Lange de Morretes e seu discípulo ponta-grossense


Por diagramacao
Pinheiro Solitário, desenho sobre papel por Jacobus van Wilpe, 21 de maio de 1935 (detalhe)

Pinheiro Solitário, desenho sobre papel por Jacobus van Wilpe, 21 de maio de 1935 (detalhe)

Pinheiro Solitário, desenho sobre papel por Jacobus van Wilpe, 21 de maio de 1935 (detalhe)
Pinheiro Solitário, desenho sobre papel por Jacobus van Wilpe, 21 de maio de 1935 (detalhe)

Frederico Lange de Morretes (1892-1954), pintor, desenhista, gravurista e zoólogo brasileiro, manteve sua escola de desenho e pintura no casarão da rua Coronel Dulcídio, em Curitiba, por 12 anos. Sua esposa, a cantora lírica Bertha Bamberger (1890-1984) ensinava canto e piano, e ambos incluem aulas gratuitas para quem não pode pagar.

O alemão Kurt Boiger (1909–1974) torna-se aluno de Lange em 1932, logo que estabelece em Curitiba. Em 30 de março de 1935, casa-se com Helena Geertruida (1913-2000) irmã de Jacobus van Wilpe (1905–1986).

Jacobus morava em Castro nesta época, onde trabalhava como mecânico. Pintava pôsteres para o cinema, placas para o comércio e cartazes para os circos que passavam pela região. Com telas e tintas importadas a muito custo por sua mãe, começa a arriscar naturezas-mortas, cópias de postais holandeses e umas poucas paisagens.

Jacobus em Curitiba

Quando Jacobus vai até Curitiba, para o casamento da irmã com Boiger, é apresentado pelo casal à “turma” de Curt Waldemar Freyesleben (1899-1970) e Estanislau Traple (1898-1958), apelidada por Theodoro de Bona (1904-1990), outro dos alunos de Lange, da “Montparnasse Curitibana”.

Rodam pelos bares, ateliês e escolas de arte, durante o mês de abril de 1935. João Ghelfi (1892-1954) e João Turin (1878-1949) eram vizinhos de Lange de Morretes, paradas obrigatórias, mas era ao último que Kurt e Freyes queriam apresentar Jacobus.

São recebidos de maneira simples e afetuosa pelo mestre, com um café na cozinha. Kurt se sente em casa: tem aulas com Lange há quase três anos. Lange corta pedaços de papel enquanto conversa e logo estende uma folha e um lápis para Jacobus.

“Desenhe sua mão direita”, pede.

Um convite inusitado

Ele capricha, mostra desenvoltura, e Kurt se empolga. Jacobus continua desenhando o que Lange lhe põe na frente: panelas, candelabros, ferros de passar, taças de cristal, garrafas, o que encontrasse pela frente. Então o mestre se empolga: o rapaz sabe desenhar! Quer ser meu aluno?

Jacobus agradece, envergonhado, mas não acha possível. Não tem como sobreviver em Curitiba, não tem um emprego, nem quem o sustente.

Jacobus já não era um menino, na ocasião. Tinha trinta anos, metade dos quais passados no Brasil, envolvido em toda sorte de trabalhos braçais. Já não ansiava por uma carreira artística, como sonhara na Holanda, onde frequentou museus e começou a pintar.

Lange não se convence, e faz uma contraproposta: tomá-lo como um discípulo, um aluno particular. Jacobus faria seus desenhos diariamente, ali mesmo, na mesa da cozinha, e Lange o ensinaria nos intervalos de suas aulas no ateliê. Jacobus já estava hospedado com os Boiger, e poderia fazer as refeições com a família dele; assim não precisaria de dinheiro algum.

O mestre venceu, e durante pouco mais de um mês, Jacobus frequentou a casa-escola-ateliê de Lange, convivendo com dona Bertha, os filhos e outros alunos.

A mudança de endereço

Em agosto de 1935, Lange vai a São Paulo, convidado para a cadeira de Malacologia da Universidade de São Paulo, e resolve mudar-se para lá. Inicialmente vai sozinho, com a família seguindo no ano seguinte. Convida Jacobus para ir com ele, aprender o desenho científico e ser seu assistente na faculdade. Para Lange, uma amostra de seu apreço, para Jacobus, traumatizado pela pobreza, uma aposta arriscada.

Lange viaja logo depois, e Jacobus retorna a Castro, onde abre uma serraria com outro cunhado, mas nunca deixa de pintar, mesmo porque Freyes e Boiger não o permitiriam. Expõe pela primeira vez em Curitiba, em 1941, pela Sociedade dos Amigos de Alfredo Andersen, e em alguns salões entre 1949 e 1963. Os amigos Freyesleben, Boiger, Traple e Arthur Nisio (1906-1974) frequentariam a sua Chácara Pitangui, em Ponta Grossa, por décadas, onde se reuniam para pintar, prosear e pescar.

Renato van Wilpe Bach é médico, professor e escritor.
Do período com Lange, Jacobus guardou (como relíquia) 28 desenhos, a maioria datados, expostos pela primeira vez na exposição “Jacobus, Pintor dos Campos Gerais” (PROEX/UEPG) em 2022.

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