
“Olha a subida que espera eu e o ‘Palião’. Meu Deus do céu, que medo!”, diz Ana Oliveira Santos no início de um de seus vídeos. O post em questão viralizou nas redes sociais nas últimas semanas. A motorista de 28 anos, moradora de Ponta Grossa, encarava pela primeira vez uma ladeira íngreme da cidade, na Rua José Pedro Moreira, ligação entre o Jardim América e a Ronda.
No vídeo, que já ultrapassa 400 mil visualizações no Instagram, Ana baixa o volume do rádio para se concentrar e conseguir concluir a subida. Coloca a primeira marcha e segue, não sem antes brincar: “Estourou o motor agora”.
Vitória sobre o medo de dirigir
Ana contou ao Diário dos Campos que começou a gravar os conteúdos para mostrar seu processo de superação do medo de dirigir e, assim, encorajar outras pessoas. Habilitada desde 2016, ela tinha medo de errar, de bater o carro, de ser julgada, o que a afastou dos volantes por nove anos.
“Eu deixava o carro morrer e já me sentia a pior pessoa do mundo. Hoje eu entendo que é totalmente normal. Ninguém começa sendo 100% bom em algo; a gente melhora com o tempo, com a prática.”
Ponta Grossa ainda impõe um desafio extra aos recém-habilitados por conta de seu relevo repleto de subidas e descidas. “Quando eu saía pra treinar no meu bairro, aproveitava as subidas com preferencial lá no topo pra praticar o controle de embreagem. Eu tinha pavor daquele sinaleiro subindo a Visconde de Taunay; era meu maior medo quando pensava em ir ao Centro. Achava que ia deixar o carro morrer bem ali e não conseguiria arrancar nunca mais.”
Por sorte, ela nunca deixou.
Primeiros vídeos
O desejo de compartilhar a rotina se somou a necessidade prática, e Ana publicou o primeiro vídeo em novembro de 2024. “Era um sonho antigo. Eu já vinha guardando dinheiro de uma época em que trabalhei em dois empregos. A rotina ficou mais apertada. Trabalhei como professora, carregando trabalhos dos alunos e livros, sentia que precisava de um carro.”
Calota arranhada, orgulho intacto
A primeira vez dirigindo sozinha, porém, foi uma experiência difícil. “Saí pelo meu bairro à noite. Fiquei uns 20 minutos dentro do carro tomando coragem. Até assisti a um vídeo no YouTube pra descobrir onde ligava o farol do Palião. No fim, fiz uma oração, e fui.”
Ana arranhou toda a calota naquele dia, mas saiu orgulhosa por ter dado o primeiro passo.
Mulheres na direção
A motorista recebeu inúmeras mensagens, especialmente de mulheres, que também tinham medo de dirigir. Motivada, começou a postar dicas de direção e de como lidar com situações adversas no trânsito. “Quando vejo comentários de mulheres dizendo que saíram de carro pela primeira vez pra buscar o filho na escola ou para trabalhar, eu percebo que vale a pena. Mostrar meus erros e dificuldades ajuda outras mulheres a enfrentarem seus medos.”
Ana, assim como tantas outras, integra o grupo das 2,4 milhões de mulheres habilitadas no Paraná — 39% dos 6,2 milhões de motoristas do estado, segundo dados atualizados em outubro pelo Ministério do Transporte.
Toretto dos Campos Gerais
Hoje, se sentindo a “Toretto dos Campos Gerais” (numa referência bem-humorda ao personagem de Vin Diesel em Velozes e Furiosos) Ana desenvolveu um verdadeiro carinho pelo seu Palio 2009. “É uma conquista enorme, pela qual aprendi a ser grata. Todas as descobertas, todos os momentos de reaprender a dirigir, vivi nesse carro.”, destaca. O conteúdo de Ana segue um formato que tem crescido na internet, no qual usuários registram desafios em momentos cotidianos.
