03 de junho de 2026

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Live: Niltonci Chaves fala ao DC sobre o Museu Campos Gerais


Por Cícero Goytacaz Publicado 07/05/2025 às 18h16 Atualizado 25/02/2026 às 18h41
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Foto: José Aldinan

O Diário dos Campos entrevistou, nesta quarta-feira (7), o Diretor-Geral do Museu Campos Gerais, Niltonci Chaves. Neste mês, comemora-se o Dia do Museu e estão programadas ações para celebrar essa data. O Diretor falou sobre as perspectivas, desafios, projetos e tudo mais sobre o trabalho à frente do Museu Campos Gerais.

Aproximação entre o Museu Campos Gerais e o público

DC: O museu tem recebido um volume significativo de visitantes. Como vocês têm trabalhado para aproximar ainda mais a população desse espaço?

Niltonci: Certo, veja, no ano passado reabrimos a sede histórica do museu, que ficou vinte anos fechada. Esse prédio é o antigo fórum, o primeiro de Ponta Grossa, e fica praticamente em frente à Catedral de Santana, em uma área histórica importante da cidade. Ele passou por um longo processo de restauração e foi entregue à Universidade no início de 2024, sendo reaberto para visitação pública em junho.

De junho a dezembro, tivemos mais de dez mil visitas ao prédio, um número bastante expressivo para Ponta Grossa. Porém, para nós que estamos na direção do museu, ainda é pouco. Queremos levar mais pessoas ao espaço, especialmente aqueles que, historicamente, não frequentam museus.

Nosso objetivo é alcançar grupos que têm dificuldade de acesso à informação e às atividades culturais. Estamos investindo na divulgação por meio das redes sociais, especialmente no Instagram, além do site oficial do museu e da comunicação da UEPG.

Outra estratégia importante é a realização de exposições atrativas. Trabalhamos em parceria com outros museus do Paraná e produtores culturais para trazer mostras interessantes para a população, sejam elas voltadas ao público escolar, que visita o museu com frequência, ou ao público em geral.

Todos os dias recebemos turmas escolares, seja pela manhã ou à tarde. Além das visitas guiadas com escolas, também temos uma frequência significativa de visitantes espontâneos que passam pelo museu ao longo do dia.

Nosso compromisso é manter o espaço cada vez mais atrativo, trazendo exposições que despertem o interesse da população e incentivem o costume de frequentar museus. Queremos que o museu seja acessível a todos!

DC: E como vocês percebem a resposta do público escolar? As escolas têm participado ativamente das visitas?

Niltonci: Sim, a receptividade tem sido muito positiva. Até o final de junho, nossa agenda de visitação de grupos escolares já está completamente preenchida. Isso mostra o quanto o museu se tornou atrativo para os estudantes.

Hoje, nosso carro-chefe é uma exposição sobre Roma, com objetos originais e réplicas históricas. Quando uma criança ou adolescente vê um objeto de dois mil anos de idade e aprende sobre sua função, estamos proporcionando uma experiência única de aprendizado. No ano passado, criamos a “Micro Mostra do Museu”, uma espécie de gabinete de curiosidades, onde exibimos objetos de diferentes épocas, como um telefone de disco, uma máquina de escrever e uma fita VHS. Perguntávamos às crianças o que eram esses objetos, e muitas pensavam que se tratava de um celular! Foi uma forma divertida de mostrar como a tecnologia evoluiu e como o mundo material ainda é fundamental para a sociedade.

Estruturas do Museu Campos Gerais

DC: Além dessa exposição, o que mais está disponível para visitação no novo prédio?

Niltonci: O Museu Campos Gerais opera em dois prédios históricos na Rua Engenheiro Schamber, próximos à Rua Quinze de Novembro e à Marechal Floriano. O prédio restaurado, o antigo fórum de Ponta Grossa, foi revitalizado com recursos do Ministério da Justiça e hoje abriga exposições e áreas técnicas do museu.

Temos um acervo de cerca de 20 mil objetos, mas apenas uma pequena parte deles está em exposição. O restante fica armazenado na reserva técnica, localizada no anexo do prédio, aguardando futuras mostras.

Já o prédio antigo do Banestado, na confluência da Engenheiro Schamber com a Rua Quinze, abriga laboratórios, áreas de restauro e o acervo documental do museu. Além disso, investimos fortemente na digitalização de documentos históricos, com um laboratório de humanidades digitais dedicado a esse processo.

Temos equipamentos que digitalizam grandes volumes documentais, tornando-os acessíveis ao público por meio do repositório “Memórias Digitais”. Atualmente, estamos finalizando a digitalização da coleção do jornal Diário dos Campos, desde sua fundação em 1932 até o final da década de 1950. Em breve, esses arquivos estarão disponíveis online para consulta.

Outra grande inovação é o uso da inteligência artificial na transcrição de documentos antigos. Manuscritos do século XIX, por exemplo, são difíceis de ler devido à caligrafia da época, mas a IA nos permite transformar esses textos em linguagem digital com cerca de 90% de precisão.

Recentemente, firmamos uma parceria com a Câmara Municipal de Ponta Grossa para digitalizar os registros históricos da cidade, incluindo atas desde os primórdios do município. Essa tecnologia será útil não apenas para pesquisadores, mas também para os vereadores, que poderão acessar informações históricas para embasar novos projetos e legislações.

DC: Infelizmente, o prédio do museu já foi alvo de vandalismo e depredação. Como a equipe está trabalhando para preservar essa estrutura revitalizada?

Niltonci: Esse é um problema mundial. Prédios históricos são alvos frequentes de vandalismo e pichações, algo que vemos em qualquer cidade do mundo. Mas não são apenas os patrimônios históricos que sofrem com isso—toda a estrutura urbana enfrenta esses desafios.

No museu, adotamos medidas de segurança como um sistema de câmeras e vigilância monitorada durante o dia. No entanto, o risco é permanente. Estamos sempre atentos para combater esse tipo de violência contra o patrimônio quando possível.

Além disso, o prédio passou por um processo de restauro e, ao final da obra, recebemos um manual de uso, o que nos dá orientações para a manutenção contínua da estrutura.

A direção do museu tem obrigações rotineiras, como acompanhar infiltrações e controlar infestações, principalmente porque a edificação centenária ainda preserva madeiras antigas que podem ser alvo de cupins. Esse trabalho de acompanhamento é contínuo, e a Universidade tem a responsabilidade de garantir a manutenção do prédio.

Já prevemos que, dentro de um ano, será necessária uma nova pintura completa, conforme o convênio com o Ministério da Justiça, que viabilizou o restauro.

O museu está em uma área de grande circulação noturna, o que é ótimo, pois a cidade aproveita esse espaço com bares e restaurantes. No entanto, essa movimentação intensa traz riscos adicionais.

Infelizmente, enfrentamos um grave problema social, que não é exclusivo de Ponta Grossa, mas do Brasil como um todo: o aumento do número de pessoas vulneráveis em situação de rua. Essa região concentra muitos desses indivíduos, e embora o museu tome medidas preventivas, não há como eliminar completamente os riscos que um prédio histórico enfrenta.

O compromisso da nossa equipe é garantir que o espaço continue preservado e acessível ao público, para que a história e a cultura da cidade sigam sendo valorizadas.

Dia do Museu

DC: O Dia do Museu está se aproximando. Há alguma programação especial para a próxima semana?

Niltonci: Sim! No Brasil, temos duas grandes iniciativas promovidas pelo Instituto Brasileiro de Museus: a Semana Nacional dos Museus, que acontece em maio, e a Primavera dos Museus, realizada na primeira semana da estação.

A programação do Museu Campos Gerais começará na terça-feira e seguirá até sábado, com eventos todos os dias. Abriremos com uma palestra do professor Eurípedes Funis, da Universidade Federal do Ceará, na terça à noite.

Na quarta, teremos uma mesa-redonda sobre inteligência artificial e museus durante a tarde, seguida de uma visita mediada à exposição sobre Roma à noite. Essa exposição tem sido um grande destaque e recomendo a todos que visitem!

Receberemos uma professora da Universidade Federal do Paraná e da Universidade Tuiuti para uma palestra sobre o papel social dos museus. Já na sexta-feira, teremos uma mesa online com duas professoras discutindo questões ambientais e museus.

Finalizando a programação com chave de ouro, no sábado, acontece o projeto Rota Preta. É um trabalho fantástico desenvolvido pela pesquisadora Merylin Ricieli, que identificou 51 pontos de presença negra em Ponta Grossa, incluindo locais ligados ao trabalho, religiosidade, lazer, gastronomia e esportes.

Esse projeto leva grupos para visitar esses pontos históricos da cidade. São três roteiros diferentes ao longo do ano. Desde o ano passado, o Rota Preta tem sido um sucesso, reunindo muitas pessoas interessadas em conhecer a história da população negra na região.

As inscrições podem ser feitas pelo site do museu ou pelo Instagram. No Google, basta pesquisar “Museu Campos Gerais UEPG” e acessar nossa página. Lá, há uma ficha de inscrição para cada evento.

Todas as atividades são gratuitas. Nós somos um museu público, ligado a uma universidade pública, e acreditamos que a cultura deve ser acessível para todos.

DC: Esse princípio de gratuidade é algo muito forte na gestão do museu, certo?

Niltonci: Com certeza. O professor Miguel, ao nos confiar a direção do museu, enfatizou que ele deveria atender toda a população. Nós somos um museu escola, extensionista, voltado à cultura e à inclusão.

Desde nossa reabertura, percebemos que algumas pessoas olhavam para dentro do prédio, mas ficavam receosas de entrar por acharem que havia cobrança de ingresso. Por isso, colocamos uma placa que informa claramente: “Entrada Franca”. Queremos que todos saibam que podem visitar o museu gratuitamente.

O Museu Campos Gerais tem um laboratório de humanidades digitais, onde realizamos a digitalização de acervos históricos.

Um dos destaques desse trabalho é a coleção do jornal Diário dos Campos, desde 1932 até o final da década de 1950. Em breve, esses arquivos estarão disponíveis online.

Além disso, estamos utilizando inteligência artificial para transcrever manuscritos históricos, facilitando o acesso à informação. Recentemente, firmamos uma parceria com a Câmara Municipal de Ponta Grossa para digitalizar seus registros desde a fundação da cidade.

DC: Para encerrar, como tem sido para você estar à frente da diretoria do museu?

Niltonci: Com 37 anos de atuação na Universidade Estadual de Ponta Grossa, sempre me dediquei ao estudo da história local e regional. Assumir a direção do museu foi um grande presente.

O museu é um espaço de acolhimento e respeito à diversidade. Recebemos refugiados, menores infratores, pessoas em situação de vulnerabilidade social e buscamos sempre oferecer um ambiente de aprendizado e inclusão para todos.

Ano que vem, encerro minha gestão e, logo depois, me aposento. Sinto que estou fechando esse ciclo realizado, sabendo que contribui para preservar a memória e levar cultura para as pessoas.

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