerta extremo da Defesa Civil…


Na madrugada do último dia 20, um sábado, milhões de brasileiros foram surpreendidos por um alerta extremo da Defesa Civil…