
Na Rua Curitiba, em Olarias, pedaço de Ponta Grossa onde a década de 50 ainda andava de vestido rodado e passos contidos, morava Dirce Soltes. Jovem, bela e educada para caber no mundo do jeito certo. Naquele tempo, as regras eram claras. As meninas aprendiam cedo a baixar os olhos, dobrar a roupa, rezar antes de dormir. Dirce aprendeu tudo direitinho.
A cidade de Olarias, como até hoje é carinhosamente chamado o bairro, era o seu território inteiro. Ali ela cresceu, atravessando a infância, a adolescência e a juventude entre a escola, os afazeres domésticos, os grupos de oração e as missas, como toda moça recatada. O Clube Olinda, espaço respeitado e frequentado por famílias de sobrenomes conhecidos, com vigilância silenciosa sobre gestos e palavras, fazia parte desse roteiro bem-comportado.
Dirce seguia as regras sem contestação, mas carregava um segredo, guardado no lugar mais improvável e mais seguro: o próprio corpo. Quando se aproximava o Carnaval, época em que Olarias respirava o samba, no silêncio do quarto, com a porta trancada e o coração em vigília, ela se permitia ser outra.
As baterias das agremiações ensaiavam ali perto, e o ritmo atravessava paredes, cortinas, rezas e regras. Quando o primeiro surdo batia, Dirce fechava os olhos e o quarto virava passarela. Ao som dos surdos e tamborins, ela se entregava. Não sabia propriamente sambar, mas seus pés encontravam o compasso. Primeiro tímidos, depois mais ousados, marcavam o ritmo. Os quadris vinham atrás, como pêndulos obedientes, balançando de um lado para o outro. Não por rebeldia, mas por fidelidade ao corpo.
A cada ano, algo nela se soltava um pouco mais. O gingado nascia sem espelho, sem plateia, sem permissão. O corpo aprendia sozinho aquilo que não se ensinava às moças direitas. Com o tempo, quando os braços já sabiam ir para o lado oposto da perna e a pisada ditava o tempo com precisão, Dirce decidiu que não sambaria mais na companhia da própria solidão. Era hora de ver o Carnaval de perto. Hora de existir também fora do quarto.
Foi à rua acompanhar as batidas e, sem saber, cometeu um pecado. O castigo veio rápido: foi expulsa do tradicional grupo Filhas de Maria, da Catedral de Ponta Grossa. Uma sentença silenciosa, dessas que não levantam a voz, mas pesam como pedra. Esperavam arrependimento, mas o que Dirce entregou foi rebeldia.
No ano seguinte, em 1959, lá estava ela, para espanto geral, disputando o título de Rainha do Carnaval do Clube Olinda. Houve desdém, cochichos, olhares que condenavam antes mesmo do samba começar. Mas bastaram os primeiros repiques para que a sentença perdesse espaço. Os pés marcavam o tempo, os quadris respondiam, os braços acompanhavam com naturalidade. Não havia desafio ali. Havia segurança.
Os olhares, antes duros, ficaram suspensos. Pairava a incredulidade: “como uma descendente de austríacos, tão religiosa, podia sambar assim?”. Podia. E podia porque o corpo guardava verdades que o discurso jamais controlou. O ritmo encantou a diretoria e, naquele ano, Dirce foi eleita Rainha do Carnaval.
Nada a impediria de cumprir seu reinado. Nem mesmo o namorado, Antônio Massinhan, que se colocou contra o título. Primeiro tentou fazê-la desistir com pedidos. Depois, com ultimatos. Disse que terminaria o namoro se ela insistisse naquela ideia de ser Rainha do Carnaval do Olinda.
Dirce ouviu em silêncio. Não o silêncio da submissão, mas o da decisão. Não discutiu, nem explicou. Apenas respondeu com um seco e vago “você que sabe”. Porque ela sabia que tinha um reinado pela frente, e reinados não pedem permissão.
Assim, sob a guarda do samba, vestiu-se de coragem e seguiu. Às claras. Para fora do quarto e para longe de qualquer forma de enclausuramento.
Viveu aquele ano como quem cumpre um ritual de plenitude. Brilhou nos bailes de todos os clubes de Ponta Grossa, representando o Olinda. Sambou sob luzes e olhares, levando no corpo um título que não pesava. A saia girava larga, sustentada por anáguas coloridas como um arco-íris que insistia em existir mesmo nos dias cinzentos. O corpo sabia o caminho, onde pousar o pé, quando girar, quando parar.
Em alguns bailes, via Antônio, de soslaio, observando-a em silêncio, como quem espiava um mundo que já não mais controlava. Ela não se incomodava. Estava inteira demais para caber em dúvida.
Dirce seguiu aquele ano levando consigo, mesmo sem saber, a certeza silenciosa de ter sido, por um instante, absolutamente inteira.
No Carnaval seguinte, o samba silenciou um pouco. A rainha do Olinda não se candidatou novamente ao título. Em nome do amor, abriu mão da coroa. Casou-se com Antônio, guardando o samba no fundo do baú, com a esperança de algum dia resgatá-lo.
O casamento foi um ritual de encerramentos. A igreja se encheu de flores arrumadas pelas mesmas Filhas de Maria que, dois anos antes, haviam-na expulsado por ousar assistir ao Carnaval de rua. A festa aconteceu no mesmo salão do Clube Olinda onde, no ano anterior, Dirce fora coroada Rainha do Carnaval. O espaço parecia lembrar e, ali, entre mesas e olhares cruzados, ela dançou pela última vez, sem saber que se despedia.
Depois, a vida encolheu, e já não havia espaço para a folia. Vieram os filhos, a casa, um novo bairro, os dias que se repetiam. A beleza da juventude foi ficando pelo caminho, levando junto o compasso e o gingado. Olarias tornou-se visita rara. Dirce não teve tempo para sentir saudade. Havia sempre algo a ser feito, alguém a cuidar, uma rotina inteira a sustentar.
Ainda assim, havia brechas. O Carnaval de 1959, guardado em outra parte do tempo, voltava sem aviso. Nessas horas, os olhos se acendiam e o sorriso se abria largo no rosto. O corpo permanecia quieto, mas não indiferente. Já o samba, que ela prometera resgatar um dia, permaneceu no fundo do baú, restrito aos limites da lembrança.
A sede social do Clube Olinda não existe mais. Nem o salão, nem a coroa. Mas aquilo que foi vivido não se perdeu. Dirce nunca soube, mas nunca deixou de ser Rainha.
*Érica Busnardo é jornalista, e escreveu a crônica originalmente como parte do projeto Memorial da Existência, desenvolvido pela Produtora Inspire Projetos Criativos.