Artigo: a criança não é um livro em branco

É comum ouvirmos que uma criança é uma “livro em branco”, pronta para ser preenchida com bons valores, educação e limites. A frase parece inocente, mas carrega uma visão ultrapassada da infância. Como pedagoga e acadêmica de psicologia, entendo que a psicanálise, campo que investiga as profundezas da mente humana,nos ensina algo bem diferente: a criança já chega ao mundo como sujeito em formação, com desejos, medos, conflitos e uma história que começa antes mesmo das primeiras palavras.
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Sigmund Freud, foi o primeiro a propor que a infância é marcada por pulsões,forças internas ligadas à busca por prazer e satisfação. Quando o bebê mama, por exemplo, ele não apenas se alimenta; ele também experimenta prazer, vínculo, segurança. Segundo Freud, essas primeiras experiências deixam marcas duradouras, que influenciam a forma como cada um vai amar, se frustrar e lidar com o mundo adulto.
Mais tarde, o psicanalista Jacques Lacan trouxe uma nova camada a esse entendimento. Para ele, a criança só se torna verdadeiramente “alguém” a partir do olhar do outro, principalmente dos pais. Quando um bebê é nomeado, chamado, reconhecido, ele passa a se ver como parte do mundo. Mais do que espelhos físicos, é o espelho do afeto e da linguagem que constrói sua identidade. E é nesse contato com regras, palavras, proibições e permissões que nasce o sujeito.
Outros pensadores da psicanálise também contribuíram para enriquecer essa compreensão. Melanie Klein mostrou como, desde muito cedo, o bebê já vive intensamente relações internas entre amor e raiva, presença e ausência, sentimentos muitas vezes projetados em figuras como o seio materno. Donald Winnicott, por sua vez, nos lembrou que para uma criança crescer emocionalmente saudável, ela não precisa de perfeição. Precisa de uma mãe (ou cuidador) “suficientemente boa” que a acolha, a escute e lhe permita brincar. E nesse brincar, ela explora o mundo, a si mesma e aprende a existir.
O que tudo isso nos ensina? Que comportamentos como birra, silêncio, inquietação ou excesso de apego não são apenas fases ou “manha”. Muitas vezes, são formas que a criança encontra para comunicar algo que não sabe explicar com palavras. O sintoma é uma linguagem. E a escuta ,de pais, professores e cuidadores, deve ir além do que é dito: é preciso escutar com atenção, com sensibilidade, com o olhar de quem reconhece ali uma mente em construção.
Enxergar a infância com os olhos da psicanálise é abandonar a ideia de um tempo “ingênuo” e ver ali um momento vibrante, cheio de descobertas e conflitos. A criança não está esperando ser moldada. Ela já está vivendo, sentindo, desejando. E o papel dos adultos não é “preenchê-la”, mas acompanhá-la, oferecer presença, segurança e espaço para que ela se torne quem já começa a ser.
Essa visão não é apenas teórica. Ela muda o jeito como educamos, cuidamos e nos relacionamos. Convida pais e educadores a uma escuta mais empática, a um olhar mais profundo. E, sobretudo, nos lembrar que toda criança carrega em si uma história que começa muito antes de sabermos lê-la.
*A autor é escritora e pedagoga
