
Neste mês o Parque Estadual de Vila Velha celebra 72 anos desde a publicação do Decreto nº 1.292. O documento, lançado em 12 de outubro de 1953, oficializou a preservação das formações areníticas do Parque Estadual de Vila Velha. Em referência à data, o Diário dos Campos reproduz um vídeo especial lançado em setembro, por ocasião do aniversário de 202 anos de Ponta Grossa. Intitulado “Vila Velha, memória eterna de Ponta Grossa – Uma homenagem”, o material foi produzido por Newton Schner Junior, pianista, professor de idiomas e promotor cultural da cidade.
O vídeo combina narração poética, pintura e memória histórica. A voz de Schner Junior dá vida ao texto original de João Cecy Filho, ponta-grossense falecido em 1941, cuja obra literária foi resgatada e incorporada ao livro Biografia de Vila Velha, de Lourival Santos Lima. As imagens que acompanham a narração são pinturas de Newton Schner, pai do autor do vídeo.
A homenagem foi realizada em parceria com o Centro de Línguas Germania, a Academia de Letras dos Campos Gerais e o Centro Cultural Prof. Faris Michaele. No todo, o vídeo constitui múltiplas camadas de homenagens: para Ponta Grossa, para Newton Schner, para Vila Velha e para João Cecy Filho. Este último, nomeia rua da cidade, mas tem uma história pouco conhecida. Assista ao vídeo:
João Cecy Filho: talento precoce e memória esquecida
De acordo com o historiador Peter Lapezak em sua obra “500 ruas de Ponta Grossa”, João Cecy Filho nasceu na cidade em 30 de dezembro de 1912, filho do imigrante sírio João Cecy e da curitibana Maria Júlia da Rocha Pombo Cecy. Era sobrinho do historiador Rocha Pombo.
Advogado de formação, faleceu jovem e solteiro, em 14 de dezembro de 1941, aos 29 anos. Seu funeral contou com a presença de autoridades de diversos segmentos, e o quartel do 13.º Regimento de Infantaria suspendeu o expediente em sua homenagem. Uma rua no bairro Uvaranas, anteriormente chamada Tobias Barreto, hoje leva seu nome.
O texto que compõe o vídeo foi divulgado apenas após sua morte. Segundo nota de rodapé do autor Lourival Santos Lima, a obra seria parte de um romance que João Cecy Filho escrevia, mas que jamais foi encontrado, apesar das buscas realizadas após seu falecimento.
Confira o texto do vídeo na íntegra:
Ali no alto da colina, um pouco cinzento, um pouco verde, do cinzento que evoca as batalhas indecisas do tempo, desse verde que anuncia o desabrochar fantástico da vida. Ali com sentinela de granito a dominar os chapadões multiformes, que se desdobram revoltadamente até se perderem na sombra dos horizontes que a circundam.
Ali Vila velha, a cidade de pedra, a cidade em ruínas, a cidade dos séculos. Vendo-a assim de longe, muda e sozinha, erguendo desordenadamente a ponta das formações geológicas no aveludado impressionante dos campos, severa e lúgubre, admoestando o destino.
Com o protesto que se expande na majestade do aspecto exasperado, na tortura do silêncio que transporta, sente-se a alma fugir no arrebatamento indizível das emoções que se curam, vencida pela incoerência das paisagens esquisitas. Na fisionomia desse milagre alucinante, tudo são abismos. A natureza fascina e intimida, atrai ao mesmo tempo que desorienta. Aqui o terror, a vertigem, lá a atração, o chamamento.
E quando esses abismos se agitam, nada há de mais estupendamente perverso do que as decisões da energia abandonada. Os seus quadros são obras de arte que descontrolam e ninguém sabe descrever o gesto das catástrofes. Ele fica por aí petrificado, incolor, sem característicos, à espera de outras tempestades, de outros terremotos, de outros furacões.
Ali o que teria o sol iluminado durante os estertores da estratificação inflexível, cruel, irresoluta. Ali quantas vezes o luar das noites submissas prateou os transes do barro alvoraçado pelo soluço das forças olvidadas? Ali quem ouviu os brados inúteis das agruras empolgantes, os roncos fundos da cólera inconsciente, a aflição amarga dos desconjuntamentos? Vila Velha é filha dos abalos impenetráveis. O seu nascimento se esconde no arcabouço das eras, onde o passo da história não penetra. Vê-se que ela se enruga, se torce, se agiganta sob um jugo desconhecido, nada mais. É o símbolo de uma realidade humana. É o retrato da existência inconsolável.
É a sepultura do sonho extravagante. É o resto morto da vontade fracassada. Mas se uma vida é miserável, nós dizemos que a morte lhe dará descanso. E o que pensaremos das dores inorgânicas? Não saberíamos dizê-lo, porque a Terra esmaga o entendimento quando resolve problemas das suas agitações indefiníveis.
Ali, Vila Velha, quem entra nessa fortaleza devassada, se atordoa e se esquece de tudo. De chegada, aquela rua asfaltada de verde, cortando à direita outras ruas, menores, becos, vales, passadouros. Levam para o interior hibernal da cidade solitária, para o dédalo de caminhos intrincados que se ligam, no fundo, de grutas tenebrosas. Desse lado, emparelhados como arranha-céus americanos, se levantam desafiando o equilíbrio das bases. São as muralhas de Pérgamo. Do outro lado à esquerda, massas graníticas. Aqui com forma de um animal pré-histórico.
Adiante, com a de castelos e catedrais imponentes, acolá como a duma torre, dum farol, dum pagode, duma pirâmide invertida, dum navio encalhado, todas insuladas, caracterizadas pelo tamanho e pelo molde, surgindo do meio de uma vegetação luxuriante, parecem reconstruir a cidade antiga, arquitetada com as suas acrópoles soberbas, os seus pátios espaçosos e os monumentos egípcios e os jardins suspensos da Babilônia, Rede Viva.
E tudo isso bordado de relva, e tudo isso pintado de prata, de ouro, de chumbo. Nos paredões a pique, copiando o corte dos monstros de areia, as sombras desenham figuras assombrosas e expressivas. São fantasmas. E nesta pedra, em alto-relevo, o cavalo de Ulisses. Naquela, a cabeça do leão, os ursos dançando, pombos e guerreiros. Numa delas, saliente e exato o perfil heroico de Dom Pedro II. Ali, no museu naturalmente sincero das idades, a natureza desvestida desempenhou o semblante austero daquele que viveu nobremente a sua época.
Ao norte da vila, a esfinge do Paraná. São três blocos formidáveis. O primeiro é a esfinge egípcia, que se liga ao segundo e ao terceiro, ambos arredondados, formando a trímore dolorosa dum corpo alongado indefinidamente. Nessa mesma direção, vê-se o porco, cópia fiel de um suíno gigante. Depois, esculturadas por mãos de artista exímio, as tartarugas. Não faltam aí nem os pés, que se arrastam custosamente. No fim da rua há uma praça, é o Coliseu Romano. Contornando-a encontra-se uma elevação que permite galgar os colossos. Lá, do alto, a vista é intraduzível. Mil metros acima do nível oceânico nos colocam em frente de um planalto que de todos os lados se evapora ondeando.
E lá no fim, quase imperceptível, denunciada aqui e além por um reflexo mais forte, Ponta Grossa, a cidade real, a cidade do homem, a cidade pintada. Na extremidade desse áspero terraço, a todo instante cheia de buracos afunilados, que são a claraboia das cavernas, há de repente um precipício e, no fundo, estende-se a floresta cortada por um riacho que se mostra cor de prata pelo emaranhado da selva.
Ali é que as alvoradas fazem do homem um apóstolo embriagado pelas promessas da crença, e os crepúsculos, um poeta tresvairado pela mentira da saudade. Poeta e apóstolo que por entre as rochas e as suas sombras se abraçam ao tronco do pinheiro altivo, o irmão carinhoso que por ali se espalha, cresce e se levanta. Único historiador, único soldado e único Messias. Um quilômetro de era azoica no século do aeroplano e do rádio. Eis Vila Velha.
