30 de junho de 2026

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De quanta terra precisa um homem?


Por Mário Sérgio De Melo Publicado 01/05/2026 às 00h00
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Este é o título de um dos mais conhecidos contos do imortal escritor russo Liev Tolstói. Ele trata da crescente e insaciável cobiça de um camponês instigado pelo diabo, que no afã de conquistar mais e mais terras acaba, por fim, descobrindo que sete palmos bastam para acolher seu cadáver, exaurido pela insana busca.

Talvez o mais impressionante do conto de Tolstói seja a data: 1886. Decerto o autor já constatava a multiplicação das possibilidades da ambição, concentração de riquezas e poder advinda da industrialização, iniciada no século XVIII. Não que antes a ânsia de poder e ganho já não alucinasse os seres humanos em suas conquistas. Mas sem dúvida a indústria potencializou o alcance dessa pulsão.

Que imaginaria Tolstói diante das sofisticadas artimanhas de poder e posse do século XXI? As tecnologias de ponta e os algoritmos manipuladores, as comunicações massificadas, a vigilância eletrônica universalizada, a inteligência artificial sob suspeita de revoltar-se contra a humanidade, a superexploração e a incúria com a natureza que sustenta a vida? O diabo que implantou a louca sofreguidão no camponês de Tolstói hoje dispõe de instrumentos muito mais sedutores e dominadores. O camponês exauriu-se antes de compreender quanta terra lhe caberia ao final. A ganância e o desvario da humanidade no século XXI chegarão ao mesmo fim? Ou seja, à extinção da espécie?

Instigado pelo artigo de um amigo, fui ver o que a inteligência artificial fala sobre os riscos de extinção da humanidade. Surpresa: o principal risco é o descontrole e a revolta da IA! A própria IA nos alerta dos riscos da IA. Ela está nos avisando! Outros riscos são guerra nuclear, superpandemia, colapso climático e ecológico, ciberterrorismo, impacto de corpos celestes, supererupção vulcânica, erupções solares…

Mas o que me chocou mesmo foi ver entre os riscos de extinção a possibilidade de que o planeta Terra, com seus atributos miraculosos, venha a ser “descoberto” por uma distante civilização alienígena superevoluída, que resolva vir livrar este planeta prodigioso de uma espécie parasita que está a destruí-lo. Nós a chamamos de Homo sapiens. Ainda que a IA considere esta uma possibilidade remota, ela não foi esquecida. Se lembrarmos que o universo tem mais de quatorze bilhões de anos, a Terra tem menos de cinco bilhões, o Homo sapiens algumas poucas centenas de milhares de anos, não é difícil supor que o infinito firmamento esteja povoado por muitas civilizações impensavelmente mais antigas e evoluídas que nós.

O astrônomo e astrofísico Carl Sagan transformou esta hipótese num romance de ficção científica maravilhoso, convertido também em filme: “Contato”, o livro lançado em 1984, o filme, dirigido por Robert Zemeckis, lançado em 1997. Num dado momento da trama, a protagonista humana pergunta ao interlocutor alienígena, capaz de viajar no tempo e no espaço e de ler pensamentos e memórias, como atingiram tal sapiência. Ao que ele responde que aprenderam bilhões de anos antes, com uma raça que já os ensinava naqueles tempos distantes. Há outra ótima história que trata de tema conexo, “O dia em que a Terra parou”, já transformado em filme em duas ocasiões (1951 e 2008).

Oxalá as raças evoluídas existentes no universo nos considerem uma espécie promissora, seduzida pelo diabo mas com alguma chance de arrependimento. E que não resolvam elas nos exterminar. Deixem para nós mesmos a possibilidade de nos autoextinguirmos.

O autor é geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG

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