Diário dos Campos completa 114 anos nesta terça-feira


Por editor

O jornal Diário dos Campos, o jornal mais antigo em circulação no Paraná, completa 114 anos de fundação nesta terça-feira. O primeiro exemplar circulou no 27 de abril de 1907, com o nome ‘O Progresso’, com circulação semanal. A parir de 1913 tornou-se diário e passou a se chamar Diário dos Campos. Foi criado por Jacob Holzmann, em uma época que a consolidação de um jornal imprenso local era sinônimo de desenvolvimento.

Logo se tornou referência de informação e, ao longo de sua história, acompanhou as duas grandes guerras mundiais, a pandemia da Gripe Espanhola, a Guerra do Contestado, a chegada do homem a lua e, principalmente, testemunhou o cotidiano e a história de Ponta Grossa e dos Campos Gerais.

O Diário dos Campos, apesar da idade centenária, se renova a cada dia, tanto na linguagem como na forma de apresentar a notícia impressa. Acompanhou os novos tempos e foi um dos pioneiros a ingressar na era digital. Recentemente fez importantes investimentos na modernização dos seus produtos e da sua estrutura física, montando um estúdio moderno e com equipamentos de última geração. Não é a toa que o seu portal de notícias, o dcmais, adotou o slogan “Tradicionalmente Moderno”.

A história do jornal, chamado de DC pelos amigos, foi contada em livro pela jornalista Alessandra Perrinchelli Bucholdz e pelos historiadores Niltonci Batista Chaves e Fábio Maurício Holzmann Maia. Intitulado “Diário dos Campos: Memórias de um Jornal Centenário” foi editado em 2007. O livro lembra que durante a Primeira Guerra Mundial as informações chegavam à Redação por meio de agências de notícias, que despachavam os conteúdos por telégrafo. Hoje chegam pela internet.

O livro retrata que, nos seus primeiros anos, além de Jacob Holzmann, o Diário dos Campos teve outros diretores, como Juca Hoffmann e Eliseu de Campos Melo, além de repórteres que consolidaram coberturas jornalísticas que marcaram época, à exemplo de Hugo Mendes de Borja Reis. Recém-chegado de São Paulo, Hugo Reis era capaz de debater qualquer assunto, com textos que utilizavam desde a linguagem coloquial até a erudita. Conforme o livro, foi através de grandes coberturas jornalísticas da época que ele firmou importância na comunicação. Mas foi mesmo durante a Guerra do Contestado que Hugo Reis marcou sua trajetória no jornalismo nacional.

Em 1909, o clima de tensão se instalava na divisa entre o Paraná e Santa Catarina. O repórter acompanhava o noticiário de longe, pelo rádio, até que em 1912 o movimento se transformou em guerra. “Durante uma tarde de 1915 ele levantou-se na Redação e disse que iria até a região do Contestado observar a guerra com os seus próprios olhos, para poder relatar os fatos aos leitores. Ao noticiar a guerra, o Diário dos Campos conseguiu ampliar sensivelmente a sua circulação, principalmente no Sul do Paraná”, conta o livro.

Gripe Espanhola e Covid no Diário dos Campos

Com um intervalo de 100 anos, o Diário dos Campos contou lá atrás e narra atualmente em suas páginas os desdobramentos de dois grandes episódios históricos relacionados à saúde pública. Era 19 de outubro de 1918 quando um comunicado publicado na capa do jornal pedia para que a população de Ponta Grossa se prevenisse contra a Gripe Espanhola, que se expandia pelo mundo e havia chegado no Brasil.

Aquela epidemia durou quase três meses e, em Ponta Grossa, foram registradas 100 mortes em decorrência da doença, que atingiu soldados, vereadores, agricultores, médicos e jornalistas do Diário dos Campos. Na época, o jornal chegou a suspender a circulação por duas semanas por conta de um surto junto aos funcionários.

“As notícias falavam em cuidados e precauções para que a população evitasse o contato com o vírus. A transformação do cotidiano também era a tônica das reportagens. Como prevenção, as autoridades determinaram a desinfecção dos trens, bagagens e passageiros. Foi ainda proibida a aglomeração de pessoas em qualquer lugar, seja na estação de trem ou na romaria no dia de Finados”, contaram a jornalista e os historiadores que assinam o livro “Diário dos Campos: Memórias de um Jornal Centenário”.

Um século depois, em fevereiro de 2020, a capa do jornal Diário dos Campos noticiava os primeiros casos de coronavírus no Paraná. E março, a doença era oficialmente notificada em Ponta Grossa. As graves consequências causadas pela covid-19, assim como as orientações sobre os cuidados, semelhantes ao da Gripe Espanhola, passaram a ser divulgadas diariamente, tanto pelo jornal como pelos seus canais eletrônicos.

O historiador Niltonci Batista Chaves, pesquisador do jornal Diário dos Campos há 30 anos, comentou ontem que as duas coberturas do jornal, “respeitadas as diferenças de 100 anos, podemos ver que naquela época também já existia o que hoje chamamos de ‘fake news’, com a divulgação de receitas milagrosas para a cura da Gripe Espanhola. É o que também vemos hoje com a proposta de vários medicamentos indicados para o tratamento da covid-19 e que em todos os momentos da história o jornal pautou suas reportagens em fontes confiáveis”.

Acrescentou que “o Diário dos Campos buscou naquela época informações científicas, orientou seus leitores ao uso de práticas sanitárias de prevenção, assim como mantém o seu posicionamento nos dias de hoje, no sentido de combater as informações falsas”. Para Niltonci, assim como a Gripe Espanhola, os acontecimentos noticiados pelo jornal foi e ainda será uma fonte preciosa para os pesquisadores. “Como historiador, vejo o jornal como algo extremamente importante e confiável. Hoje muitos trabalhos de graduação, mestrado e doutorado utilizam o Diário dos Campos para pesquisas relevantes”, afirmou Niltonci Batista Chaves.

Das formas de chumbo à informatização

Em 1907, a impressão do O Progresso / Diário dos Campos se dava a partir de uma fôrma, montada em chumbo, que era colocada sobre o prelo embebido por um rolo de tinta, passando-os sob os tipos e clichês que compunham a página. Para evitar a secagem da tinta, outro operador colocava a folha de papel na fôrma e descia a alavanca para que a prensa comprimisse o papel, produzindo assim a impressão.

Anos depois, o Diário dos Campos vivenciou o choque tecnológico no que diz respeito ao processo de composição das páginas do jornal, com a invenção do linotipo, que trouxe velocidade ao sistema de composição mecânica. Décadas se passaram e as máquinas de escrever deram lugar aos computadores Macintosh de última geração na década de 1990. Nove anos após a interrupção de circulação, jornal retornou com força total, em 15 de setembro de 1999, dia do aniversário de Ponta Grossa.

O retorno ocorreu por meio de uma sociedade entre o empresário Wilson Oliveira, atual diretor-presidente, e o jornal Tribuna do Norte, de Apucarana. A Redação foi toda informatizada e a recebeu equipamentos mais completos, além de softwares para designer gráfico avançado. Assim, o Diário dos Campos inovou novamente, com edições coloridas e, logo, aderiu ao portal de notícias.

Missão de separar fato de boato

O diretor-presidente do Grupo Diário dos Campos de Comunicação, Wilson Oliveira, lembrou ontem que trabalha com comunicação desde 1989. Começou no Jornal de Londrina, fundado por um grupo de empresários. Em 1999, o jornal foi vendido para o atual Grupo RPCom e, desde então, ele está à frente do DC ao lado da esposa Ana Virgínia Valêncio, diretora-geral e do filho João Henrique Valêncio de Oliveira, diretor de Conteúdo Digital.

“Para nós, é uma responsabilidade grande porque precisamos honrar a história do Diário dos Campos. Em todos esses anos, passamos por muitas mudanças e, mesmo com a pandemia, nos mudamos para uma sede nova, relançamos o nosso portal de notícias e investimos em um estúdio multimídia para a geração de conteúdos e, ao mesmo tempo, mantendo a tradição do jornal impresso”, comemora.

Para o diretor-presidente, o trabalho jornalístico fica cada dia mais importante e relevante. O que está mudando, segundo ele, é a forma de distribuição desse conteúdo, com várias plataformas no mundo digital. “O jornalismo é muito importante para a sociedade, principalmente, nos dias de hoje, quando se tem muita ‘fake news’. As redes sociais possibilitam a democratização da informação mas, por outro lado, vira uma terra de ninguém, sem controle. E a função do jornalista é separar o fato do boato”.

Wilson afirmou que deve haver uma convergência do mundo analógico com o digital, do jornal impresso com o jornalismo digital unindo o que cada um tem de melhor. “No nosso caso, trazemos a tradição do jornal Diário dos Campos somando à cobertura e à velocidade que a internet possibilita. Nossa missão é contribuir para o desenvolvimento de Ponta Grossa e dos Campos Gerais através do jornalismo de qualidade. É para isso que trabalhamos todos os dias”, afirmou.

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