
Foi escolhido o dia 29 de outubro para marcar o Dia Nacional do Livro por ser o dia de fundação da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, por D. João VI, em 1810. É a mais antiga instituição cultural do Brasil e referência na preservação e difusão na produção intelectual do país. Mas a história do livro no Brasil começa bem antes.
A primeira referência à existência de livros no Brasil remete à carta de Pero Vaz de Caminha que mencionou que os padres que vieram nas caravelas trouxeram breviários e missais: “E quando levantamos as mãos, todos levantaram as suas e estiveram assim até que se acabou a missa. E depois trouxeram os livros e cantaram todos muito bem e suavemente, de maneira que parecia muito mais missa de igreja de que de nave”.
Em 1549, Thomé de Souza traz os jesuítas que introduzem os primeiros livros didáticos e religiosos. Esse registro mostra que os livros estariam presentes ainda não como instrumentos de leitura, mas como instrumentos religiosos e culturais. Os livros, durante muito tempo, tinham que ser trazidos da Europa, pois não existia tipografia no nosso país. A falta de tipografia se devia ao fato de que a Coroa Portuguesa proibia a impressão na colônia. Afinal era preciso evitar a circulação de ideias de independência…
O livro era assim um objeto raro e custoso que só a elite tinha acesso. As edições eram importadas das editoras de Lisboa e do Porto. Fora as que eram francesas, alemãs, inglesas e espanholas. Prova disso é que até o final do século XVIII só havia duas livrarias no Rio de Janeiro. Mas com a chegada da Família Real, no início do século XIX, surgiu a primeira tipografia oficial, a Tipografia Vitória Régia, em 1808. Como consequência também surge o primeiro jornal: Gazeta do Rio de Janeiro. Porém temos registros de que os holandeses, durante a ocupação no Nordeste, haviam trazido impressoras por ordem do Príncipe Maurício de Nassau, e produzido publicações de 1630 até 1650. O primeiro livro, conhecido, impresso no Brasil foi Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga, no ano de 1810, sendo que já circulavam folhetos e obras administrativas.
No Paraná não existe registro de quando foi impresso o primeiro livro. Na Biblioteca Pública do Paraná não se identifica qual obra impressa aqui é a mais antiga, apesar de possuir um acervo de obras bastante antigas, como, por exemplo, a edição de Orlando Furioso de Ludovico Oriosto, datada de 1584. Nossa primeira impressora foi a Imprensa Paranaense e foi instalada em 1853, e em 1854 foi fundado o jornal Dezenove de Dezembro por Candido Martins Lopes.
Primeiro livro no Paraná
O primeiro livro publicado no Paraná foi Poemas de Julia da Costa, em 1867, e é considerado um marco de consolidação da vida literária de nosso estado, na segunda metade do século XIX. Fato tardio, pois só com a separação da Província de São Paulo procurou-se instalar uma impressora em Curitiba.
A instalação do jornal é um marco documentado da circulação de textos impressos no nosso Estado e também observamos que é a chance que os autores tinham de conseguirem concretizar a publicação de seus livros. Mas independente do livro impresso, a falta de recursos acabava por produzir livros manuscritos, cuja reprodução dependia de mão de obra para copia-lo, e consequentemente de pequena tiragem e circulação.
O livro manuscrito mais antigo que temos registro é de 1850: Memória Histórica da Cidade de Paranaguá de Antonio Vieira dos Santos.É uma obra considerada importante por conter transcrições de documentos e históricos perdidos. Mas além dele existem livros manuscritos mais antigos assim como Livros do Tombo e Livros Bancários, porém são livros considerados administrativos. O Livro do Tombo mais antigo existente é do ano de 1668-1694 de Curitiba.
Primeiro livro de Ponta Grossa
Em Ponta Grossa, os livros mais antigos são os administrativos de alvarás, contábeis e contas bancárias de 1860. A imprensa veio a se consolidar com a fundação de O Progresso, em 1907, com a publicação regular do jornal. Houve tentativas anteriores como Campos Geraes (1893) e Gazeta dos Campos (1899) mas de existência efêmera. Acredita-se que o livro Miscelânea da História de Ponta Grossa, de Manoel Cyrillo Ferreira, publicada em 1935, é a mais antiga publicação local. Pelo menos é o que se acredita.
Além de conhecimento, os livros são instrumentos de memória e identidade. O livro físico ajuda a desenvolver a capacidade de interpretação crítica, manter o foco e propicia condições para reflexão profunda. Continua sendo um meio de acesso democrático ao conhecimento. O livro digital propicia rapidez e agilidade na busca, portabilidade e acesso instantâneo a um universo de obras. Mas o livro físico, além de complementar a estabilidade, longevidade e experiência sensorial é objeto de afeto, de memória, de pertencimento… tem a textura, a capa, o cheiro, enfim o status intelectual que nos remete a trajetória da nossa existência.
Os livros permanecem essenciais porque oferecem permanência, profundidade e identidade cultural.
Nota: ilustração com capas de livros da Biblioteca Paranista Eno Teodoro Wanke. Inclusive obras raras (edição original do Miscelânea)
e edições impressas em português de editoras do Porto e de Lisboa, Portugal.
*Primeiro ocupante da cadeira 9 da Academia de Letras dos Campos Gerais.