19 de junho de 2026

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A febre do rato


Por dmais Publicado 01/08/2017 às 21h16 Atualizado 23/02/2026 às 19h24
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POR PEDRO MIRANDA

FEBRE DO RATO (CLÁUDIO ASSIS, 2011). Para quê tanta guerra? Podem calar as bocas oficiais, mas nunca a poesia. E minha boca é pura poesia. Safada, mas poesia. Entremeada, mas poesia. Arrotada, e, mesmo assim, poesia, grita Zizo (Irhandir dos Santos), poeta de boca cheia e contestador da realidade que o cerca. Com esta índole, Cláudio Assis, diretor do filme, continuou na trilha de seus ótimos longas anteriores (Amarelo Manga, de 2002; e Baixio das Bestas, de 2006), revisitando a denúncia social. Contudo, a crueza daqueles filmes, que revelava um determinismo próximo do absoluto, foi aqui suavizada. Em parte, pela lindíssima fotografia em preto e branco, que deu um caráter mais intimista à história; e também pela trajetória de seus personagens, mostrada com ternura e cumplicidade, vivendo quase que idilicamente, não fossem as dificuldades retratadas.

A grana é pouca, a moradia é precária, traições são cometidas e a apatia política é a regra, mas a poesia e o amor são poderosos combatentes – mesmo que limitados, como o filme duramente comprova. Mas é esta febre de viver a vida desgraçada do rato, porém feliz, que a narrativa compartilha; de ver poesia no mijo, na cachaça ou onde poucas pessoas a enxergariam (a linguagem, simultaneamente chula e lírica, é própria do filme, prenunciando a mais recente obra de Assis, de 2016, Big Jato). Não por coincidência, as formas de amor aqui retratadas não são as padronizadas. Enquanto Matheus Nachtergaele tem uma união estável com uma travesti, Juliano Cazarré vive um poliamor com outros dois homens e uma mulher. E mesmo Zizo não tem pudor de suas transas casuais com as vizinhas, obesas e mais velhas. Não há questionamentos sobre o normal, já que tais amores são fundados no consenso e na liberdade. Estamos indo para a cidade, para propor a reorganização dos vícios que só fazem bem ao desenvolvimento do espírito humano! E apenas quando, em público, Zizo e Eneida (Nanda Costa) se libertam de suas amarras, inclusive as vestimentas, é que se tornam livres por completo, até mesmo para exercer o exigido direito de errar. Não há, afinal, certezas, padrões ou caminhos pré-fixados. Senão, é claro, a minha inevitável ansiedade pelo próximo filme de Cláudio Assis.

 

* Os filmes do diretor estão disponíveis, completos, no YouTube. E se não foi o próprio quem os colocou ali, tenho certeza que apoia a iniciativa, o que se coaduna com uma de suas declarações, bem ao estilo do poeta Zizo: Não faço cinema para comprar apartamento na Avenida Vieira Souto. Cinema não é vender Coca-Cola.

 

 

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