Entre o medo da finitude e a coragem de viver
Ninguém pode negar que o medo da morte é um dos sentimentos mais perturbadores que o ser humano enfrenta. Há quem diga que esse medo acompanha a humanidade desde o início dos tempos talvez tenha sido o primeiro impulso para criar rituais, símbolos, crenças e esperanças.
Afinal, a morte é o acontecimento mais misterioso e inevitável da existência. Ela é enigmática porque não pode ser decifrada. E é fascinante porque nos faz refletir sobre a própria vida. É diante da morte que o viver se torna mais nítido, mais urgente, mais precioso.
Paradoxalmente, é ela, a morte que nos desperta para a vida. Mas, se todos sabemos que um dia morreremos, por que ainda temos tanto medo?
Talvez não seja exatamente o medo da morte, e sim o medo de não ter vivido o suficiente.
O medo de perceber que passamos pelo tempo sem realmente sentir, sem nos permitir, sem deixar marcas de afeto e presença no caminho. A vida, muitas vezes, se esgota não porque termina, mas porque deixamos de estar inteiros nela. Quando nos distanciamos de nós mesmos dos nossos sonhos, da nossa alegria, da nossa capacidade de se encantar, é como se morrêssemos um pouco antes da hora. O medo da morte, então, nasce quando a vida deixou de ser plenamente vivida. O filósofo Horace Kellen, ao completar 73 anos, escreveu algo profundamente verdadeiro:
“Há pessoas que pautam suas vidas em função do temor à morte, e há pessoas que o fazem considerando a alegria e a satisfação da vida. Os primeiros vivem morrendo, os outros morrem vivendo. Sei que o destino pode terminar comigo amanhã, mas a morte é uma contingência sem importância; chegue quando chegar, pretendo morrer vivendo”.
Essas palavras resumem um princípio essencial: não podemos evitar a morte, mas podemos escolher como viver. E viver plenamente é fazer da existência um gesto de sentido. A vida ganha valor quando tocamos outras vidas. Quando olhamos para trás e podemos dizer: “Fiz diferença. Fui presença. Fui amor.” O ser humano só se torna completo na relação com o outro é no encontro que nos tornamos verdadeiramente humanos. Essa é uma escolha que cada um de nós pode fazer: viver morrendo ou morrer vivendo.
Transformar o medo em consciência, a finitude em força, o tempo em presença. A vida ganha sentido quando tocamos outras vidas. Quando somos lembrança boa no coração de alguém. Quando deixamos marcas de amor, de escuta, de ternura. É nesse encontro que o viver se torna pleno, porque ninguém existe verdadeiramente sozinho.
Só então poderemos dizer, com serenidade: “Não tenho medo da morte, porque vivi, amei e fui amado, desafiei e fui desafiado, deixei minha marca nas pessoas.” Mais assustadora do que a morte,
é a vida desperdiçada, aquela que passa sem ser sentida, sem vínculos, sem entrega, sem presença. A morte, afinal, não é o oposto da vida, mas parte dela. Negá-la é negar a própria condição humana.
Encará-la é um ato de coragem e amor. Deus, como diz o Salmo, não nos livra da morte mas nos livra da sombra da morte, do medo que paralisa e impede de viver. Ele nos convida a viver verdadeiramente, a usar bem o tempo, a amar sem medidas.
Quando aceitamos nossa finitude, cada gesto ganha um novo valor. Um abraço dura mais.
Um “eu te amo” ganha urgência. O tempo deixa de ser apenas contagem e passa a ser significado. E, talvez, seja isso o que a morte tenta nos ensinar desde sempre: que viver é um milagre cotidiano e que a eternidade se revela, silenciosamente, instante em que somos plenamente humanos. E talvez seja essa a lição mais profunda de todas: a morte não é o fim, é apenas o espelho que nos devolve o valor da vida. Porque viver, de verdade, é o maior ato de fé que existe.
A autora é pedagoga e psicóloga. Este artigo é um trecho de seu livro “Lições Preciosas” ([email protected])
