Uma crítica à linguagem utilitarista do tempo e a reconquista da plenitude humana

Vivemos, como sociedade contemporânea, sob um regime linguístico poderoso e silencioso que transformou nossa relação com o tempo em uma questão predominantemente produtiva. Quando afirmamos, com naturalidade cotidiana, que determinado dia é “útil”, estamos implicitamente classificando os demais como menos importantes — e essa distinção aparentemente inocente molda profundamente nossa percepção de valor, propósito e dignidade.
A expressão “dias úteis” consolidou-se no vocabulário brasileiro como sinônimo do período compreendido entre segunda-feira e sexta-feira, os dias tradicionalmente associados ao trabalho formal, à produção econômica e à geração de riqueza material. Os demais dias da semana — sobretudo sábado e domingo — tornaram-se, por oposição, apenas “fim de semana”: um intervalo entre jornadas produtivas, quase uma pausa necessária daquilo que seria a “verdadeira vida”.
Essa divisão revela uma visão de mundo em que o ser humano é frequentemente reduzido à sua capacidade de produzir. O valor pessoal passa a ser medido, prioritariamente, pela eficiência, pelo desempenho e pela utilidade econômica imediata.
Mas será que o domingo, para uma família que finalmente consegue reunir-se em torno da mesa, conversar sem pressa e fortalecer seus vínculos afetivos, é menos útil que uma terça-feira de trabalho intenso? Para pais que encontram tempo de qualidade com os filhos após uma semana de ausência, esse pode ser o dia mais fecundo da semana — produtor de afeto, identidade e memória.
Para comunidades religiosas, o domingo representa um espaço de transcendência, esperança e renovação espiritual. Para artistas, escritores e pensadores, o descanso e a contemplação frequentemente se tornam fonte de criatividade e inspiração. A utilidade, afinal, não se limita à esfera econômica.
A linguagem que adotamos reflete e reforça prioridades culturais. Quando institucionalizamos a ideia de que apenas cinco dias possuem utilidade reconhecida, legitimamos uma organização social que subordina as demais dimensões da existência à lógica da produtividade. O lazer torna-se apenas recuperação física para voltar ao trabalho. A família converte-se em espaço de recomposição emocional. A espiritualidade transforma-se em mecanismo de alívio psicológico diante das pressões da rotina produtiva.
Nada parece possuir valor intrínseco: tudo passa a ser funcional ao desempenho.
Essa colonização do tempo pelo utilitarismo econômico ajuda a explicar paradoxos contemporâneos inquietantes. Vivemos a era do burnout, da ansiedade generalizada e do enfraquecimento dos vínculos humanos. Trabalhamos mais, mesmo cercados de tecnologias que prometiam libertar nosso tempo. E, ainda assim, continuamos chamando de “úteis” justamente os dias que mais nos esgotam, enquanto tratamos com superficialidade o tempo dedicado ao amor, à amizade, à contemplação, à fé e ao cuidado.
Por isso, torna-se necessária uma mudança de perspectiva — e também de linguagem. Todos os dias são úteis, cada um à sua maneira.
A segunda-feira pode ser útil para o trabalho e para o estudo. O sábado pode ser útil para o descanso restaurador, para os hobbies, para o voluntariado e para o cuidado com a casa e com a comunidade. O domingo pode ser útil para a espiritualidade, para a convivência familiar e para a renovação interior.
Ao substituirmos expressões automáticas por termos mais precisos — como “dias de trabalho”, “tempo de descanso” ou “horas de cuidado” — reconhecemos que diferentes esferas da vida possuem igual dignidade. O trabalho é importante: sustenta a sobrevivência, desenvolve capacidades e contribui para o bem comum. Mas ele não pode ocupar sozinho o centro absoluto da existência humana.
O amor, o repouso, a beleza, a fé, a amizade, a criatividade e a contemplação também respondem a necessidades fundamentais da pessoa humana. Negligenciar qualquer uma dessas dimensões produz empobrecimento existencial.
Além disso, a própria realidade contemporânea já desafia a antiga divisão rígida entre “dias úteis” e “fim de semana”. O trabalho remoto, a economia de plataformas, os serviços essenciais, as profissões criativas e as múltiplas formas de cuidado tornaram as experiências do tempo muito mais diversas. Pais e mães em dedicação integral aos filhos, cuidadores de idosos, profissionais autônomos e trabalhadores de plantão vivem temporalidades que não cabem mais no modelo tradicional da semana produtiva.
Continuar tratando apenas certos dias como “úteis” torna-se, nesse contexto, não apenas anacrônico, mas também excludente.
A proposta desta reflexão não é abolir palavras, mas ampliar nossa sensibilidade. Quando perguntarmos “qual a utilidade deste dia?”, que a resposta possa incluir: utilidade para o afeto, para o conhecimento, para o descanso, para a espiritualidade, para a criatividade, para a cidadania, para o cuidado e para a simples experiência de estar vivo.
O maior desperdício não é deixar de trabalhar em determinado dia. O verdadeiro desperdício é viver como se apenas a produtividade econômica tivesse valor real. Cada amanhecer nos oferece possibilidades de amar, criar, pensar, cuidar, celebrar e crescer — e todas essas experiências possuem dignidade própria.
A transformação começa na linguagem, mas não termina nela. Ao mudarmos nossas palavras, transformamos também nossos pensamentos. E, ao transformarmos nossos pensamentos, abrimos espaço para uma sociedade que reconheça a plenitude da experiência humana.
Que aprendamos, enfim, a enxergar o tempo não apenas como recurso econômico, mas como espaço sagrado da existência. Porque todos os dias podem ser úteis — úteis para a vida em sua integralidade, para a dignidade humana e para a construção de uma sociedade onde trabalhar, descansar, amar, celebrar e simplesmente existir sejam atividades igualmente respeitadas.
*Claudimar Barbosa da Silva é Advogado em Ponta Grossa.
